Vocabulário Português – uma reflexão de Paula Nobre

0
67
Vocabulário Português - uma reflexão de Paula Nobre

Vocabulário Português - uma reflexão de Paula NobreTodos nos dizem que o Português vem do Latim, esse Latim falado pela plebe romana, pelos da taberna meios esquecidos, pelos soldados de saia vermelha e armadura ao peito com ar guerreiro e pelos colonos que iam ficando por terra alheia que nada lhe dizia, apenas um rasgo de sol numa vida melhor.

Falado por mercadores que chegavam de todo lado com ar de quem já adquiriu um estatuto nobre e aceitável. Toda esta gente vem com a nova fala para a Península Hispânica nos momentos e desejos da invasão e da conquista de uma raça. Era a língua dos vencedores, estáticos à glória e ao frenesim da espada que derramava o vermelho pelos montes e planícies, deixando o grito da submissão abafado como um eco já esquecido. Ao entrarem nas estradas, veio com eles a tal civilização tão falada para tapar outra tão própia e talvez tão grande no seu tempo. Mas a história só lembra por instantes os vencedores e esquece os vencidos que tiveram que receber a tal língua ali falada, essa era de grau e origem humilde e de carácter popular, afinal não nasceu em berço doirado como falam alguns. Esse Latim popular que mais tarde se transformou na nossa língua, o Português.

  Era o elemento social da época, corria por todas as paredes e avenidas com um vocabulário diferente desse Latim literário, do magno não se ouvia falar mas do grande era o corriqueiro pelas ruas. Recolhia-se a casa e não ao oomu. O latim vulgar percorreu as ruas com a sua linguagem pouco pretenciosa, ouvia-se por todo o lado o cavalo a galope e sua autoridade por cima, com saia cortada às tiras, que passavam perto das casas grandes. O conquistado de boca aberta ali ficava a ver passar toda esta gente que nada lhe fazia sentir. Este povo tinha um ar doméstico, mas de grande magnitude na alma vencida. Essa linguagem usual foi ficando derramada por essas terras conquistadas, é um facto corrente em todos os idiomas e doenças do povo. As mulheres escondiam o rosto dos cavaleiros romanos com o tecido suave e parte do cesto.

  Havia uma tribo selvagem que se sabia por Lusitani, e a terra que pisavam por Lusitânia era um pedaço do Portugal de hoje.  O tempo passava e o Lusitano usa duas línguas uma quando falava e outra quando escrevia. Era costume de um povo que se adiantava na cultura. Os que nos olham hoje, olham-nos como Portugueses e esquecem o Lusitano, mas olhando para nós, vemos que na se-paração do glorioso Rei de Leão a nossa história se abre ao mundo e tudo para trás fica ligado ao nosso passado com Espanha.

  Estava a vaguear para a frente demasiado rápido, resolvi voltar para trás  e logo a seguir, chegaram nessas tardes os Bárbaros e Germânicos que invadiram o que parecia estar sossegado pelo pó do último varrer. Eles entraram pelas armas e mais sangue derramaram no castanho já manchado. Não se preocuparam com a velha cultura que parecia soluçar no silêncio das vozes. A língua, desta forma continuava a mesma, apenas cresceu no vocabulário que carregava a espada e a preocupação da guerra. Era preciso fazer respeitar e agasalhar o soldado bárbaro cansado. Albergar as crianças e velhos desses homens a galope, a  marcha e o orgulho da raça. Nas  luvas, o sangue derramado escorria em gota. Roubar, tirar e trepar era o tema dos dias que pareciam não conhecer o descanso da noite. O elmo na cabeça e o bradar das vo-zes ouvia-se nas ruas e nas salas. Todos os desejos eram militares, o rr dá-lhe o som vibrante próprio das armas. A violência da alma e do vocabulário espalhou-se pelas colinas e campos.

  Já embalados e agasalhados naquela cultura iam três séculos, entram pela sala os Árabes, espalhando-se sem chegar a todo o rodapé da Península. No Cantábrico ficaram os senhores de branco de onde cavalgaram para a reconquista. Essa minoria árabe sofre a influência da cultura e da língua românica na sua alcofa, mas com o seu caminhar recortado, pincelaram as palavras referentes ao azul das artes. Os jogos de xadrez embebidos em garrafas de álcool, abrem porta ao comércio e armazéns coloridos. As ciências cheias de xarope com sabor de queimar lembram as drogarias da terra mãe. Na roupa, oxalá que o alfaiate dobre as bainhas dos tecidos sedosos. Mes-quinho ou pedinte pelo álcool traz o cheiro do alecrim. Mendigando atrás do algarismo, introduzem a matemática. Não tocando na estrutura da língua, apenas pela técnica e gozos do prazer terreno, deixaram a sua marca.

Outras influências chegaram no se reveiller(amanhecer). Povo de apurada cultura logo se fez sentir e ficou entre nós o Conde D. Henrique de Borgonha que combate ao nosso lado pela existência da tão falada nação livre. Ali ficaram embevecidos os Francos pela terra, as suas moças e família beijaram-na desde os paços da Estremadura ao Ribatejo. A nossa liberdada começava a ter uma raíz Francesa, com o estrangeirismo estavamos a ficar afrancesados. Eles nos abraçaram com a língua através dos séculos, esquecidas a razão e a claridade.

Os nossos trovadores embalados no lirismo Francês começam belos trabalhos de literatura e poesia. No virar dos séculos, desbrotam as ideias vindas de França, Inglaterra e Alemanha, trazem consigo o bibelot que se veste em forma de jarra, ou a estatueta exótica, caixas que guardam se-gredos e cartas de amor. A mulher coquete veste a finura do tempo e na sua passagem traz o agrado. O lanche à tarde traz a envoltura do ambiente do prado.
  O entender do vocábulo nunca foi claro, pois nunca poderemos compreender a existência desses momentos na história perdida pelo homem.