Venda das seguradoras da CGD traz mudança de peso no mercado

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A privatização das seguradoras do Grupo Caixa Geral de Depósitos (CGD) vai alterar o equilíbrio do mercado segura-dor português, mas não tira o sono ao presidente do supervisor, Fernando Nogueira, que realça os níveis concorrenciais do sector.

 “É uma situação que, dada a quota de mercado das seguradoras do Grupo CGD [acima de 30 por cento], se isso se verificar em 2012, vai originar uma mudança de peso” no setor segurador português, afirmou o presidente do Instituto de Seguros de Portugal (ISP).
 “Não é de esperar que isso, em si, altere os aspectos da concorrência. O mercado português tem níveis concorrenciais muito consideráveis, e de inovação. Mesmo esta concentração de quota no Grupo CGD não originou qualquer quebra nos níveis concorrenciais. O mercado tem sido muito concorrencial”, considerou.
 Segundo Fernando Nogueira, “a atestar isso, os resultados da área Não Vida reflectem exactamente a forte concorrência a que se tem assistido no mercado português”.

 Questionado sobre se a entrada de novos operadores e de investidores estrangeiros no sector seria bem vista pelo supervisor, Fernando Nogueira diz que não compete ao ISP pronunciar-se sobre isso, já que “acima de tudo, a preocupação do ISP é que os operadores disponham de ‘know how’ e conhecimento específico da área seguradora, para que as condições da oferta sejam sempre as melhores”.
 E ralçou que um aspecto muito importante para o supervisor é “a manutenção e a melhoria, desejavelmente, dos níveis de solvência” dos operadores.
 “Ainda há bem pouco tempo assistimos a uma alteração num operador com uma grande tradição, ligado a empresas estrangeiras, que mudou o controlo accionista, e as coisas processam-se de forma normal. O propósito dos novos accionistas é trabalharem no sentido de um equilíbrio de exploração e de uma melhoria dos níveis de solvência”, exemplificou, apontando para a mudança da Victoria de mãos alemãs para francesas.
 “O mercado português está muito habituado a operadores muito bem posicionados nos mercados internacionais ligados a companhias portuguesas. Não é novidade. Nós temos dos maiores operadores dos mercados mundiais a trabalharem em Portugal”, realçou o gestor.

 O gestor reforçou: “Os maiores operadores europeus estão cá representados. Não temos nada a temer nisso. O que nos interessa é que o mercado mantenha uma gestão técnica muito profissional, com sustentabilidade na gestão técnica e níveis de serviço e de solvência iguais ou melhores do que aqueles que temos tido até aqui”.
 Refira-se que a taxa de cobertura da margem de solvência das seguradoras em Portugal situou-se, em 2011, nos 180 por cento (mais 10 por cento do que em 2010).

 “A subida espelha bem a capacidade de resiliência do setor segurador”, salientou Fernando Nogueira, sublinhando que as seguradoras que supervisiona detinham no final do ano passado capitais próprios de 3,6 mil milhões de euros para a cobertura de responsabilidades de 2 mil milhões de euros, isto é, um excedente de 1,6 mil milhões de euros.
 O responsável revelou que, em 2011, o reforço de capitais próprios ascendeu a 260 milhões de euros, e que nos últimos anos o aumento foi de mil milhões de euros.

Lucros das empresas seguradoras descem 91% para 36 ME em 2011

 O resultado líquido das 45 seguradoras que envolvidas no mercado português caiu de 397 milhões de euros, em 2010, para 36 milhões de euros, em 2011, uma descida de 90,9 por cento, avançou o presidente do ISP.
 “A forte redução do resultado global é explicada pelo facto de a área Vida estar muito exposta à evolução dos mercados de capitais, que passaram por dificuldades em 2011.  Parte considerável da quebra está relacionada com as imparidades que foram assumidas pelo sector segurador, sobretudo, por causa das dívidas soberanas detidas em carteira”, revelou Fernando Nogueira, presidente do Instituto de Seguros de Portugal (ISP).
 Além da questão da dívida soberana, o desempenho geral do mercado em 2011 “não foi o melhor”, sublinhou o responsável, numa alusão à desvalorização generalizada dos activos, quer na classe das acções, quer no segmento das obrigações.

 Em 2010, os lucros das seguradoras supervisionadas pelo ISP ascenderam a 397 milhões de euros mas, no ano passado, a rentabilidade caiu significativamente, com 35 operadores a obterem, em conjunto, um lucro de 204 milhões de euros, mas com o saldo global a ser afectado pelos prejuízos de 169 milhões de euros registados por 10 operadores.
 “Mesmo nos operadores com resultados positivos, a média dos lucros baixou para 6 mi-lhões de euros por operador”, assinalou o líder do supervisor do setor dos seguros e dos fundos de pensões. Já no lado das perdas, o prejuízo médio por operador ascendeu a 17 milhões de euros.
 Também o agravamento da componente da sinistralidade na área não vida pesou sobre os resultados das seguradoras, com a taxa de sinistralidade nos seguros de acidentes de trabalho a subir dos 82 por cento, em 2010, para os 90 por cento, em 2011. Nos seguros de doença, a taxa de sinistralidade cresceu de 79 por cento (2010) para 82 por cento (2011) e nos seguros automóvel passou de 72 por cento (2010) para 73,5 por cento (2011).

 “Qualquer destes ramos, em que há uma menor transferência do risco para os seguradores, com alterações ao nível da taxa de sinistralidade, tem os seus reflexos negativos no resultado técnico, portanto, parte da quebra dos resultados resulta do comportamento destes três ramos”, explicou o presidente do ISP.
 Até porque, no conjunto dos seguros contra danos patrimoniais, incêndios e outros danos, 2011 foi um ano afetado por menos sinistros, já que em 2010 houve as intempéries na Região Autónoma da Madeira, com reflexos nos resultados das seguradoras, como frisou Fernando Nogueira.
 Certo é que a crise da dívida soberana prejudicou, e de que maneira, os resultados das seguradoras em Portugal. Ainda durante a apresentação das contas do Grupo Caixa Geral de Depósitos (CGD), foi revelado que só a dívida grega detida pelas suas seguradoras afectou os resultados do banco público em 133 milhões de euros.

 O presidente da CGD, José de Matos, chegou mesmo a revelar que a área seguradora do grupo deu lucros de 35 milhões de euros em 2011, mas que os mesmos ultrapassariam os 100 milhões de euros caso não houvessem em carteira títulos de dívida pública grega.
 “A área seguradora continua a ser o maior investidor institucional em Portugal, com 40 mil milhões de euros de ativos sob gestão”, salientou Fernando Nogueira, o que explica o forte impacto do andamento dos mercados sobre a actividade.