Tempo de Natal e de reflexão

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Estamos a chegar quase ao fim do ano e a vivermos mais uma quadra natalícia, esta marcada por problemas de dimensão global que, a não serem resolvidos com medidas equilibradas, podem colocar em risco a segurança e a estabilidade do mundo. Entre os mais graves, encontram-se a ameaça nuclear gerada pelos ensaios balísticos da Coreia do Norte e a ira colectiva dos países árabes no Médio Oriente provocada pela recente decisão dos Estados Unidos de transferirem a sua Embaixada em Israel para a disputada cidade de Jerusalém, que não passaria de uma simples medida administrativa norte-americana se não lhe tivesse sido dada qualquer importância política, ignorando-a. Assim, Donald Trump teve a reacção pretendida.

  2017 foi um ano que, devido a crises económicas regionais, mais pessoas caíram na miséria. Foi um ano em que as elevadas taxas de desemprego não baixaram. Foi um ano de fraco entendimento mundial nas questões ambientais, com a sobre-posição dos interesses económicos de grandes países poluidores aos factores das alterações climáticas – caso dos Estados Unidos que renunciou ao Acordo de Paris-, que representam uma ameaça iminente e universal, colocando em risco a segurança alimentar e o acesso à água, devido ao aumento da frequência das catástrofes climáticas. Foi um ano de grande fraqueza na justiça administrada pelos tribunais. Foi um ano que evidenciou a fraca qualidade do ensino ministrado pelas escolas e universidades.

  Mas como este período do ano também é de reflexão, existe a esperança que a crise tenha um lado positivo e contribua para que o mundo volte a descobrir a mensagem espiritual do Natal, caracterizada pelos valores da humildade, da amizade e da solidariedade, com apelos à união de esforços numa causa comum.

  Natal é já dentro de duas semanas. Este ano é a uma segunda-feira, mas todos os dias do ano são bons para abordar e resolver os problemas colectivos. Todos os dias são bons para apontar as desigualdades sociais como o maior desafio da globalização. Todos os dias são bons para que, a par do desejado crescimento económico e do progresso tecnológico, haja busca de soluções para a fome, o desemprego, as doenças, a falta de água e de escolas nos países mais pobres. Todos os dias são bons para alertar a consciência dos responsáveis pela governação – cada vez menos transparentes no desempenho das suas funções, nomeadamente com a aplicação indevida de fundos públicos – para os números contundentes da miséria que assola a humanidade.

  Mas há um dia que se aproxima, o de Natal, que justifica de cada um de nós um momento de reflexão pessoal sobre o mistério do Mundo e do filho de Deus que há 2017 anos se fez homem para habitar entre os mortais e lhes ensinar o comportamento conducente ao caminho da salvação espiritual.

  Trata-se de uma ocasião propícia para cada um meditar sobre os valores espirituais e o contributo que pode ser dado para a fraternidade neste mundo, quando se festeja um dos maiores valores institucionais da nossa civilização – a Família, simbolizada em redor do nascimento de Jesus.

  Com vista a podermos enfrentar e combater com maior coragem e determinação os desafios do futuro, na viragem de mais um ano que se aproxima, escolhamos o Natal como o tempo adequado para procurar interpretar os ensinamentos que Cristo pretendeu transmitir ao longo da Sua vida, sempre com o objectivo de todos os homens e mulheres poderem conviver em paz.

  Hoje, se não há paz nem segurança e há mais crime, é porque há gente descristianizada. Por isso, para que o mundo seja melhor no futuro, há que começar nas escolas a rearmar a consciência dos jovens e a inverter a tendência generalizada de diluir comportamentos que pretendem esbater as fronteiras da definição entre o bem e o mal. É esse relativismo que hoje está a confundir a definição de valores, a corromper as leis feitas pelos homens e a enfraquecer os homens feitos juízes.

  A paz só se consegue se houver justiça, solidariedade e amor. E do amor faz parte o perdão.

  Mas o perdão, que se pede e que se dá, não deve diminuir a exigência de reparação, que é parte da própria justiça, já que o respeito pela verdade e pela justiça são pressupostos do mesmo perdão.

 Referencial de amor e de bondade, a Igreja, intérprete dos ensinamentos deixados por Cristo à Humanidade, apela igualmente nesta altura do ano à concessão de amnistias, por parte dos poderes constituídos em cada país, aos que prevaricaram e àqueles que publicamente reconheçam os erros cometidos.

  A nível internacional, recordo a situação tensa que permanece no Médio Oriente, onde Jesus Cristo veio ao mundo terreno e onde só haverá paz quando toda a Humanidade redescobrir a sua vocação originária de ser uma única família, na qual a dignidade e os direitos das pessoas sejam reconhecidos. Porém, noutros locais, a simples ausência de guerra também não é sinónimo de paz duradoura. Por isso, há que garantir a tranquilidade, antes que se desencadeiem conflitos sociais, levando os homens a percorrer os caminhos da equidade, da verdade, da justiça e da solidariedade.

  Natal é tempo de amor. É tempo das mais belas mensagens de fraternidade cruzarem o Mundo, trocando-se, a acompanhar lembranças, manifestações de amizade, de reconciliação e de humildade.

  Que o espírito de Natal seja o espírito de todos os dias. Porque só assim poderá ser melhor o próximo ano.

  1. VARELA AFONSO