Simone Martins é uma jovem chefe sobre rodas com paixão por Português

0
103

Com o cabelo cor-de-rosa choque e um sorriso enorme, Simone Isabel Martins chama a atenção de longe. Esta jovem chefe de cozinha, de 21 anos de idade, deixou as cozinhas dos restaurantes e hotéis e investiu num empreendimento diferente: uma cozinha ambulante. Com corres garridas e grafismo apelativo, Simone Martins faz festas e eventos vários aos quais leva a sua versão de comida rápida, de pratos tradicionais e nova culinária de fusão. O Século de Joanesburgo foi saber junto desta jovem portuguesa empreendedora o que é que é preciso fazer para ter um negócio destes, o que a levou a fazê-lo e como tudo começou antes de se pôr à estrada. Recebeu-nos em sua casa e preparou-nos umas asas de frango asiáticas fritas, tipicamente à lá OMFG! – “Oh My Food Gasm!”

Michael Gillbee: Dê-nos um pouco do seu historial, onde é que nasceu? Onde é que cresceu? Onde é que frequentou a escola?

  Simone Martins: Eu nasci aqui em Alberton no Union Hospital. De uma idade muito tenra, sempre fomos a Portugal para passar tempo com a minha “Vovó” e desde aí que estava na cozinha. Desde os quatro anos tinha um avental e estava a cozinhar e foi aí que a paixão pela culinária começou. Adoro esses momentos e são os meus preferidos de lembrar, sempre que estava a cozinhar com a minha avó.

  A minha outra avó, “Vovó Isabel”, costumava tomar conta de nós e fazia a melhor comida de sempre. E sendo eu portuguesa, a comida está sempre à nossa volta. Gostamos muito de comida, de comer. A minha mãe, a minha tia, durante a época do Natal a mulheres estão todas juntas na cozinha, a limpar os camarões e a preparar os pratos todos. Eu não frequentei a escola, fiz escola em casa até aos 13 anos de idade e, portanto, sempre passei muito tempo em casa com a minha mãe e a minha avó. Fui depois para a Grace Trinity School for Girls aqui em Alberton e era uma escola muito pequena. Havia apenas 62 alunas desde o Grade 1 ao Grade 9. Foi o primeiro dia de escola, era tudo diferente e foi aí que descobri o que queria realmente ser e desde sempre quis ser um chefe de cozinha. Originalmente queria tornar-me numa pasteleira, mas depois fui para uma carreira mais abrangente. Estudei na FBI Chef School – que é a Food and Beverage Institute em Randburg. Comecei a trabalhar num estágio no restaurante “DW 13 Eleven” sob as ordens do chefe Marthinus Ferreira que trabalhou com o chefe Gordon Ramsey. Onde comecei a trabalhar aos fins-de-semana enquanto estava a concluir o curso. Depois, surgiu a proposta de um chefe de cozinha da Cidade do Cabo, Jorge Jardine para o ajudar num evento em Stellenbosch e aceitei. Trabalhei três dias e no final do segundo dia propôs-me mudar para a Cidade do Cabo.

  MG: Quanto tempo ficou na Cidade do Cabo? Mais concretamente em Stellenbosch?

  SM: Fiquei lá durante anos. Foi em 2017 em Janeiro. Foi a coisa mais maluca de sempre, eramos quatro na cozinha e fazíamos entre 40 e 80 pratos por dia. A cozinha era minúscula.

  MG: Que tipo de restaurante era?

  SM: Jardine Restaurante é comida gourmet. A comida é impecável, tudo tem 10 componentes diferentes e é absolutamente divinal. No início não tinha ideia nenhuma do que estava a fazer, tinha acabado de sair da escola. E, a primeira coisa que me disseram foi “esquece tudo o que aprendeste”. E foi o que fiz e muito depressa tive de aprender a conquistar o meu lugar dentro da cozinha. Foi muito difícil, estava no trabalho entre as 7h30 e as 8 horas e saía às 22h30 – 23h. Raramente tínhamos uma refeição em equipa ou intervalo. Eram quatro dias por semana e tinha um dia de folga. Trabalhei que nem uma maluca, mas definitivamente formou-me como chefe.

  MG: Portanto, deu-lhe as fundações para absorver pressão?

  SM: [exclama] Exacto! Quando as coisas se complicam e só há quatro na cozinha e há dezenas de pessoas com fome e não se pode tê-las à espera por mais de dez minutos por uma refeição, aprende-se como ser rápido, a suster e absorver a pressão. Jardine é um chefe que faz tudo com produtos frescos.

  MG: Como é que a carrinha começou?

  SM: No final do primeiro ano de lá estar, portanto Janeiro 2018, eu tinha imensas saudades de casa. Não conhecia ninguém na Cidade do Cabo, não me estava a dar bem fora do trabalho. E queria desistir e não queria estar mais no Cabo. Queria voltar a estudar. Isto da carrinha, da cozinha ambulante sempre foi uma espécie de sonho meu. Uma ideia, vá! E era o que me motivava a suportar os dias, “isto está a preparar-me para o que eu quero fazer”.

  MG: Mas, o que é que a inspirou a montar uma cozinha ambulante?

  SM: Eu sigo muitas destas carrinhas nas redes sociais e há programas de televisão e é tudo nos Estados Unidos da América. E sempre adorei a ideia de que se pode arrumar tudo e ir em direcção a um local novo. E não se espera por clientes, vai-se até aos clientes! Pode-se “brincar” com o menu, ser criativo, mudar regularmente e as vezes que se quer. Eu apaixonei-me com isso. E isto surgiu de um dia, estávamos a dar um passeio – os meus pais tinham ido de férias a Stel-lenbosch – e o meu pai perguntou-me qual era o meu sonho e eu contei-lhe. Já tinha pensado num nome, no início era “The Foodgasm” e sabia exactamente o que queria. O meu pai disse-me “OK, vamos tornar esse so-nho uma realidade!” Três meses depois disso eu apresentei a minha demissão, comecei a pesquisar. Vimos carrinhas em segunda-mão, procuramos fabricantes e marcas diferentes, todos os aspectos envolvidos. Concluímos, depois de olhar para todos os outros e as ofertas que têm, criarmos nós, à nossa medida, a carrinha. Comprámos a carrinha e equipámo-la. E decidimos neste processo, ir a uma pessoa para fazer uma montagem especial. Ao invés de irmos a uma empresa para ela fazer toda a instalação, quisemos certificarmo-nos de que especialistas fariam cada instalação. Ou seja, os congeladores e frigoríficos, a extracção, instalação de gás. Queríamos que cada coisa fosse feita por um especialista e não tudo feito por uma única pessoa, assim teríamos os melhores materiais e as coisas feitas da melhor maneira.

  MG: E isso abarcou tudo?

  SM: Sim, até o grafismo. Mas não encontrei ninguém que fizesse ou conseguisse exprimir a minha ideia, portanto resolvi aprender a utilizar Photoshop e fiz o desenho gráfico de toda a carrinha. Não usei um profissional gráfico, o logotipo foi desenhado em conjunto com a namorada do meu irmão, a Ilsa e um amigo meu que é designer gráfico. O sócio do meu irmão usou o programa Adobe Illustrator e através de uma fotografia minha, fez um cartoon. No interior, eu e o meu pai, medimos tudo até ao milímetro e desenhamos o interior da carrinha.

  MG: Conte-nos, como é que funciona? A que eventos é que vai? Sai todos os dias e estaciona num local e vende comida? Como é que funciona?

  SM: De momento estamos apenas a fazer eventos. Fazemos dias de desporto nas escolas, fazemos festas de anos, fazemos todo o tipo de eventos empresariais. Fazemos festas de lançamento, festivais de música. Ainda não estamos a estacionar na rua, somente porque é um risco de segurança e toda a minha equipa é constituída por mulheres. Decidimos, por isso, não estacionar num sítio e esperar por clientes. É por isso que estamos a trabalhar com agendamento de eventos.

  MG: O que inspira o seu menu?

  SM: O meu menu é constituído por produtos sazonais. Eu estou sempre à procura dos melhores produtos que consigo encontrar, estou sempre de olho nisso. Não quero comprar nem utilizar nada fora de época. Ou seja, se mangas estão fora de época, não vou utilizar mangas ou morangos. Ou abóbora ou maçarocas de milho. Entende? Quero ajudar o meio-ambiente e fomentar a economia e indústria agrária local. E cada época é tão mágica por si própria que eu quero enaltecer e utilizar toda essa riqueza natural. Além disso, a Natureza não quer que comamos morangos se não é altura deles, não é? Como outro exemplo que posso dar, a romã. É altura da romã e por isso incorporo em tudo, nos molhos, nos temperos, como cobertura ou acrescento a um prato. Estou a tentar mudar o estereótipo de má comida rápida, para boa comida de forma rápida!

  É para onde sigo com a minha carrinha.

  MG: Há quanto tempo é que está em funcionamento?

  SM: Julho será o nosso quinto mês. Começámos a 24 de Fevereiro. Na semana seguinte tivemos um evento e na semana seguinte ligou-me um dos organizadores da “Warrior Race” e pediu-nos se podíamos participar com a carrinha. E fizemos a “Warrior Race” com quatro mil pessoas e foi o segundo evento que fizemos. O resultado é que esgotámos todo o stock. O mais incrível para mim, foi que mesmo depois de terem levado a co-mida delas, as pessoas voltavam só para dizer que a comida estava óptima.

  MG: Tendo crescido em torno de avós portuguesas, a forma como cozinha e as suas receitas são influenciadas pela colunária portuguesa?

  SM: [exclama com um sorriso] Definitivamente que sim! Tudo o que faço vem daquilo que conheço e da-quilo com que fui criada. As minhas receitas são uma lista de receitas, da mesma forma como a minha avó punha coisas num tacho e ia provando, é exactamente o que nós fazemos. Os meus sabores vêm dos básicos da culinária portuguesa. Até para o tempero do porco desfiado, a paprica e as outras especiarias vêm da influência portuguesa. Eu apenas “ajusto” a intensida-de. 

  MG: De onde é que vem a sua família em Portugal?

  SM: Somos de Soutocico, nos arredores de Leiria. É o local mais lindo do Mundo para mim, simplesmente amo o local onde a minha avó tem casa.

  MG: Com que frequência vai a Portugal?

  SM: Tentamos ir todos os anos ou de dois em dois anos. Ficamos três a quatro semanas lá. Espero poder para o ano ir com a minha avó e passar uma boa temporada lá com ela e aprender com ela as receitas tradicionais que ela sabe. Quero aprender a arte de receitas tradicionais, sinto que a minha geração, a História está-se a perder. Não está a ser passada e quero certificar-me que isso não acontece!

  Porque uma coisa é aprender e ler a partir de um livro de receitas, outra coisa é aprender com a “Vovó” exactamente o que ela faz, porque faz e como faz. Quero fazer uma tournée culinária, mas com a minha avó.

  MG: Tenciona mudar-se para Portugal?

  SM: [sorri abertamente] definitivamente!

  MG: O que é que sabe da cena gastronómica em Portugal?

  SM: Eu sei que as carrinhas de cozinhas ambulantes estão na moda. E sei que há uma onda em torno das cozinhas sobre rodas e já estivemos a pesquisar.

  MG: O que inspira a Simone? Também em termos de chefes de cozinha?

  SM: A minha maior inspiração é o meu pai. Ele mostra-me o quão empenhado se tem de ser para se conseguir ter sucesso na Vida. Ele trabalha muito e tudo o que ele faz, faz a 100%. Crescer com isso, é uma influência que me moldou e moldou a forma como faço a gestão da minha carrinha. E no que toca aos chefes de cozinha, são aqueles cuja paixão os motiva e impele. Há pessoas na Ásia com a “comida de rua”, carrinhas de comida nos Estados Unidos, ver como eles estão a mudar a visão que se tem das carrinhas de comida, é algo que me inspira.

  MG: Fala Português muito bem. O que a atrai à língua?

  SM: Eu não quero perder o amor por ser portuguesa. Por Portugal e quero certificar-me que esteja sempre lá. Aliás, é parte de quem sou e do que sou. É a espinha dorsal de quem sou. Quando olho para outras pessoas da minha idade e me dizem que são portugueses e depois não sabem uma palavra, acho muito triste! Porque, sim pode-se dizer que se é português e tira-se “crédito” da fama do Cristiano Ronaldo e tudo isso, mas isso é extensão da portugalidade dessas pessoas. Eu não quero que aconteça comigo nunca! Amo as nossas tradições, desde pequena que os meus pais queriam falar Inglês comigo e eu ficava chateada. E se falassem em Inglês comigo, eu respondia em Português!

  MG: Qual é o seu prato favorito?

  SM: Se cozinho só para mim, uso influências asiáticas. Gosto de ser rápido, ter imenso sabor e ser muito saudável. [pondera] Agora, prato favorito? [suspira e pensa] Está constantemente a mudar. Presentemente são as minhas asas de frango asiáticas fritas. Eu penso que são deliciosas. Muda, costumava ser barriga de porco assada com uma redução de vinho tinto. Mas à medida que entro mais no mundo da comida rápida, mais descubro e o gosto varia.

  MG: Qual é a sua visão sobre os restaurantes por-tugueses na África do Sul?

  SM: É maravilhoso haver essa opção aqui. Se tiver vontade de comer bacalhau à Brás, pode-se ir a um restaurante português e comer. É algo que lembra Portugal! Traz à memória coisas boas e precisamos de os ter, quanto mais tradicionais melhor! Gosto mesmo muito!

  MG: Para quem está a começar, que conselhos é que pode dar?

  SM: Arrisquem e saltem de cabeça! É de loucos, é amedrontador, mas é a coisa mais recompensadora que já fiz! É o melhor emprego e adoro estar na carrinha. Ser chefe de cozinha é a minha paixão. Não é uma profissão nada fácil, mas no fim vale a pena!

  Simone Isabel Martins é doce de personalidade e transborda energia. O que a caracteriza, para além da personalidade electrizante, é o sorriso permanentemente estampado na cara e o cabelo rosa-choque, qual farol, aponta para onde está a qualquer momento. De estatura baixa e elegante, esta jovem meiga possui uma forte paixão pela gastronomia portuguesa, pelas raízes culturais e tenta dar a tudo o que prepara um toque luso, bem como beber inspiração de pratos portugueses. Absorve todos os conselhos e inspiração que lhe são dados para continuadamente melhorar. Com um forte sentido de trabalho e uma ambição em igual medida, Simone está a levar refeições da mais alta qualidade, a preços acessíveis aos mais diversos lo-cais, da forma mais rápida. Simone Isabel Martins é sem sombra de dúvida um dos brilhantes futuros da cena gastronómica sul-africana.