Shannon-Lee Ribeiro Pires – a Jovem Portuguesa de Joanesburgo que faz sucesso na indústria de seguros de alto risco

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  Shannon-Lee Ribeiro Pires, jovem de 24 anos de idade, nascida e criada em Joanesburgo, enveredou, depois de concluir os estudos, pelo ramo dos seguros e avaliação de propriedades e imóveis de alto risco. Especializada no mercado lusófono, o Século de Joanesburgo foi saber junto de Shannon-Lee de que indústria se trata e o trabalho que faz. Na Belém em Glenanda, isto foi o que nos revelou.

  Michael Gillbee – Comecemos pelo princípio. Dê-nos um pouco do seu historial, onde nasceu, estudou e o que estudou?

  Shannon-Lee Pires – Nascida e criada em Joanesburgo, em Glenvista. Frequentei a escola primária de Glenanda, fui “prefect” na Glenanda Primary School, frequentei a Glenvista High onde fui a Deputy Head Girl. Estudei na Universidade da Wits, estudei e tirei o curso de Ciências Empresariais, com especialização em Marketing e Gestão de Risco. Especializei-me e fiz o “honours” em Seguros e Gestão de Risco.

  Actualmente estou a trabalhar para uma empresa chamada Munich Re, uma empresa de seguros. Basicamente é uma seguradora de seguradoras. Eu sou uma “property facultative underwriter”.

  MG – Explique-nos o que faz.

  SP – Eu avalio e orçamento o risco de segurar uma propriedade, um imóvel. “Facultative” significa que me ocupo de grandes riscos únicos. Avalio grandes imóveis, como por exemplo, estádios, hotéis, fábricas, fábricas de cimento, centrais de produção de energia eléctrica. É nisso que eu me especializei, na avaliação de risco de grandes imóveis.

  MG – Mas no dia-a-dia o que é que faz? Visita muitos locais, como estádios e outros imóveis?

  SP – Eu, tecnicamente, não me desloco aos locais. Sento-me em reuniões com os clientes, que são as empresas de seguros ou os chamados “insurance brokers”. Todas as grandes empresas seguradoras.

  Somos, a Munich Re, a maior empresa seguradora de seguros do Mundo, uma empresa internacional. Estive na sede em Munique, Alemanha. Tenho essa sorte de poder viajar muito. Especializei-me no mercado lusófono, lido muito com Angola e Moçambique. Avalio e asseguro muitos dos imóveis de risco nesses países. E estou na África do Sul também, claro!

  MG – Por falar e escrever fluentemente Português, tem essa oportunidade e mais-valia de trabalho.

  SP – Exactamente. Por ser fluente em Português, lido com os clientes, é mais fácil lidar com eles falando a língua. Especialmente no que toca a lidar com as seguradoras nesses países. Alguns dos relatórios de ava-liação de risco estão em Português e é importante compreender o relatório para perceber o risco.

  MG – Há quanto tempo é que trabalha nesta indústria?

  SP – Estou a trabalhar desde Janeiro do ano passado. Entrei no programa de estagiários licenciados, ofereceram-me um cargo permanente ao fim de nove meses de lá estar, o que é um grande feito, porque na generalidade isso não acontece tão depressa! Os nossos contratos são de termo certo, de um ano e só depois, se quiserem que nos mantenhamos na empresa, prolongam o contrato. Eu fiquei efectiva no espaço de nove meses.

  MG – Gosta daquilo que faz?

  SP – [sorri] Sim. Estou a adorar! Completamente. Eu ainda estou a estudar, a empresa incentiva a isso. Pagam-me os estudos. Estou agora a tirar um diploma adicional de “Charted Insurance”, através de Londres.

  MG – E que idade é que tem?

  SP – Tenho 24 anos de idade, para o ano faço 25.

  MG – O que é que a fez ingressar neste ramo de activade?

  SP – Foi sorte, basicamente. Não sabia o que queria fazer ao acabar a escola, decidi fazer um BCom General, as cadeiras vão-se especializando e acabei com Marketing, Seguros e Gestão de Risco. Depois tive que fazer os “Honours” numa especialização e escolhi Seguros e Risco. Depois escolhi o ramo onde estou, assegurar os seguros, porque foi algo que me interessou particularmente. Candidatei-me às várias empresas e fui aceite na Munich Re.

  MG – Em termos do actual panorama na África do Sul, com a expropriação de terras sem compensação, como é que a medida afecta o mercado e como vê essa situação?

  SP – Não, não nos afecta. Eu lido com grandes empresas, não estou no mercado imobiliário de habitação. Não é algo que me irá afectar no meu ramo de actividade. Pessoalmente, para mim, é uma preocupação e para o futuro da África do Sul. Mas nos negócios não nos afecta de modo algum. Os nossos clientes não falam nisso, geralmente sucede às classes socio-económicas mais baixas e nas áreas menos desenvolvidas, provavelmente e não tanto nas áreas urbanizadas, onde está o nosso mercado.

  MG – Portanto, relativamente a fábricas e zonas industriais, não há risco?

  SP – Não. E não no meu sector, porque estou no topo da cadeia alimentar, não há ninguém acima de mim. As coisas que acontecem lá no fundo não nos afectam! Primeiro irá afectar as pessoas mais próximas desse sector, como os seguradores directos, as seguradoras.

  MG – As principais infraestruturas do país não serão afectadas?

  SP – O que nos afecta é o facto da nossa economia estar a abrandar, o facto de estar a retrair, de não haver dinheiro suficiente nos mercados, daí que a primeira coisa a sair pela janela é a Gestão de Risco. Se isso sai, as pessoas não implementam medidas de segurança, não colocam sistemas de apagar fogos, não fazem o melhoramento dos sistemas, maior risco para nós, mais participações de seguros. Mais participações, eu recebo bónus mais baixos [sorri]. Menos dinheiro para a empresa, porque temos que pagar as reclamações de seguros.

  MG – De onde é que vem a ligação portuguesa?

  SP – Os meus avós nasceram em Portugal, o meu pai já nasceu em Moçambique. A família mudou-se para cá durante as convulsões mas a minha mãe já tinha nascido aqui na África do Sul. Sou a segunda geração nascida na África do Sul. Mas já fui duas ou três vezes a Portugal.

  MG – Mas a Shannon-Lee é fluente em Português, escreve e lê?

  SP – [hesita] A escrita precisa de um pouco mais de treino. Mas leio sem problemas e percebo sem problemas. Alguns verbos e termos técnicos em Português tenho alguma dificuldade. Mas sim, a falar completamente fluente.

  MG – Consideraria mudar-se para Portugal?

  SP – Certamente. Está nos meus planos!

  MG – O futuro não é muito promissor na África do Sul? Diria isso?

  SP – Sim. Eu consigo viver aqui sem problemas, mas temo pelo futuro dos meus filhos. Onde é que irão para a escola? Como é que será a economia quando tive-rem que procurar por emprego? É isso que me preocupa, é a única razão pela qual emigraria. Porque a cultura, até o clima é perfeito na África do Sul. O estilo de vida, não se consegue isto noutro país na Europa. A única coisa que me faria mudar seria o futuro dos meus filhos, não por mim.

  MG – Tem filhos?

  SP – [sorri] Não. Ainda não, mas tenciono ter.

  MG – O seu trabalho acarreta muito stress? Gestão de risco para seguros?

  SP – Eu entretenho os clientes. É para agradecer o facto de nos darem trabalho. Levo-os a almoçar e a eventos. No dia-a-dia, é tudo feito por email e telefone. Recebemos todos os dias relatórios e candidaturas a seguros, avaliamos tudo, damos cotações e orçamentamos. Também estou muito envolvida no sector da inovação, portanto lido com muitas empresas “start-ups”, clientes que querem inovar com novos produtos. É um espaço muito interessante.

  MG – Para além da família e da língua, que ligações é que tem à Comunidade portuguesa?

  SP – Faço parte da comissão do Núcleo de Arte e Cultura, faço o marketing do clube. Giro as redes so-ciais do clube. Ajudo a desenhar os posters publicitá-rios, o meu pai faz parte da Direcção do clube. Ajudo a decorar o clube em todos os eventos.

  MG – E como é que é fazer parte do clube?

  SP – É bom. Precisamos é de mais apoio da Co-munidade portuguesa.

  MG – O que é que pensa que está a faltar para isso?

  SP – Apoio financeiro, é daquilo que precisamos, sem dinheiro não podemos fazer nada. Sendo uma organização sem fundos lucrativos, não podemos fazer lu-cros. Não podemos incrementar os preços porque to-dos reclamam! É complicado.

   MG – De uma perspectiva jovem, o que é que é preciso fazer para atrair a juventude?

  SP – [olha para cima e sorri] Não faço ideia. Dou voltas à cabeça com esse assunto desde sempre. Não sei, porque as caras que vão são sempre ou quase sempre as mesmas. As gerações mais velhas é que participam mais. É duro, não sei porque é que não participam. Os meus pais “forçaram-me” a participar e ainda vou hoje.

  MG – Mas hoje, faz parte e participa de livre vontade?

  SP – Sim, claro que sim.

  MG – Então o que a atraiu ao clube?

  SP – É o ambiente familiar. É o aspecto comunitário, de fazermos parte de algo maior do que nós. Que ainda há uma frente cultural onde nos apoiarmos e fazer par-te de e aprender acerca de. Faz parte da nossa heran-ça cultural e penso que os jovens devem tomar um maior interesse, mas infelizmente não o fazem. Metade deles não consegue sequer falar Português! É a pior parte

  MG – E de quem é a culpa?

  SP – [exclama] Dos pais! Que não os obrigaram a ir às lições de Português!

  MG – Para aquele que acabam este ano a faculdade e entram no mercado de trabalho, que conselhos é que dá?

  SP – Ninguém vai fazer a tua carreira por ti. Tu precisas de incentivar e levar a tua carreira para a frente. Ninguém vai tomar os passos por ti ou fazer o caminho por ti. É preciso criar o caminho, criar as próprias oportunidades e correr atrás dos teus próprios sonhos. Nin-guém vai segurar-te na mão, ninguém te vai levar aqui ou ali. É possível arranjar um mentor, mas se não fizeres o esforço não se vai a lado nenhum!

Shannon-Lee Ribeiro Pires é uma jovem portuguesa. De estatura baixa mas esbelta, o cabelo comprido es-curo, os gestos e o sorriso denotam uma jovem mulher tipicamente portuguesa. Os óculos “escondem” outro traço tipicamente luso, os olhos grandes e vivos. De personalidade forte e demarcada, esta jovem profissional sabe o que quer da vida e trabalha com o mesmo afinco e empenho que dedica à família e aos afazeres comunitários. É sem dúvida mais um exemplo de orgulho e um jovem fruto da nossa Comunidade na África do Sul.