Ser santo em tempo de crise

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Ser santo em tempo de crise

A crise económica com que Portugal se debate levou o Estado a acordar com a Igreja a suspensão de alguns feriados religiosos a partir do próximo ano. São eles o Dia do Corpo de Deus e o Dia de Todos os Santos, que se celebra na próxima quinta-feira, dia 1 de Novembro, este ano ainda como feriado nacional.

  Porém, como festa litúrgica importante com a qual se honram e veneram todos os santos, o 1.º de Novembro continua a ser um dia santo na Igreja Católica, ao qual se segue, no dia seguinte, 2 de Novembro, o Dia dos Fiéis Defuntos, marcado por romagens aos cemitérios com o embelezamento das campas e jazigos, recordando familiares e amigos falecidos.
  Nascida da necessidade de glorificar, aos olhos da humanidade, os defensores e praticantes do bem na sua luta contra o mal – distinguindo santos de pecadores -, a iniciativa de recordar religiosamente os santos está na origem da composição do calendário litúrgico, em que constavam inicialmente apenas as datas de aniversário da morte dos cristãos martirizados como testemunho pela sua fé, realizando-se nesses dias orações, missas e vigílias.
  Acontece que a partir da perseguição decretada pelo imperador romano Diocleciano, que governou entre os anos de 284 e 305, o número de mártires foi tão grande que se tornou impossível individualizar um dia do ano para cada um deles. Surgiu assim, já no século IV, um dia comum para fazer memória de todos eles.
  Essa celebração ocorreu, segundo o primeiro registo que se conhece, em Antióquia no domingo seguinte ao de Pentecostes, tradição que ainda hoje se mantem nas igrejas ortodoxas da Europa oriental.
  O culto da consagração dos mártires, assim como dos apóstolos e anjos, estendeu-se depois para  Ocidente no século VI.
  No início do século VII, o Papa Bonifácio IV dedicou ao culto cristão o Panteão de Roma, fazendo-o a 13 de Maio de 610, em honra da Virgem Maria e de todos os cristãos canonizados. Um ano depois, também a 13 de Maio, realizou-se a primeira festa litúrgica em honra de todos os santos em geral. Durante dois séculos, essa data foi designada como o Dia de Nossa Senhora dos Mártires.
  Já no século VII, o Papa Gregório III mandou edificar a Basílica de S. Pedro e atribuíu uma capela no templo a todos os Santos, ao Divino Salvador, à Santíssima Mãe, aos Apóstolos e a todos os Mártires e Confessores.
  No século IX, a festa religiosa foi fixada pelo Papa Gregório IV no dia 1 de Novembro.
  Refere ainda a história da Igreja que o Dia de Todos os Santos passou a ser celebrado por todos os servos de Cristo em memória de santos ou beatos conhecidos e desconhecidos em todo o mundo, canonizados ou não. Era, efectivamente, a consagração de todos aqueles que deixaram uma herança de bons exemplos, uma verdadeira escola de virtudes humanas e cristãs.
  Na realidade, com o avançar dos tempos, mais homens e mulheres se sucederam como exemplos de santidade e foram com estas honras reconhecidos e divulgados por todo o mundo. Sendo inicialmente um dia apenas dedicado aos mártires, depressa se deu grande revelo a cristãos que se distinguiram pelas suas virtudes, apesar de não terem sido mortos.
  O sentido do martírio, que os cristãos respeitam, alarga-se desta forma, por consenso, ao da entrega de toda a vida a Deus e, assim. a designação de Todos os Santos visa celebrar conjuntamente todos os cristãos que se encontram na glória divina, tenham ou não sido canonizados.
  Segundo o ensinamento da Igreja – na qual o Papa João Paulo II foi um grande impulsionador da vocação universal à santidade -, a intenção catequética desta celebração é ressaltar o chamamento de Cristo a cada pessoa para o seguir a ser santo.
  Associando esta veneração da memória dos bem-aventurados a casos exemplares do exercício da caridade fraterna e de serviço ao próximo, podemos constatar que existem santos vivos e que cada pessoa o pode ser.
  Num sermão sobre o Dia de Todos os Santos, o Padre António Vieira dizia que ele era “a festa mais universal e também a mais particular – a festa mais de todos e a festa mais de cada um”.
  Antigamente, nas aldeias portuguesas, os mais carenciados pediam neste dia a “todos os santinhos” por alimento e abrigo e as famílias dispunham usualmente nas suas mesas o que tinham em casa para receber os pedintes e dar-lhes de comer e beber.
  É desses santos vivos que a humanidade está a precisar para ajudar a debelar a grave crise social com que o mundo se debate actualmente.
  Traduzida em números, ela, a crise, é verdadeiramente assustadora.
  Assim, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho, o número de desempregados no mundo aumentou em mais de 30 milhões de pessoas em comparação com o ano 2008, data do início da actual crise.
  Os trabalhadores pobres que vivem com menos de um dólar por dia poderão aumentar em 50 milhões e aqueles que vivem com dois dólares por dia podem acrescer em mais de 120 milhões aos actuais valores, atingindo os 900 milhões de pessoas.
  Além disso, os cálculos da OIT indicam que o prolongamento da actual crise poderá vir a traduzir-se numa perda de mais alguns milhões de postos de trabalho a nível global, o que significa que pela primeira vez se corre o risco de ultrapassar os 220 milhões de desempregados no mundo.
  E o aviso é que estes números podem estar subestimados se os efeitos da actual contracção económica e a previsível recessão não forem atacados com rapidez.
  Perante este cenário de dificuldades imensas e enquanto a crise durar, há que haver muita solidariedade entre todos os cidadãos e, portanto, é preciso que cada um saiba ser santo no seu posto.       R. VARELA AFONSO