“Sem igualdade de oportunidades” não há paz duradoura – palavras do Papa Francisco em Moçambique

0
50

O Papa Francisco disse durante o seu primeiro discurso em Moçambique que “sem igualdade de oportunidades” não há paz duradoura.

 “Quando [uma sociedade] abandona na periferia uma parte de si mesma”, não há políticas, nem “forças de autoridade ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”, referiu o Papa, no palácio presidencial da Ponta Vermelha, em Maputo, onde foi recebido quinta-feira pelo Presidente moçambicano, Filipe Nyusi.

 Num salão do palácio e perante o Papa, a comunidade diplomática, membros do Governo, titulares dos órgãos de soberania e figuras políticas, Nyusi chamou, durante o seu discurso, os líderes da oposição no Parlamento.

 “Estamos aqui com o meu irmão Ossufo Momade, que peço que se levante”, assim como “com Daviz Simango”, referiu o Chefe de Estado, num momento de ovação geral na sala.

 “Citei estes dois (líderes da Renamo e Movimento Democrático de Moçambique, respectivamente), porque são os que representam o nosso Parlamento, mas temos muitas mais [figuras políticas] que estão aqui e no programa seguinte”, referiu Nyusi.

 O Presidente moçambicano saudou as figuras da oposição, defendendo uma cultura “de não violência” em que a política “é feita com a força dos argumentos e não pela força das armas”.

 O Chefe de Estado realçou que o cuidado especial com a união entre moçambicanos cresceu desde que essa recomendação lhe foi feita pelo próprio Papa Francisco durante um encontro entre ambos, no Vaticano, há um ano.

 Esse aconselhamento papal “tem servido de guia” para Moçambique e encerra em si “o espírito que levou ao acordo de paz” de 6 de Agosto, entre o Governo e a Renamo.

 Na sua intervenção, o Papa Francisco recordou que todos os esforços de pacificação surgem na esteira do acordo geral de paz de 1992, o primeiro, assinado em Roma, sob mediação da comunidade de Santo Egídio.

 “As sementes” ficaram desde então, e agora surgem “rebentos” impedindo que uma “luta fratricida” faça a história, e considera que a coragem de construir a paz é “uma coragem de alta qualidade. Não a da força bruta e violência, mas aquela que se concretiza na busca incansável do bem comum”.

 Moçambique conheceu “luto e dor”, mas não deixou “que a vingança e ódio vencessem”, disse.

 A cultura de paz, acrescentou Francisco, exige um “processo constante” de diálogo no qual cada nova geração está envolvida, destacando assim o papel dos jovens: não são apenas a esperança, já são o presente.

 “Todos vós sois consultores da obra mais bela a ser realizada”, disse para a plateia, no palácio presidencial, uma obra que consiste “num futuro de paz e reconciliação como garantias para a vida dos vossos filhos”.

 Ficava a deixa para o momento que haveria de ter a seguir, no programa do segundo dia de visita a Moçambique, um encontro inter-religioso com jovens no pavilhão desportivo de Maxaquene, na baixa de Maputo.

 

* Primeiras palavras de solidariedade dirigidas às vítimas

dos ciclones

 

 Durante um encontro com o Presidente da República, Filipe Nyusi, no palácio da Ponta Vermelha, em Maputo, o Papa Francisco manifestou solidariedade para com as vítimas dos ciclones Idai e Kenneth, que no início do ano se abateram sobre Moçambique.

 “Quero que as minhas primeiras palavras de proximidade e solidariedade sejam dirigidas a todos aqueles sobre os quais se abateram os ciclones Idai e Kenneth”, referiu,

 “Infelizmente não posso ir pessoalmente até vós, mas quero que saibam que partilho da vossa angústia e sofrimento”, acrescentou.

 “As devastadoras consequências continuam”, referiu.

 O líder da igreja católica pediu especial atenção para as zonas onde “ainda não foi possível reconstruir” e faz votos para que “os actores civis e sociais”, centrados no apoio à população, “sejam capazes de promover a necessária reconstrução”.

 Na sua intervenção, o Presidente moçambicano referiu que as palavras do Papa após a catástrofe foram importantes para “a mobilização de apoio e conforto moral”.

 Filipe Nyusi expressou “profundos agradecimentos” ao Papa Francisco.

 O ciclone Idai, que atingiu o centro de Moçambique em Março, provocou 604 mortos e afectou cerca de 1,5 milhões de pessoas.

 A intempérie provocou cheias intensas que arrastaram aldeias, pontes, estradas e outras infraestruturas, criando lagos gigantescos que levaram semanas a desaparecer.

 A cidade da Beira, uma das principais do país, que foi atingida pelo Idai, ficou severamente danificada e serviu de palco a uma gigantesca operação de mobilização de meios internacionais para apoio à população.

 A destruição atingiu ainda os países vizinhos do Zimbabwe e Maláwi.

 O ciclone Kenneth, que se abateu sobre o norte do país em Abril, matou 45 pessoas e afectou 250.000.

 Mais de meio milhão de pessoas ainda vivem em locais destruídos ou danificados, enquanto outras 70.000 permanecem em centros de acomodação de emergência, segundo o mais recente relatório da Organização Internacional das Migrações (OIM), redigido em Julho e que alerta para a falta de condições para enfrentar a nova época chuvosa, em Novembro, dentro de dois meses.