Segurança das Comunidades

0
56
Segurança das Comunidades

A segurança das comunidades portuguesas constitui sempre uma grande preocupação para o secretário de Estado José Cesário. Independentemente da sua dimensão, a atenção é a mesma. E saliento este facto porque já ouvi, em Joanesburgo, um secretário de Estado português dos Negócios Estrangeiros, numa recepção à comunidade na residência do então cônsul-geral, dizer  “a opção de emigrar foi vossa, o risco de segurança também é vosso”.

  Actualmente, a preocupação de José Cesário centra-se na pequena comunidade portuguesa residente no Egipto, país africano onde a semana passada se registaram sangrentos confrontos entre manifestantes e as Forças Armadas, que levaram o governo interino à declaração do estado de emergência e ao recolher obrigatório.

  O secretário de Estado das Comunidades, em constante ligação com a Embaixada no Cairo, reafirmou no sábado estar a acompanhar atentamente a situa-ção dos portugueses que residem no Egipto, tendo adiantado que nenhum deles manifestara até àquele momento intenções de sair do país.

  Há 120 portugueses registados nos serviços consulares e muitos deles, neste mês de Agosto, encontram-se ainda de férias fora do Egipto.

  "Relativamente aos nossos residentes há um pequeno grupo que eventualmente poderá ser passível de um plano de retirada, mas até ao momento nenhum deles se manifestou para tal", sublinhou José Cesário em declarações à comunicação social.

  José Cesário disse ainda que Portugal está "a avaliar com os outros parceiros da União Europeia sobre a necessidade de accionar algum plano de retirada" dos portugueses da região por sua própria iniciativa.

  "Estamos muito atentos" e se se verificar que a situação está "em vias de ficar descontrolada, colocaremos a questão aos residentes", salientou o secretário de Estado.

  Aliás, o Governo português já há bastante tempo que tinha recomendado que as deslocações ao Egipto fossem feitas apenas em circunstâncias absolutamente inadiáveis.

  Perante a onda de turbulência, que se salda já em muitas centenas de mortos, o governo italiano tomou a iniciativa de enviar quatro aviões para a zona balnear egípcia para retirar os nacionais que pretendessem sair do país.

  A violência no Egipto foi desencadeada quando, na quarta-feira, após 48 dias de concentração na praça de Nasr City, as forças de segurança invadiram os acampamentos de manifestantes pró-Morsi, o presidente destituído e detido pelo Exército a 3 de julho.

  Após o falhanço de tentativas internacionais de mediação, o governo interino, nomeado pelo Exército, anunciou que, terminado o período do Ramadão, iria acabar com as manifestações pró-Morsi, operação que iniciou na quarta-feira.

  A crise gerada pelo sangue derramado subiu à ONU e o Conselho de Segurança, numa reunião de emergência, pediu o fim da violência e a máxima contenção entre as partes desavindas no Egipto.

  Por seu turno, o presidente norte-americano, que determinou o cancelamento dos exercícios militares conjuntos com o Egipto que estavam previstos para breve, disse que aquele país entrou numa via perigosa, enquanto na Europa a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, convidou os Estados-membros da União Europeia a tomarem medidas apropriadas para responder à situação.

  A Alemanha, a França, a Itália, o Reino Unido e a Espanha chamaram os embaixadores egípcios para condenarem o uso da força. A Turquia chamou para consultas o seu embaixador no Egipto, depois do que considerou ser um grave massacre e o rei da Arábia Saudita, Abdallah, expressou o seu apoio ao poder egípcio “face ao terrorismo” e denunciou “as in-gerências”.

  Os acontecimentos no Egipto estão a ser acompanhados por todo o mundo árabe, podendo vir a assistir-se, na sua sequência, ao alastrar de uma resposta negativa aos movimentos que há 18 meses pareciam ser os grandes vencedores da chamada primavera árabe.

  Mas o que aconteceu realmente no Egipto?

  Conforme tem sido noticiado, o actual clima de tensão no Egipto iniciou-se a 30 de Junho, quando diversos sectores da oposição laico-liberal promoveram grandes protestos exigindo a deposição do presidente islamita Mohamed Morsi, eleito em Junho de 2012.

  Morsi provinha da agressiva Irmandade Muçulmana, movimento religioso que desde 1928 tentava chegar ao poder.

  A 3 de Julho o presidente foi deposto e detido pelos militares, tendo sido formado um governo de transição, entre os protestos das correntes islamitas que exigiam o regresso de Morsi ao poder.

  Ao contrário do que tinha prometido quando foi eleito presidente, Morsi não estava a governar para todos os egípcios, mas apenas para os seus partidários. Segundo os seus críticos, que viriam a ser apoiados pelo Exército, Morsi e a Irmandade Muçulmana estavam determinados a aproveitar a oportunidade de deterem o poder para implementarem a sua ideologia e transformarem o Egipto à sua maneira.

  E aqui recordo as palavras proferidas, com extraordinária profundidade e grande isenção, pelo Papa Francisco, durante a sua recente deslocação oficial ao Brasil, onde presidiu às Jornadas Mundiais da Juventude e ali disse: "A convivência pacífica entre as diferentes religiões é beneficiada pela laicidade do Estado que, sem assumir como própria nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do factor religioso na sociedade".

  Assim, tudo o que está a acontecer de forma tão dramática seria evitável se o Estado egípcio, ou qualquer outro, fosse, por via da Constituição, oficialmente laico.

R. VARELA AFONSO