São Brás liga Portugal à África do Sul

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São Brás liga Portugal à África do Sul

São Brás – padroeiro do Campanário e do Arco da Calheta, que será festejado no próximo domingo na Igreja de Santo António dos Portu-gueses, em Mayfair – é também, há 524 anos, o nome da Aguada de Mossel Bay.

  Foi nesse dia 3 de Fevereiro de 1488 que Bartolomeu Dias se tornou no primeiro nave-gador português a pôr pé em terras que são hoje geograficamente a África do Sul. Fê-lo para provisão de água doce à tripulação da caravela “S. Cristóvão” e ao local, em honra do santo do dia, deu o nome de  Aguada de S. Brás, designação assim mantida por séculos nos mapas marítimos e onde hoje cresce a próspera cidade de Mossel Bay.
  Em 1988, nas celebrações do Quinto Centenário da Descoberta da África do Sul, ao elogiar os descendentes dos portugueses pelo seu contributo valioso ao desenvolvimento cultural, social e económico deste País, o então mayor de Mossel Bay anunciou a atribuição do nome de “Dias Bay” ao local exacto onde o navegador português desembarcara 500 anos antes.

  Era o reconhecimento de um facto histórico e uma homenagem à comunidade portuguesa, isto na impossibilidade de mudar para “Dias” o nome da própria cidade de Mossel Bay, o que transcendia a sua capacidade autárquica por ser da competência da área governamental.
  Integrada nas cerimónias Dias 88, foi descerrada uma estátua de Bartolomeu Dias em Mossel Bay, oferecida pelo Governo português e executada em tempo recorde pelo escultor João Fragoso. Como nessa altura as relações entre Lisboa e Pretória, condicionadas pela conjuntura internacional, não eram as melhores, devido ao regime de apartheid vigente, a placa mandada fazer para  afixar no pedestal da estátua, particularizava a oferta, assim rezando:  “Oferecida por Sua Excelência o Se-cretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Manuel Filipe Correia de Jesus, à Co-munidade Portuguesa da África do Sul e inaugurada por Sua Excelência o Embaixador de Portugal, José Manuel Villas Boas, a 3 de Fevereiro de 1988”.
  Encarregou-se do seu transporte, do Aero-porto de Joanesburgo para Mossel Bay, o co-mendador Fernando Lagoa, industrial que re-sidiu em Klerksdorp e que mais tarde estendeu a sua actividade a Mossel Bay.

  Entretanto, foi erguido e recheado de excelente acervo o magnífico Museu de Mossel Bay, que hoje alberga a réplica da caravela “Bartolomeu Dias”, construída nos estaleiros de Vila do Conde e que fez a viagem de Lisboa à Aguada de S. Brás, onde fundeou, depois de 88 dias de agitado percurso oceânico, às 11.00 horas do dia 3 de Fevereiro de 1988, perante o aplauso entusiasmado de centenas de alunos portugueses de escolas de Joanesburgo e de Pretória, transportados no célebre “Combóio da Juventude”, organizado pelo cônsul-geral Carlos Portela, já falecido, e patrocinado por diversos empresários da nossa Comunidade.
  As boas-vindas à tripulação luso-sul-africana da caravela, que repetia 500 anos de história, foram dadas no local pelo então presidente da África do Sul, P. W. Botha, acompanhado por membros da Comissão Nacional das Comemorações Dias 88, sob a assistência distancia-da de uma delegação parlamentar portuguesa que incluía o deputado João Soares, enquanto na capital de Portugal, o Chefe de Estado Mário Soares, que ficara em Lisboa – diz-se que não recebeu convite oficial do seu homó-logo sul-africano  para se deslocar às cerimónias de Mossel Bay – participava no mesmo dia numa sessão extraordinária  na Assembleia da República, para exaltar o feito de Bartolomeu Dias na descoberta da Rota do Cabo da Boa Esperança, concretizado pela passagem do Oceano Atlântico para o Oceano Indico.

  Mas Mossel Bay já tinha sido, antes, palco de outra cerimónia importante ligada às comemorações dos descobrimentos portugueses.
  Faz agora 48 anos que, na sua edição de Janeiro de 1964, O Século de Joanesburgo noticiava a instalação naquela cidade costeira de um marco de correio comemorativo. Com a presença de cerca de duas mil pessoas, 475 anos depois de ali ter chegado Bartolomeu Dias, teve lugar em Mossel Bay a colocação de um marco de correio simbólico. Esse marco, em forma de bota de marinheiro do século XV, comemorava o primeiro marco de correio que os portugueses colocaram, numa árvore ainda hoje existente, quando pela primeira vez ali desembarcaram. O “marco” dessa altura era uma bota de marinheiro autêntica.

  Houve um desembarque simbólico de dois marinheiros portugueses envergando trajes da época, que foram recebidos por quatro cidadãos autóctones, vestidos de tanga e armados de arco e flechas. Seguidamente, o cônsul português na Cidade do Cabo, dr. Fernando Reino, em representação do embaixador Álvaro Laborinho, ausente em Lisboa, colocou uma carta franquiada com o selo especial da “Árvore dos Correios”, gesto que seria repetido pouco depois pelo director dos Correios sul-africanos, A.J. Botes. As cartas eram dirigidas pelo presidente da Câmara Municipal de Mossel Bay ao Presidente da República Portuguesa e ao Presidente da República da África do Sul.
  Para esta cerimónia, fundeou em Mossel Bay a fragata portuguesa “Álvares Cabral”, tendo sido marinheiros da sua tripulação os actores que representaram os primeiros portugueses que ali desembarcaram em 1488.
  Recorde-se que foi dali, da então Baía de S. Brás, que Bartolomeu Dias rumou até à foz do Rio do Infante, local de onde, a pedido da tripulação, iniciou a viagem de regresso a Por-tugal.
  Faltava, contudo, um marco que a assinalasse e, a 12 de Março de 1488, o navegador português decidiu erguer o seu primeiro padrão na costa oriental africana. Colocou-o um pouco mais a sul, em Kwaaihoek, num promontório que parecia ser uma ilhota e que serviu de orientação aos navegadores durante mais de um século, até que o tempo o consumiu.

  Os primeiros fragmentos do destruído Padrão de S. Gregório, também conhecido por Cruz de Dias, foram descobertos naquele areal a 15 de Janeiro de 1938 pelo historiador sul-africano Prof. Eric Axelson, docente da Universidade da Wits.
  Reconstituído, o mais antigo monumento his-tórico da África do Sul foi declarado monumento nacional pela Comissão Nacional de Monumentos Históricos e confiado à guarda da Bi-blioteca William Cullen, da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo.
  A cruz que Bartolomeu Dias, naquele dia de Março de 1488, ficara a ver desaparecer no ho-rizonte, com o coração pesado, como se atrás de si tivesse deixado um filho no exílio solitário, agora recuperada, voltou a ser descerrada em cerimónia realizada em Agosto de 1939, em Joanesburgo, com a presença do então ministro do Ultramar, dr. Francisco Vieira Machado.

  Em 1948, o Governo da África do Sul doou a Portugal um fragmento original do Padrão de Bartolomeu Dias.
  Enriquecida economicamente, nos últimos anos, pelos volumosos depósitos de gás natural descobertos no off-shore da sua baía, emoldurada por um magnífico areal que se estende ao longo de 38 quilómetros, favorecida por boas estruturas turísticas, Mossel Bay, abençoada pelo sacerdote da tripulação de Bartolomeu Dias, e os seus marcos históricos são hoje pontos obrigatórios do roteiro da comunidade portuguesa da África do Sul.
  Vale a pena visitar Mossel Bay. Fazê-lo é reviver a história da navegação marítima portuguesa e manifestar, ao mesmo tempo, o reconhecimeno pela forma como a África do Sul continua a preservar esses valores.

  Temos muito capital para investir no futuro da África do Sul e uma das suas parcelas são as nossas ligações históricas. Ditosos os que se orgulham do passado e que procuram ser dignos, no presente, das glórias da História, continuando-as como cidadãos exemplares para que as gerações futuras se possam orgulhar de nós.       
                  
R. VARELA AFONSO