Roberto Adão é apaixonado pela música e pelas heranças portuguesas.

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Roberto Adão é um jovem português que é apaixonado pelas suas raízes e pela Cultura portuguesa. Na cena musical comunitária há já alguns anos, possui uma sólida reputação e uma forte imagem de marca artística. Formado em Direito e a concluir a pós-graduação superior nesse curso bem como em Relações Internacionais e em Português, este jovem luso possui não só ambição, mas também uma forte ética de trabalho e um sentido de responsabilidade. Com um álbum editado, o Século de Joanesburgo quis saber junto desta jovem estrela da Comunidade o que é que o motiva, o que o levou a tirar três especializações académicas e como começou e para onde vai a aventura artística. Na Pastelaria Princesa em Aspen Hills, Roberto Adão sentou-se connosco e ao sabor de um café português, isto foi o que nos disse…

Michael Gillbee: Dê-nos um bocado do seu historial. Onde é que nasceu? Onde é que andou na es-cola?

  Roberto Adão: Eu nasci na Parklane em Joanesburgo. O meu pai nasceu em Portugal e mudou-se para cá quando tinha dois anos de idade. Ele nasceu em Ílhavo, Aveiro. A minha mãe nasceu na África do Sul, de uma família muito portuguesa, os meus avós tinham emigrado para cá. Ambos os meus avós não conseguiam falar Inglês, portanto, apesar da minha mãe ter nascido cá o Português que falava era perfeito. Com o meu pai passava-se o mesmo, ia para a escola inglesa, mas depois em casa só falava Português. Eu frequentei a Maritz Brothers em Linmeyer. Eu fui Deputy Head Boy. Sempre estive muito envolvido em teatro, debates, orador público. Completei a Matric em 2014 e entrei na Universidade da Wits para tirar uma licencia-tura em Direito. Acabei por fazer aquilo que chamam “triple major”, comecei com Relações Internacionais, Direito e depois no último ano de curso fiz Português. Marta Campos falou comigo no ano passado para concluir o terceiro ano de Português. Dois meses atrás re-cebi o prémio de estudando com a média mais alta a Português da Faculdade de Humanidade da Wits. A Wits propôs-me que o programa de “honours” estava a ser aberto para o Português.

  MG: O que é que o fez querer ser advogado?

  RA: Gosto da profissão, a formalidade de tudo. Eu sempre fui uma pessoa muito honesta e gosto muito a justiça que a profissão acarreta. Onde se pode realmente ajudar alguém que precisa. Não tem sido uma viagem muito fácil, trabalho muito arduamente, mas não tem sido fácil. E devo acrescentar que cantar, muitas vezes, me tem confundido o coração. Será que é isto que eu quero fazer? Será que quero ser cantor ou advogado? Mas não nego que gosto do curso.

  MG: Acha que ter uma profissão é uma “rede de segurança” caso não consiga viver da música?

  RA: Bem, isso foi sempre o que os meus pais me disseram. “Faz o que quiseres, mas tens de ter um curso!” Cinco anos na Wits, uma pessoa torna-se parte da Faculdade e não ia desistir agora tão perto de completar os estudos todos. [afirma] E gastei uma fortuna em propinas.

  MG: Há algum campo específico do Direito em que se queira especializar?

  RA: Gosto do sector imobiliário, dos contratos, da parte comercial do Direito. Direito da Família também me atrai, mas não consigo dizer “quero me especializar nisto”. Não. Para já, quero concluir o curso e depois logo vejo. É para onde a Vida me levar. Sempre tive uma janela muito grande, não me foco unicamente nos estudos e os estudos são a minha vida. Mesmo durante a escola e acho que advém dos meus pais. O meu pai a dada altura tinha três empresas e todas diferentes e com sucesso. Na escola estudei, mas também fiz acti-vidades extra curriculares e sempre com sucesso. Na Universidade estava a tirar a licenciatura em Direito mas ao mesmo tempo a cantar e ainda estou a fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Para lá disso, eu e a minha irmã ajudamos a manter a casa, depois da minha mãe ter falecido. Há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, mas acredito que tudo me tem preparado bem para o Futuro. Quando entrar no mercado de trabalho terei ferramentas e força para enfrentar o mundo adulto.

  MG: Que idade é que o Roberto tem?

  RA: Tenho 23 anos de idade.

  MG: As Relações Internacionais, aliado ao Direito, é algo que quer fazer? Como trabalhar no Parlamento Europeu? Nas Nações-Unidas? Tribunal Internacional?

  RA: Primeiro que tudo, sempre tive um profundo sentido de certo e errado. Da maneira como fui criado pelos meus pais e os valores familiares que sempre tivémos. Acho que o Português é uma mais-valia e sempre vi o valor acrescentado que tinha – a par de outros idiomas. Nisso, a importância das Relações Internacionais também. Nunca parti com intenção de ir trabalhar para as Nações Unidas – seria óptimo – mas não parti com esse objectivo.

  MG: Consideraria ser um dos advogados na Co-munidade portuguesa?

  RA: Sim. Há dificuldade de obter respostas deste lado. Sim, gostaria muito. Eu sei que não falo perfeitamente Português – e nunca direi que sou perfeito – mas não há muitos luso-descendentes que falem tão bem quanto eu. Os jovens hoje não querem falar, infelizmente. Mas o campo de Direito em que me especializar, gostaria se possível de poder ajudar a nossa Comunidade. Porque foi a Comunidade que me fez o artista que sou hoje, como é que poderia recusar ajudar a minha Comunidade?

  MG: Vamos nos focar na língua. O que é que o apaixona pelo Português?

  RA: Os meus pais trabalhavam quando eu nasci, eu fiquei com a minha avó. E a minha avó materna só conseguia falar em Português. E os meus pais também falavam entre si em Português. E isso influenciou-me muito e a minha mãe também me motivou muito. Quando entrei no Grade 8, a minha mãe aconselhou-me a ter Português como uma das disciplinas. E fiz até à Matric e agora na Wits. Curioso também, que foi no Grade 8 que comecei a cantar e o meu pai aconselhou-me “filho, se vais cantar em Português, tens de aprender a pronunciar as palavras correctamente e tens de saber falar correctamente”.  Foi aí que me apercebi que tenho uma paixão por Português. Uma das coisas que nunca gostei foi de não saber enviar uma mensagem à minha avó em Portugal. Sim, conseguia entender, mas não conseguia escrever correctamente. Agora, se é preciso escrever já nem é o meu pai, agora pedem-me para escrever. Acho que isso é importante.

  MG: Como é que começou a cantar?

  RA: Antes do Grade 8, tinha feito Teatro e nisso, desde o Grade 3 tinha participado no coro da escola. Mas nunca me tinha considerado como cantor. O meu pai estava muito envolvido no Terras do Norte e pediram-me para cantar numa gala do Terras do Norte. A partir daí cresceu. Viriato Fonseca aproximou-se do meu pai e pediu-lhe se me podia ajudar e ensinar na música. Ele expandiu o meu reportório. O Tex expandiu o reportório, apresentou-me um mundo musical diferente com artistas como Paulo Gonzo, Roberto Carlos, entre outros. Estive com o Tex durante três anos e ele aperfeiçoou-me tecnicamente. Depois fui para a Academia June Kraus. Com ela, o meu horizonte foi ainda mais aberto.

  MG: Quando é que decidiu lançar o seu CD e como é que aconteceu?

  RA: Foi em 2014. Veio através da Festa Portuguesa e a oferta veio através de Paul Almeida. Todos os anos iriam patrocinar uma gravação de um CD aos jovens cantores da Comunidade. Eu tinha 15 ou 16 anos de idade, precisava de ser mais guiado e gostaria que as coisas tivessem saído de outra forma.

  MG: Há outro CD em vista?

  RA: [exclama] Sim! Já tive algumas reuniões e está-se a tratar disso. Não quero fazer só por fazer, por isso agora com a falta de tempo por causa dos estudos não tenho tido hipótese. Mas estou a pensar e a trabalhar nisso e quando houver oportunidade, vai sair o segundo álbum do Roberto Adão.

  MG: Quando laçar o segundo trabalho discográfico, já tem temas originais?

  RA: Também tenho trabalhado nisso, mas como dis-se, agora com os estudos não tenho tido muito tempo. E quero fazer e compor uma canção em Português. Em Inglês é fácil e isso qualquer um consegue. Eu quero ser um artista português e por isso quero ter temas ori-ginais na minha língua materna. Não tenho para já o vocabulário necessário – todo o vocabulário – para escrever uma canção em condições. De forma profissional. Estou a colaborar com uma pessoa e vamos fazer uma coisa em condições e com tempo. Para já não tem dado.

  MG: Como jovem artista, como é que vê a nova onda de artistas como o Roberto? Como o Miguel Pregueiro, Leandro Coimbra, Diana-Lee, Jason da Costa, entre outros?

  RA: Acho que temos que dar crédito a quem o merece e onde é preciso dar. Penso que estou ao nível ou tenho a experiência que tem a Gina Martins? Manuel Es-córcio? Dário Bettencourt? Não, claro que não! Eu pen-so que eles ainda são num nível acima e eu ainda te-nho muito para aprender. Posso ter talento mas isso não significa que sou melhor. No que toca à nova geração, entristeço-me porque conseguem lançar as carreiras a partir da Comunidade, tiram benefícios disso mas mal cantam em Português. Mal falam Português. São muito bons em termos de música, não digo o contrário. São excelentes artistas. Por isso é que digo que alguém como Manuel Escórcio, Gina Martins, Dário Bettencourt são referências para nós e que ainda dão muito valor, acrescentam valor à Comunidade e à cena musical dela. Porque a juventude infelizmente não está a acrescentar e a Comunidade a longo-prazo vai sentir isso. Agora é tudo novidade, mas a Comunidade precisa de autenticidade e ligação cultural. Com isto quero dizer, a Comunidade precisa e quer – a par de todos os outros estilos – que se cante em Português.

  MG: Consegue-se viver somente da música?

  RA: [responde prontamente] Não!

  MG: Porquê? Não pagam bem?

  RA: Certos clubes pagam mais ou menos R3000 ou R4000. Esse é basicamente o limite. Nenhum clube ou associação da Comunidade portuguesa ou evento tem dinheiro. E também não somos nomes grande como um Manuel Escórcio e, portanto, também não nos podemos cobrar de tal forma. O cachet de 10 mil, 15 mil randes por uma actuação. E isso também não é viável em muitos lados da Comunidade, porque não há dinheiro para isso. A única forma de viver da música é tornar-me num cantor/artista a tempo inteiro em Portugal. E mesmo aí, é preciso trabalhar-se muito e de forma extremamente dura para sustentar uma vida durante a nossa vida de cantores. Sou pago e ganho mais do que um estudante a trabalhar em part-time, mas não dá nem de perto nem de longe para viver. Como a Gina Martins conseguiu, não faço ideia. Eu sei que aquela senhora trabalhou muito e cantava todos os fins-de-semana e ainda tinha que se vestir, calçar, alimentar.

  MG: Tem planos para ficar na África do Sul ou emigrar?

  RA: Neste momento muita da minha família e amigos estão a emigrar. Encontro-me numa posição em que hoje digo sim, estou a contemplar isso. Mas o dia de amanhã ninguém sabe. Deus é que sabe!

  MG: Que conselhos é que dá aos mais jovens que estão a entrar no mundo universitário e àqueles que querem cantar?

  RA: Para quem acaba a Matric, o conselho que dou é façam o que gostam. Não tirem um curso que os vossos pais querem que vocês tirem ou qualquer coisa só por fazer. Há tanta coisa assim e depois passam a ser pessoas infelizes. Poderá não ser Medicina, Direito, Engenharia, Enfermagem, Farmácia, ser professor…pode ser um canalizador, mecânico, o que for, pode-se ter muito sucesso profissional e fazer mais di-nheiro do que os amigos que se tornam médicos. Cresce-se com aquilo que se escolhe, escolham alguma coisa de que gostam. Mas digo também que sejam realistas. Do lado do canto, envolvam-se na Comunidade portuguesa. Se querem cantar, primeiro aprendam música portuguesa. Não venham para a Comunidade a cantar em Inglês, qualquer fiel farrapo pode fazer isso! Aprendam Português, façam um esforço por aprender. Não têm de aprender de tal forma que escrevem livros, mas ao menos saibam falar e cantar bem em Português. Desloquem-se aos clubes portugueses, aproximem-se das Direcções, através de amigos e peçam para cantar. Façam-no. Porque não sabem o que pode advir daí. Não tenham medo. Para todas as pessoas que se sentam no público e vos julgam, elas podem subir ao palco e cantar? Conseguem fazer melhor? Não tenham vergonha, envolvam-se, mas façam-no em Português, Português, Português e só depois In-glês.

Roberto Adão é efusivo nas expressões e sempre cheio de energia. Afável e de fácil trato, demonstra uma forte paixão pela música e pela língua das suas raízes, o Português. De estatura média e elegante, Roberto Adão possui um estilo de moda próprio e moderno e está sempre aprumado com uma imagem de marca já bem definida, o penteado e os fatos que usa em palco. Sempre pronto para interagir com a Comunidade está sempre aberto a receber conselhos, críticas e quer melhorar, por isso demora-se a falar com o público. É sem dúvida já uma das referências da Comunidade no que toca à música e sê-lo-á também por certo em termos profissionais.