Reivindicando seus Direitos grupo de Khoisans está há 2 anos nos Jardins de Union Buildings em Pretória

0
53

Faz dois anos precisamente no fim deste mês de Novembro 2020 que um grupo de khoisans: King Khoisan SA, esposa Queen Cynthia, filho Cynton Authsumda e ‘headman’ Stanton, chegaram a Pretória, concretamente ao Union Buildings, onde ergueram uma tenda em reivindicação dos seus direitos como o primeiro povo a viver na África do Sul. Transformaram o local em sua ‘residência’ e ao lado da estátua do líder histórico Nelson Mandela, já contam com um quintal de hortaliças.

Segundo contou ao Século de Joanesburgo King Khoisan SA, chefe da comitiva, o assunto já remonta de há décadas, mas até aqui a resposta por parte dos governantes sul-africanos não tem sido satisfatória.

  “Já em 2013, eu e um grupo de amigos caminhamos a pé até Cape Town e já na altura entregamos um memorando ao Governo local, a sairmos de Port Elizabeth, na província de Eastern Cape. Durante três a quatro anos fizemos a mesma viagem e sempre a entregar memorandos ao governo local.

  Em 2017 fizemos uma viagem para o ponto mais alto do governo sul-fricano em Pretória, Union Buldings, permanecendo lá 24 dias. Durante este período fizemos uma greve de fome de 17 dias e então o vice-presidente, na altura Cyril Ramaphosa, hoje Presidente, veio ao nosso encontro receber o memorando a 24 de Dezembro 2017, prometeu que voltava para falar sobre o conteúdo do memorando, dizendo que se ele fosse o presidente fazia mais e melhor a cerca do nosso pedido.

  No memorando pediamos antes de tudo para que fossemos reconhecidos como o primeiro povo sul-africano. Em segundo pretendiamos que a nossa língua Khoisan Khoekhoe, fosse identificada como língua nacional.

  Em terceiro lugar, como primeiro povo sul-afri-cano, somos por direito os donos da terra e como andam a distribuir terrenos por aí fora, nós também devíamos estar incluídos nesse processo.

  Em quarto lugar queremos que o termo usado  colered (mulatos ou mistos) seja removido dos documentos do governo (Z83). Pelo nosso conhecimento, os termos colered e kaffier já tinham sido abolidos a 17 de Junho de 1991, então porque continuam a chamarem-nos corlered?”, in-terrogou King Khoisan.

  Depois de tantos processos ficaram à espera que os seus pedidos fossem concedidos como foi prometido pelo vice-presidente sul-africano, na altura Cryl Ramaphosa, hoje Presidente do país

  “Em 2018, durante o discurso do Presidente Ra-maphosa na abertura do Parlamento, mencionou ter recebido um memorando da delegação Khoisan, que iria formar um ‘task team’ para resolver o assunto e que o mesmo nos iria informar da sua decisão”, afirmou o nosso interlocutor.

 

* De Eastern Cape a Pretória a pé

 

  “Ficámos a aguardar em Eastern Cape sobre uma possível decisão, e como ela nunca mais chegava voltamos para o Union Buildings, desta vez a pé de Port Elizabeth a Pretória, que são cerca de 1,055 quilómetros de distância. Foram duas semanas de longa viagem, tendo chegado a capital a 30 de Novembro.

  Tivemos um encontro com membros do Governo sul-africano no qual explicamos a razão de estarmos de volta. Porque as promesas feitas na altura não foram cumpridas.

  A primeira vez que nos encontramos com uma delegação do Governo foi a 17 de Dezembro 2018 onde dissemos que estávamos ali à procura de respostas ao nosso pedido, foi então que DG disse que iria falar com os ‘stake holders’ e dar-nos-ia com brevidade a resposta dos quatro pedidos feitos.

  Dois dias depois, a 19 de Dezembro 2018, tivémos outro encontro com o DG onde disse que havia progresso a cerca dos nossos quatro pedidos.

  No primeiro pedido, para sermos reconhecidos como “primeiro povo”, disse que ainda teria que ser aprovado oficialmente no Parlamento.

  No segundo pedido, sobre oficialização da nos-sa língua, disse que iam ter um ‘MOU’ com o Governo da Namíbia para trazer de volta à África do Sul a nossa língua ‘NÀMÁ’.

  No terceiro pedido, a cerca da terra, disse que tinham um Khoisan Traditional ‘Leadership Bill’ que tinha que ser assinado e que determinava o tal  pedido do direito à terra.

  No nosso quarto pedido sobre a palavra colered (mulatos ou mistos) que tinha que ser removida, estão neste momento a estudar uma lei, possivelmente a ser lançada em 2021 a incluir colereds e khoisans, e então as pessoas já podem escolher a sua origem”, apontou.

 

* Respostas ao DG

 

  “Em relação ao primeiro pedido, primeiro povo sul-africano, não é negociável, nós os Khoisan somos o primeiro povo e mais nada.

  Também é de conhecimento de todos que os Khoisan deixaram  a sua arte (‘trademark’) desenhada nas pedras há mais de 400 mil anos, um pouco por toda a África do Sul.

  No segundo pedido sobre a oficialização da nossa língua, deverá ser reconhecida em todas as nove províncias  do país e não só na província do Cabo Oriental como foi prometido.

  No terceiro pedido a cerca da terra, nós rejeitamos o que foi assinado pelo Governo por não reconhecer o nosso estatuto como primeiro povo do país e também não menciona a distribuição da terra pela população e pelos dirigentes.

  No que diz respeito ao quarto pedido sobre a palavra colered (mulatos), nós não podemos ter o nosso povo a decidir isso se não estiver informado. Pedimos um orçamento para podermos dar conhecimento ao nosso povo para que realmente saiba a sua origem e que em 2021 fará uma decisão correcta.

  Faz dois anos precisamente no fim deste mês de Novembro 2020 que estamos aqui nos jar-dins do Union Buildings em Pretória. Já lávão muitos meses.

  O ano passado o Governo sul-africano mais uma vez mentiu a todos dizendo que a tomada de posse do novo Presidente seria no Estádio de Rugby Loftus por não haver verba, mas a verdade foi simplesmente para que nós não ficássemos na fotografia dos jornalistas internacionais que vinham fazer a cobertura da tomada de pos-se.

  Tem sido muito difícil para nós estarmos aqui no Union Buildings a viver nestas circunstâncias já há dois anos, especialmente com trovoadas fortes que não estamos habituados”.

 

* Portugueses os primeiros a chegar?

 

 

  “Segundo a História, foram os Portugueses os primeiros a chegar aqui, mas nós já cá estávamos quando eles chegaram, por volta de 1400. Até ficamos muito admirados por terem uma pele muito branca e pensavamos que eles estavam doentes ou vinham de um lado onde não havia sol.

  Falamos de Bartolomeu Dias , Vasco da Gama  e mais tarde Francisco de Almeida

  O nosso encontro com os Portugueses, colocaram um ‘landmark’, uma cruz, em Mosel Bay. Depois sempre passavam pelo Cabo onde faziam comércio connosco”.

 

* Khoi e San os primeiros a governar

 

  “Estamos aqui  como forma de unir as todas as pessoas. No passado só havia os Khoi e San a governar, mais tarde vieram os brancos com o apartheid, agora na democracia são pessoas de raça negra a governar.

  Agora como nós os Khoisans somos o primeiro povo e os ‘donos’ deste País da África do Sul, vamos voltar a governar a nação que é nossa por direito!

  O nosso governo não vai ser político, vai ser um governo que fará o actual executivo a perder apoio. Começaremos a governar por exemplo em três províncias e logo que as pessoas tomarem conhecimento do nosso modo de governação vão-se juntar a nós certamente e assim passaremos a tomar conta do país inteiro.

  Para nós não é a cerca de um governo político, vai ser um governo onde todos podem participar tal como o sonho do Presidente Nelson Mandela e ANC: (Better life for all ) melhor vida para todos e basta olhar para as palavras dos Khoisans no brasão sul-africano (diverce people unite) pessoas diferentes unidas.

  O Lema do nosso governo vai ser pessoas di-ferentes unidas!”.

  De acordo com informações do nosso entrevistado, os Khoisans são volta de sete a oito milhões de pessoas.

Carlos Silva