Recordando o bondoso Padre Américo

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Como todos se devem recordar, especialmente as gerações mais antigas, o Padre Américo, a avaliar pela sua entrega de alma-e-coração ao bem comum, de modo especial aos rejeitados pela socie-dade, estendendo sempre a sua mão carinhosa àqueles que tantas vezes desprezados pela sociedade, tanto precisavam de um carinho e de uma mão amiga que os protegesse e encaminhasse para a vida.

 Como homem simples na sua doação a Deus, e amparo dos que na terra necessitavam de quem se compadecesse e abrigasse os que de tudo precisavam, tornou-se pelos seus dons, além de figura carismática, motivo de orgulho para o país que o viu nascer, e modelo em dedicação aos que só lhes restava estender a mão à caridade, para desamparados evitar de morrer atrás de uma parede, encontrando sempre nestes casos impulso e coragem para lhes levar uma palavra amiga, recorrer na sua aflição, e reabilitar para uma vida digna, que chegaram a considerar perdida.

 Levado pela sua inabalável fé, confiou primeiro em Deus e depois nas capacidades do ser humano, e apostado na reabilitação criar a gigantesca obra do “Gaiato”, para assim abrigar tantos jovens que não conhecendo o amor da família, muito menos a protecção de quem deles se devia ocupar e ajudar a encaminhar na vida, percorriam desorientados caminhos de miséria e menos dignos aos olhos de Deus, uma obra tão nobre que em boa hora criada continua a vigorar e animada pela nobreza dos seus objectivos, a dar os seus frutos.

 Como íntegro ser humano e homem de Deus em toda a excepção da palavra, tornou-se um exemplo para todos os que como ele escolheram o caminho do Sacerdócio, e na sua vocação continuam fiéis e a dar testemunho da missão que lhes foi confiada, nunca por nunca abdicando desse ideal que religiosamente deve ser seu incontestável guia, e sem mácula mas com bons exemplos e através do evangelho, poderem recuperar para uma vida digna tantas pessoas a enveredar por caminhos errados, que só os podem conduzir à maldição. 

 Dotado de coração incontestado de pai, fez seus filhos todos os jovens deitados ao abandono pela sociedade, para eles criando a 7 de Janeiro de 1940, a primeira “Casa do Gaiato” em Miranda do Corvo, seguindo-se-lhe a de Paços de Sousa, Setúbal, Lisboa e outras mais, para não falar em terras outrora sob administração portuguesa, como é o caso de Moçambique, onde em Maputo essa obra dedicada ao acolhimento de crianças abandonadas continua a abraçar essa causa, e a dar os seus frutos em relação aos ideais para que fora criada.

 Para além da Obra do Gaiato, Padre Américo deu continui-dade a outras que pelo seu carácter e natureza o revelam de benemérito e grande humanitário, como sendo a “Sopa dos Pobres”, obra fundada em 1932 pelo Bispo de Coim-bra, D. Manuel Coelho; as moradias do Património dos Pobres, em Paços de Sousa; a colónia de Férias do Gaiato, enfim, onde se fazia sentir a falta de acolhimento, de dedicação e amor ao próximo em dificuldades, era de imediato notada a bondade desse sacerdote.

 Com alma de eleição, dedicando também toda a sua atenção às letras – com os livros que escreveu, baseados no estilo inconfundível a que sempre se entregou de alma-e-coração, terem sido objecto de estudo por parte de sociólogos e pedagogos -, fundou a 5 de Março de 1954 o “Jornal do Gaiato”, com a tiragem de milhares de exemplares em cada edição publicada, tal o interesse que as pessoas passaram a dedicar à obra de um homem que pela sua bondade e espírito de ajuda ao próximo em dificuldades, nunca devia ter morrido. 

 Um acidente de automóvel ocorrido a 16 de Julho de 1950, vitimou quem tanto a humanidade de si precisava. O Senhor Deus do universo achou que era tempo de chamar a Si, quem para tantos continua a ser recordado com amor e saudade, pelo exemplo e entusiasmo com que se debateu por tão válidas e nobres causas, encontradas na sua entrega aos desprotegidos que não tiveram culpa de vir ao mundo, e a quem a sorte foi adversa e madrasta, e sem força para continuar, encontraram neste sacerdote a inspiração que os dotava de alento para prosseguir, naturalmente encontradas em tão espinhoso caminho.

 Como ideal às forças inspiradoras de que o Padre Amé-rico era dotado, a “Obra da Rua” foi o culminar da sua en-trega total à necessidade in-fantil, que pelo seu carácter definem a grandiosidade da sua ternura, expressão de nobres sentimentos, exemplo de humildade, servir sem ser louvado, muito menos esperar por recompensa – em contraste com o que infelizmente tanto se vê por aí, em que nada se faz sem ser badalado -, firme na recuperação para a vida de inocentes deitados ao abandono, que certamente sem esse acolhimento viriam forçosamente com o avançar da idade a optar por vícios de toda a espécie, assim como pelos repugnantes caminhos da droga, roubo e prostituição, daí ser considerada de expoente máximo, a obra imortal que nos deixou.

Vicente Dias