R. Varela Afonso: Entender a Páscoa

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R. Varela Afonso

R. Varela AfonsoÉ ponto assente e indesmentível que o mundo só será melhor quando forem melhores as relações entre os homens. E como se pode levar os homensa melhorar as relações entre si? Muito facilmente. Levando-os a entender o mistério da ressurreição. Criando-lhes a dimensão espiritual e a esperança de que a vida não é inútil. Que há vida para além da vida, uma vida centrada na descoberta da verdade e na penalização do que ficou impune.

Como o “cá se fazem, cá se pagam” nem sempre funciona, e porque Deus não pode enganar a fé dos fiéis, tem que haver o “cá se fazem, lá se pagam”. E como Deus é infinitamente bom, até pode ser que não haja castigo, mas apenas e fundamentalmente a revelação da verdade dos actos terrenos nos crimes, na violação, na violência, na traição, na simulação, na desonestidade, nos roubos, nas fraudes e na corrupção, motivo suficiente para a alma do pecador “morrer de vergonha” perante a assembleia celestial.

Por isso, os caminhos da justiça e da paz entre os homens – construídos no respeito que cada um deve ter pela vida e dignidade do próximo – só podem ser trilhados quando o ser humano entender a mensagem do mistério pascal e nela centrar o seu comportamento do dia a dia.

Então o mundo estará mais civilizado, haverá menos crimes e todos viveremos em maior tranquilidade. Ao vivermos actualmente o ponto mais alto do calendário litúrgico  cristão, centrado na paixão, morte e ressurreição de Cristo, reflictamos, pois, sore o momento pascal e o significado das cerimónias que o rodeiam nesta Semana Santa, iniciada ontem, Domingo, com a festividade da benção dos Ramos durante a celebração da Missa nos templos da Igreja Católica.

O tradicional Domingo de Ramos, como efeméride, reporta-se a um episódio que é descrito nos livros do Novo Testamento como a entrada triunfal e messiânica de Jesus Cristo em Jerusalém, onde foi recebido e acompanhado por uma multidão que o aclamava com ramos de palmeira. Evocativo dessa caminhada, passou a realizar-se todos os anos, em Jerusalém, um cortejo que, partindo do Monte das Oliveiras, se dirige até à Igreja do Santo Sepulcro, empunhando os participantes palmas e ramos de oliveira.

O rito do Domingo de Ramos consolidou-se nos países de forte implantação cristã, como é o caso de Portugal e das suas comunidades, onde continua a ser costume realizar- se a benção dos ramos, acompanhada, na maior parte das paróquias, por procissões no espaço adjacente aos templos.

O destino dos ramos é diverso, exis indo a tradição em certas regiões de os oferecer, após a benção, a familiares e pessoas amigas, em especial aos padrinhos de baptismo – gesto que estes retribuem no Domigo de Páscoa com a oferta  do folar aos seus afilhados -, havendo também quem guarde os ramos em casa, de ano para ano, como símbolo de defesa contra as tempestades. Com este cerimonial, a Igrega Católica inicia as celebrações da Semana Santa, que integram a Missa da Paixão do Senhor e a Procissão da Realeza do Senhor, após a Vigília Pascal, com Cristo a vencer a morte, a derrotar o pecado, a ultrapassar o ódio e a mostrar aos homens e mulheres deste mundo o seu maior amor, ao iluminar-lhes o caminho da salvação.

Estamos, pois, a alguns dias de celebrar a Páscoa, solenidade da Ressurreição de Cristo, tida como a realidade mais importante da vida do Filho de Deus feito Homem. Ela contem em si mesma o grande sacramento da esperança humana. Não se pode celebrar a Páscoa com indícios de uma vida alheia aos critérios da fé. É o paganismo do ódio que separa os homens e os coloca uns contra os outros. É o paganismo da injustiça que lesa os direito do próximo e impede o reconhecimento da sua dignidade plena.

É o paganismo da violência que destrói vidas e haveres. É o paganismo materialista que escraviza os espíritos e degrada os corpos. Um bom cristão não tem ódios, não pratica injustiças, não é violento e não se deixa corromper pelo materialismo. Neste momento de amor oblativo de quem procura exclusivamente o bem do próximo, é no mistério da Ressurreição, motivo de fé e fundamento sólido de esperança, que o homem encontra o sentido da vida. Como mistério dos mistérios, a Páscoa é a síntese de todos os acontecimentos da vida histórica de Jesus Cristo.

Com a Páscoa, a Igreja celebra e actualiza a obra da rendenção humana e da perfeita glorificação de Deus. Essa obra foi corporizada na vida terrena pelo Seu Filho, especialmente no mistério pascal, pelo qual, morrendo e ressuscitando, destruíu o conceito da existência finita do homem e restaurou a esperança no respeito pelos direitos humanos e na defesa dos valores morais.

O homem de espírito novo, aquele ue pretende viver na civilização do amor, em que todos os homens são irmãos, nasce da Páscoa do Senhor e o mundo renovado – esse mundo mais justo, mais fraterno e mais livre – não será alcançado senão pela virtude do mistério pascal. Neste florir de esperança que é a Páscoa, façamos, pois, um voto de fé e de confiança no futuro. É com esta mensagem que desejamos a todos os nossos leitores, anunciantes, distribuidores e colaboradores uma Páscoa Feliz.

R. VARELA AFONSO