Queda política de Mugabe muda o futuro do Zimbabwé

0
57

O Presidente do Zimbabwé, Robert Mugabe, fez ontem à noite um discurso à nação, em que era esperada a sua renúncia ao cargo, mas tal não aconteceu.

No dia em que a União Nacional Africana do Zimbabwé – Frente Patriótica (ZANU-PF) destituiu Robert Mugabe da liderança do partido, fontes próximas do presidente avançaram a agências noticiosas internacionais que o estadista de 93 anos renunciaria à pre-sidência do país.

No entanto, numa mensagem transmitida em directo pela televisão estatal, ZBC e pela BBC de Londres, ladeado por vários militares, Robert Mugabe não anunciou qualquer renúncia ao cargo.

O líder zimbabwiano falava à nação depois de receber um ultimato para apresentar a sua demissão solicitada pelos generais das Forças Armadas, instituição da qual Mugabe é o comandante-chefe, após uma maratona negocial de mais de 10 horas com os generais do alto comando das forças de segurança, realizada na capital, Harare, e mediada por um padre da Igreja Católica.

No discurso, Robert Mugabe afirmou que, apesar da crise política que se vive nos últimos dias, “os pilares do Estado permaneceram funcionais” e que o país precisa “voltar à normalidade”.

Apesar de a economia estar a passar por um “período difícil”, o ainda Presidente do Zimbabwé disse que “o Governo mantém-se comprometido em melhorar as condições sociais e materiais do povo” zimbabwiano.

Robert Mugabe terminou o discurso dizendo “obrigado e boa noite”.

Ontem, o Comité Central do ZANU-PF demitiu-o da liderança e nomeou o antigo vice-Presidente do Zimbabwé, Emmerson Mnangagwa, como novo líder e candidato para as próximas eleições presidenciais.

Na passada quarta-feira, as forças armadas zimbabwianas detiveram Robert Mugabe, de 93 anos, e a mulher, Grace Mugabe, e garantiram o controlo de todas as instituições governamentais.

A acção político-militar teve as características de um golpe de Estado, uma vez que foram também detidos ou colocados sob prisão domiciliária grande parte dos membros do executivo.

Grace Mugabe foi também expulsa, “para sempre”, do mesmo partido, bem como os ministros da Educação Superior, Jonathan Moyo, e das Finanças, Ignatius Chombo, próximos de Mugabe.

Na reunião do Comité Central, órgão encarregado de tomar as decisões no seio da ZANU-PF, oito dos dez Comités Coordenadores Provinciais do partido manifestaram-se a favor da destituição de Robert Mugabe.

Esta decisão abre caminho à reintegração de Mnangagwa e resta agora saber se haverá um novo Governo interino assim como eleições gerais em 2018.

Citado pela Agência France Presse, o partido avançou que “Emmerson Mnangagwa foi eleito presidente e primeiro secretário do Zanu-FP […] e designado candidato presidencial às eleições de 2018”.

“Foi adoptada uma resolução para remover o presidente e substitui-lo por Mnangagwa”, disse à AFP fonte partidária.

Confirmado este cenário, a destituição de Mugabe da chefia do Estado terá de ser confirmada pelo Parlamento, medida que poderá ocorrer ainda hoje e que o líder parlamentar do maior partido da oposição, o Movimento para as Mudanças Democráticas (MDC), Innocent Gonese, citado pela Lusa, já avançou na casa parlamentar zimbabueana após discutir a questão com a ZANU-PF.

Ontem, a influente Liga dos Jovens da ZANU-PF, que até à entrada dos militares na capital manifestara o seu apoio total ás ambições políticas da esposa do presidente, apresentou na televisão estatal local um “pedido de desculpas”  ás Forças Armadas e pediu a Robert Mugabe que se demitisse do cargo de Presidente, exigindo ainda a “expulsão” de Grace Mugabe do partido no poder.

A intransigência de Mugabe em deixar o poder tem sido, referem analistas locais e internacionais, uma forma de o Presidente zimbabwiano contar com o apoio da UA e da comunidade internacional para preservar o seu legado como um dos líderes da libertação de África, bem como para proteger-se, tal como a família, de possíveis processos judiciais.

No sábado, milhares de pessoas desfilaram, num ambiente eufórico, em Harare e nos arredores da capital, saudando a intervenção desta semana dos militares contra o Presidente, que tem 93 anos. As demonstrações foram organizadas pela ala dos veteranos da luta de libertação do partido no poder.

Uma troika de Chefes de Estado da Comunidade para o Desenvolvimento da Africa Austral (SADC) vai reunir-se amanhã na capital angolana, Luanda, para discutir a crise política no vizinho Zimbabwé, anunciou a presidência sul-africana.

“O Presidente Jacob Zuma, na sua capacidade de presidente da Comunidade para o Desenvolvimento da Africa Austral (SADC) irá participar na cimeira da Troika da SADC que vai decorrer na terça-feira, 21 de Novembro, em Luanda”, refere o comunicado divulgado ontem no portal da presidência e a que O Século teve acesso.

“A cimeira da troika tem como anfitrião o Presidente João Lourenço, de Angola, que preside ao orgão da SADC responsável pela política, defesa e segurança”, lê-se na nota.

“A cimeira deverá discutir o desenrolar dos acontecimentos no Zimbabwé”, conclui o comunicado da presidência sul-africana.

 

* África do Sul contra qualquer alteração

inconstitucional de regime no Zimbabwé

 

O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, manifestou-se contra qualquer mudança de regime “inconstitucional” no Zimbabwé, onde o exército lançou durante a noite e madrugada de quarta-feira passada uma operação militar destinada a “eliminar criminosos” próximos do Presidente, Robert Mugabe.

Num comunicado emitido quarta-feira, em Pretória, em que manifestou “preocupação”, Zuma instou o Governo zimbabwiano e as forças armadas a resolverem o “impasse político de forma amistosa”, salvaguardando a necessidade de se manter a legalidade constitucional, uma vez que o contrário viola as posições tanto da SADC como da União Africana (UA).

O Chefe de Estado sul-africano, que preside ao bloco regional da Comunidade de Desenvolvimento da Africa Austral (SADC, em inglês), enviou na quarta-feira dois emissários a Harare – a ministra da Defesa e dos antigos Combatentes, Nosiviwe Mapisa-Ngakula, e o ministro da Segurança do Estado, Bongani Bongo.

O grupo responsável pela paz e segurança regional da SADC reuniu-se depois de urgência na quinta-feira em Gaborone, capital do Botsuana, para discutir a crise polótica no país vizinho. Participaram no encontro Africa do Sul, Angola, Zâmbia, e Tanzânia  mas ao fim de três horas de reunião, Pretória anunciava aos jornalistas que este primeiro encontro não produziu resultados.