Quarenta e quatro anos depois da grande era dos “Magriços”

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A três meses do início da fase do Mundial de 2010, logo frente à poderosa selecção da Costa do Marfim de Drogba e companhia, Carlos Queiroz continua a não ter a vida fácil, vendo-se obrigado a enfrentar (e a superar) problemas de difícil solução, tal como acontece, por exemplo, com a forçada ausência de Bosingwa, o defesa dos ingleses do Chelsea e um elemento verdadeiramente fundamental na estratégia da equipa das quinas.

 E se juntarmos ao afastamento do ex-defesa do FC Porto, a dúvida quanto a uma total recuperação de Pepe, também ele peça deveras importante no xadrez lusitano, alguma apreensão quanto a Deco e até Ricardo Carvalho, ambos jogadores do Chelsea, a verdade é que o seleccionador nacional terá de fazer um apelo não só ao bom senso de muita gente, como,  ele próprio, a ver-se obrigado a tomar importantes decisões.
 Isto porque à partida, poucos serão os jogadores habitualmente chamados pelo ex-adjunto de Alex Fergusson, no Manchester United, que parecem com lugar garantido na selecção de Portugal para o Mundial da África do Sul.
 Assim, se exceptuarmos os casos de Eduardo, o guarda-redes do Sporting de Braga, que tem sido um dos sustentáculos da excelente campanha dos minhotos, do central Bruno Alves, o patrão da defensiva do FC Porto, de Cristiano Ronaldo, que promete vir a rubricar um excelente Mundial, de Simão Sabrosa, de Liedson, que, no Sporting já regressou aos golos e até do actual leão, Pedro Mendes, poucos serão os elementos firmes na selecção lusa.
 Com Eduardo com lugar praticamente certo na baliza portuguesa, Queiroz voltará a debater-se com o problema da escolha dos restantes dois guardiões, na lista dos 23, surgindo quatro nomes como os mais sérios candidatos, casos do “leão” Rui Patrício, do “inglês” Hilário, do “dragão” Beto e até do benfiquista Quim.
 Quanto aos restantes o panorama possibilita que se aposte em várias opções, com Paulo Ferreira, Miguel, Rolando, Duda, Tiago, João Moutinho, Miguel Veloso, Raúl Meireles, Nani, Hugo Almeida, Fábio Coentrão, Yannick Djaló, e Rúben Micael, entre outros, a figurarem na lista de Queiroz, o que, certamente, não acontecerá nem com Ricardo Quaresma, que Mourinho tem feito alinhar nos últimos jogos do Inter, nem com Nuno Gomes, relegado por Jorge Jesus ou para o banco ou até para a bancada, no Benfica, nem com Maniche ou Edinho ou mesmo Makukula, que tem marcado na Turquia.
 A verdade é que o seleccionador nacional, repetimo-lo, que não teve vida fácil para conseguir o apuramento para a África do Sul, continua a enfrentar situações complicadas.
 No entanto, mesmo assim, justo será de esperar que a selecção das quinas venha a conseguir excelentes actuações na África do Sul, muito embora não se afigure nada fácil, Portugal ir além do excelente 3.º lugar, obtido há 44 anos atrás,  em Inglaterra.
 Nas suas anteriores quatro participações na Taça do Mundo, Portugal teve os seguintes desempenhos:

1966- “MAGRIÇOS”
ACABARAM POR DESLUMBRAR A INGLATERRA

 A estreia de Portugal, numa fase final do Campeonato do Mundo, verificou-se apenas em 1966, com a dupla Manuel da Luz Afonso – Otto Glória, liderando uma selecção que acabou, não só, por se classificar num honroso 3.º lugar, como o futebol exibido pelos “Magriços” a deslumbrar não só a Inglaterra como todo o Mundo do futebol, verdadeiramente surpreendido com as proezas de jogadores como Eusébio, Coluna, Hilário, José Augusto, Simões, José Torres e companhia.
 Com quatro vitórias consecutivas, respectivamente, frente à Hungria (3-1), Bulgária (3-0), Brasil (3-1) e Coreia do Norte (5-3), a selecção apenas viria a ser derrotada pela Inglaterra (1-2), num jogo realizado em Londres, quando, inicialmente, o desafio ha-via sido programado para Liverpool, onde se encontrava instalada a equipa lusa.
 Depois do desaire frente aos britânicos, Portugal venceria a URSS por 2-1, conquistando o terceiro lugar.
 Tendo seleccionado 22 jogadores para a “operação” Inglaterra, Manuel da Luz Afonso e o treinador Otto Glória, apenas fariam alinhar 15 elementos, sete deles totalistas, casos de Hilário, Jaime Graça, Mário Coluna, José Augusto, Eusébio, José Torres e António Simões, todos com 6 jogos, enquanto, por sua vez, Alexandre Baptista e José Pereira ambos com 5 jogos, Vicente Lucas (4), João Morais e Festa (3), José Carlos (2), Joaquim Carvalho e Germano Figueiredo (1), foram os restantes jogadores que actuaram na competição.
 Américo e Custódio Pinto (FC Porto), Cruz (Benfica), Fernando Peres, Lourenço e Figueiredo (Sporting) e Manuel Duarte (Leixões), também eles convocados, não chegaram a ser chamados pela dupla de responsáveis.

1986 – SONHO DE JOSÉ TORRES ATRAIÇOADO EM SALTILLO

 Apenas vinte anos depois do Mundial de Inglaterra, Portu-gal regressaria à mais importante competição da FIFA, o que só se concretizou após uma fase de qualificação deveras difícil, com um golo de Carlos Manuel, em Estugarda, frente à Alemanha, a corporizar o sonho de José Torres, que sempre havia acreditado no tão ambicionado apuramento.
 Mesmo com um início deveras prometedor, uma vitória sobre a Inglaterra (1-0), então conduzida pelo saudoso Bobby Robson, com Carlos Manuel a bater o “keeper” britânico, Shilton, a verdade é que o Mundial do México, viria a ficar marcado como uma das páginas mais tristes do futebol português, ainda hoje estando totalmente por esclarecer as múltiplas situaçãoes que aí se verificaram, com o então presidente da Federação Portu-guesa de Futebol, Silva Resende a acusar os jogadores e estes, por sua vez, culpando não só o líder federativo, como o “vice” Amândio Carvalho, da instabilidade criada, com a “guerra” dos prémios a justificar até um largo comunicado dos jogadores, que chegaram a ameaçar abandonar o México, regressando a Portugal.
 A juntar a tudo isto, surgiu a lesão de Bento, o excelente guarda-redes e o capitão da selecção lusa, não surpreendendo que nos dois jogos seguintes, respectivamente fren-te à Polónia (0-1) e com Marrocos (1-3), Portugal averbasse duas derrotas, deixando o México sem glória.
 Estes os 22 jogadores então seleccionados por José Tor-res: Bento, Álvaro, Carlos Manuel, António Oliveira, Diamantino e Rui Águas (Benfica); João Pinto, Fernando Gomes, Paulo Futre, Bandeirinha, Jaime Magalhães, Inácio e André (FC Porto); Sousa, Jaime Pacheco, Morato e Vítor Damas (Sporting); Ribeiro e Frederico (Boavis-ta); Jorge Martins, Sobrinho e José António (Belenenses).

2002- “GUERRAS ENTRE ANTÓNIO OLIVEIRA E BORONHA AJUDARAM AO DESCALABRO

 Mesmo tendo vencido o seu grupo na fase de apuramento, embora em igualdade de pontos com a República da Irlanda (24), Portugal voltaria a rubricar uma actuação deve-ras negativa em nova edição do Mundial, esta disputada na Coreia do Sul – Japão, apenas vindo a ganhar o jogo que disputou frente à Polónia (4-0), com Pauleta (3) e Rui Costa (1), a obterem os golos da selecção comandada por An-tónio Oliveira, o antigo internacional do FC Porto e do Sporting, que havia merecido a preferência de Gilberto Madail.
 E se dentro das quatro linhas, as coisas acabaram por não correr de feição a uma se-lecção das quinas, então com nomes sonantes, desde Luís Figo a Rui Costa, passando por Paulo Sousa e Nuno Gomes, entre outros, as “guerras” entre o seleccionador nacional e o “homem-forte” da selecção, o dirigente algarvio António Boronha, acabaram por ajudar ao descalabro.
 Com um início deveras negativo, derrota frente aos Estados Unidos (2-3) e com a se-lecção nacional, logo aos 36 minutos, a perder por 0-3, admitiu-se que depois disso, as coisas viriam a melhorar e o tão ambicionado apuramento para os quartos de final viesse a concretizar-se.
 Tal acentuar-se-ia depois da vitória sobre a Polónia (4-0), mas com uma nova derrota, esta frente a equipa local – a Coreia do Sul – deitou por terra as ténues aspirações de uma equipa que, inclusive, no aspecto disciplinar protagonizou um comportamento deveras negativo, já que, no jogo frente aos coreanos, João Pinto, a meio da primeira parte, viu um cartão vermelho, pegando-se depois com o árbitro, o argentino A. Sanchez, enquanto Beto, via o segundo amarelo e a consequente expulsão, com Portugal a terminar o encontro com apenas nove jogadores.
 Eis os 22 jogadores escolhidos por António Oliveira para o Mundial da Coreia do Sul: Vítor Baía, Jorge Andrade e Capucho (FC Porto); Marco Caneira (Benfica); João Pinto, Hugo Viana, Pedro Barbosa, Nelson, Paulo Bento e Beto (Sporting); Jorge Costa (Charlton); Abel Xavier (Liverpool); Fernando Couto (Lazio); Pau-lo Sousa (Espanhol); Luís Figo (Real); Pauleta (Bordéus); Rui Costa (Milan); Sér-gio Conceição (Inter); Ricardo, Petit e Frechaut (Boavista); e Nuno Gomes (Fiorentina).
 Destes não chegaram a jogar, Marco Caneira, Paulo Sousa, Hugo Viana, Nelson, Ricardo, enquanto foram totalistas, Vítor Baía, Jorge Costa, Fernando Couto, Luís Figo, João Pinto, Pauleta, Sérgio Conceição, Paulo Bento, Petit e Beto.

2006 – SCOLARI AINDA ACREDITOU QUE PODERIA SER CAMPEÃO DO MUNDO

 Dois anos depois de ter visto fugir-lhe o tão ambicionado título de Campeão da Europa, Luís Felipe Scolari, ainda chegou a acreditar que poderia voltar a sagrar-se Campeão do Mundo, desta vez à frente da Selecção de Portugal.
 No entanto, o melhor que viria a conseguir seria um 4.º lugar, com a selecção das qui-nas a perder a possibilidade da obtenção da “medalha de bronze”, precisamente no jogo com a Alemanha, (1-3), realizado em Estugarda.
 Após um começo algo prometedor com vitórias frente a Angola (1-0), México (1-0) e Irão (2-0), seguiu-se, nos oitavos de final, um novo triunfo, (1-0) com a Holanda, com Maniche a bater Van der Sar, logo aos 23 minutos e, depois disso, com uma actuação desastrada do árbitro russo, Valentin Ivanov, a dar ordem de expulsão a Cos-tinha e a Deco, deixando naturalmente enfraquecida a selecção das quinas.
 Isto porque no desafio que se seguiu, com a Inglaterra (0-0), para os quartos de final, Scolari teve de recorrer a Tiago e a Petit, enquanto Rooney, o poderoso avançado do Manchester United viria a ser expulso, por agressão a Ricardo Carvalho.
 Na chamada lotaria dos penalties e graças muito especialmente ao guarda-redes Ricardo, Portugal conseguiria apurar-se  para as meias finais, acabando por ser derrotado pela França, com um golo de Zinedine Zidane, na transformação de uma grande penalidade, a punir falta de Ricardo Carvalho sobre Thierry Henry, a deitar por terra as aspirações lusas.
 A finalizar, o jogo para os 3.º/4.º lugares, com a Ale-manha, com os germânicos a chegarem aos 3-0 e, só a dois minutos do fim, Nuno Gomes, que havia rendido Nuno Va-lente, aos 69 minutos, a conseguir o golo português.
 Para a “operação” Mundial 2006, Luíås Felipe Scolari chamou os seguintes 23 elementos: Ricardo, Fernando Meira, Ricardo Carvalho, Maniche, Nuno Valernte, Luís Figo, Miguel, Cristiano Ronaldo, Pau-leta, Simão, Petit, Deco, Cos-tinha, Tiago, Paulo Ferreira, Hélder Postiga, Caneira, Ricardo Costa, Hugo Viana, Nuno Gomes, Boa Morte, Quim e Paulo Santos, ambos guarda-redes e os únicos que não disputaram qualquer jogo.