Prémio Saramago” para “Os Malaquias”

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Prémio Saramago

Prémio SaramagoAndréa del Fuego, vencedora do Prémio Saramago, com o romance “Os Malaquias”, disse que “precisava contar esta história”, que é a da sua família, mas “nem tomando um ácido ia pensar que ganharia” o galardão.

  A escritora brasileira falava na cerimónia de anúncio do vencedor do Prémio José Saramago, na sede do grupo Círculo/Bertrand, a que assistiu o secretário de Estado da Cultura.
  “É uma história real que de facto aconteceu”, a queda de um raio fulminou os bisavós da escritora, em Minas Gerais, e os filhos foram separados, “cada um para seu lado”.

  A escritora advertiu porém que “não se trata de uma biografia, mas antes inventar um memória”.
  A história, que circulou na família, suscitou sempre a curiosidade de Andréa, que de registo é Andréa Fátima Alves dos Santos. O apelido “del Fuego” surgiu quando inventou uma personagem para uma revista de uma rádio paulista em que era conselheira sexual.
  Nélida Piñon, um dos membros do júri do Prémio José Sara-mago, referiu a memória da bailarina Luz del Fuego (1917-1967), que afrontou a sociedade brasileira com a sua audácia, nomeadamente dançando e passeando-se semi-nua com uma cobra.

  Quanto ao romance, que levou sete anos a escrever, Andréa del Fuego disse que “o ponto de partida foi inventar o que aconteceu” e aos jornalistas revelou que José Luís Peixoto, também distinguido com o Prémio Saramago, lhe deu “uma ajuda numa solução a dado passo do romance” quando estiveram no encontro de escritores de Paraty.
  Durante os sete anos de escrita, a autora pensou muitas vezes em desistir, “nomeadamente quando iam morrendo parentes que estavam no livro e achava uma coisa um pouco mórbida trabalhar com aquilo”, e também quando sentia muito viva uma memória afectiva.

  “A afectividade estava muito envolvida com aquilo e eu pensei: isto não tem nada a ver com literatura. A literatura tem um certo distanciamento, uma carpintaria, uma certa frieza para se lidar com estas palavras depois. Desistia do livro e voltava [a ele] com um certa saudade”, contou.
  O distanciamento, disse a escritora, que tem já publicados oito títulos, foi-lhe dando “a técnica, nomeadamente a de ser concisa, a concisão, as frases e os capítulos curtos, eram uma forma de cortar sem dor. Uma forma de esfriar o fogo para olhar com distanciamento e cortar trechos do livro. Apego a frases supostamente maravilhosas que não diziam nada”.

  A escritora paulista afirmou que os sete anos que levou a es-crever “Os Malaquias” foi “uma aprendizagem literária, a lidar com todas a emoções envolvidas com a escrita e até as instâncias muito misteriosas da criação, a própria rejeição à criação”.
  Já com um novo romance, Andréa del Fuego disse que o vai agora “pensar melhor” e reconheceu “o peso que é ter recebido o Prémio Saramago”.
  A escritora afirmou que ir a Lisboa pela primeira vez, foi “o regressar ao útero da língua” portuguesa e quando ouviu um fado em Alfama, afirmou ter reconhecido o que disse ser melancolia.

  “Eu tenho essa melancolia, essa melancolia quieta também que existe em Minas Gerais, onde se localiza o livro”, disse.
  “Não tem o menor problema em ser melancólico e triste, é bonito sentir essas regiões que não são iluminadas”, disse.