Portugueses criam associação de enfermeiros no estrangeiro

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Portugueses criam associação de enfermeiros no estrangeiro

Um grupo de enfermeiros portugueses apresentou formalmente em Londres uma associação para apoiar profissionais compatriotas, mas também ajudar os emigrantes lusos no acesso ao sistema de saúde britânico.

 A Diáspora dos Enfermeiros – Associação de Enfermeiros Portugueses no Estrangeiro é uma evolução do portal com o mesmo nome criado há cerca de quatro anos para ajudar muitos jovens que olhavam para o estrangeiro como for-ma de encontrar emprego na sua área profissional.

 Segundo as próprias estimativas, existem 10.000 enfermeiros oriundos de Portugal emigrados em países como Reino Unido (5.000), Suíça (2.000), França (1.000) e Irlanda (500), mas a mudança de país nem sempre é fácil, admite Sabrina Ferreira, que chegou no início de 2011 e integra a comissão instaladora.

 “A Diáspora vem como que para evitar abusos no processo de recrutamento para o estrangeiro, pois cada vez há mais agências a fazer muito dinheiro com os enfermeiros portugueses e há casos menos felizes que poderiam ser evitáveis se o enfermeiro português fosse devidamente informado de direitos e do processo em si”, conta.

 O site agrega informações de todo o processo de emigração para muitos países, incluindo Austrália, Angola e Brasil, um manual para ajudar na instalação no Reino Unido e testemunhos com experiências e conselhos.

 Agora, a associação, que se apresentou na Embaixada de Portugal no Reino Unido, quer ser mais dinâmica, e organizar eventos de formação ou simplesmente de convívio

 “Há que fazer com que os que emigrem se sintam unidos e com sentimento de pertença a algo”, explicou Sabrina Ferreira.

 Uma vertente deste desejo em aproximar a comunidade é o acompanhamento que desejam fazer a outros portugueses emigrados ultrapassarem obstáculos como a barreira da língua para beneficiarem melhor do sistema de saúde britânico.

 “Coisas simples como a inscrição num médico de família podem levar a que se ‘pegue’ a tempo numa família disfuncional e se evite o suicídio de um dos membros por exemplo. Somos todos enfermeiros e vemos isso na prática”, garante esta enfermeira.

 No futuro, a associação pretende fazer actividades como ensinar suporte básico de vida às crianças portuguesas no Reino Unido, organizar caminhadas, sessões de esclarecimento sobre serviço nacional de saúde britânico, incentivar a doação de sangue ou promover rastreios de doenças.

 A Diáspora dos Enfermeiros deseja ser activa em mais países, mas começa a sua actividade no Reino Unido, onde trabalham actualmente os onze membros fundadores, um reflexo da crescente tendência de emigração para este país em menos de uma década.

 Em 2005, só 15 enfermeiros portugueses se inscreveram no Nursing and Midwifery Council (NMC), entidade que regula a atividade no Reino Unido; em 2013 registaram-se 1.211, confirmando a posição de segunda nacionalidade mais representativa de enfermeiros estrangeiros a trabalhar recentemente no Reino Unido.

 

* Mais de 80% dos  enfermeiros  portugueses no Reino Unido recrutados  por agências

 

 Mais de 80 por cento dos enfermeiros portugueses a trabalhar no Reino Unido foram recrutados através de agências de emprego, conclui um inquérito do portal Diáspora dos Enfermeiros.

 Dos 349 inquiridos, 11% de um universo oficial de 3.155 enfermeiros lusos inscritos no Nursing and Midwifery Council (NMC), entidade que regula a atividade no Reino Unido, 51% respondeu a um anúncio de emprego de uma agência empregadora britânica e 33% a uma agência portuguesa.

 A média de idades é de 27 anos, predominando o intervalo entre os 22 e 27 anos, e 81 por cento dos inquiridos afirmaram ser solteiros, confirmando-se também que a esmagadora maioria desta vaga é composta por recém-licenciados.

 O caso de Sabrina Ferreira, actualmente com 26 anos, é emblemático: terminou o curso em 2010 e no início de 2011 já estava a chegar ao Reino Unido, onde é actualmente enfermeira nas Urgências do St. Georges University Hospital.

 O estrangeiro surgiu como uma opção que se confirmou ser inevitável após uma procura de trabalho infrutífera em Portugal, contou à agência Lusa: “Enviei cento e tal currículos; só recebi duas respostas e convite para uma entrevista para uma posição com dois mil candidatos”.

 O processo com a agência de recrutamento foi rápido, recordou, pois foi seleccionada à primeira, seguindo num grupo com mais 40 enfermeiros portugueses, inicialmente para Tunbridge Wells, 80 quilómetros a sul da capital britânica.

 As principais dificuldades, admitiu, foram a adaptação à comunicação em língua inglesa, sobretudo devido aos diferentes sotaques e uso de expressões populares, e também à forma de trabalho dos britânicos.

 Mas em poucos meses conseguiu a transferência para um serviço que desejava, as urgências, algo que estima que em Portugal demoraria pelo menos 10 anos e dependeria de factores nem sempre subjectivos.

 “Eu não gosto de cá estar, não gosto da cultura. Estou cá para trabalhar, por causa da minha carreira. Mas não acho que conseguiria voltar já a Portugal porque não quero ser tratada como seria lá”, confessou à Lusa.

 Paulo Sousa, casado e com 39 anos, representa uma situação menos comum neste grupo, mas também representativo de um número de enfermeiros portugueses experientes que olham para o es-trangeiro como uma forma de progredir na vida e na carreira.

 “Queria uma vida melhor do que ter três empregos a trabalhar 70 horas por semana. Estava saturado porque tinha responsabilidades e não recebia por isso. E porque queria dar uma vida melhor ao meu filho”, justificou.

 Saiu de Santa Maria da Feira em 2009 para o Reino Unido porque este era um país mais próximo de Portugal e menos complicado em termos de burocracias do que a Austrália, que chegou a ser a primeira opção.

 Tanto para Paulo, especialis-ta em cuidados intensivos, como para a esposa, igualmente enfermeira, a experiência tem sido positiva: alguém de emprego no Royal Bromp-ton Hospital, encontraram um salário melhor, formação paga, promoções e ofertas de trabalho.

 “Faço coisas que não existem em Portugal. É estimulante a possibilidade de fazer coisas diferentes. Não estamos minimamente arrependidos – só temos pena de não termos vindo mais cedo”, garantiu.

 Paulo e Sabrina falam ambos da qualidade de vida que encontraram no Reino Unido, que lhes permite ter outras atividades ou viajar, pelo que o regresso a Portugal é enca-rado como uma possibilidade num futuro distante.

 Esta é também a perspetiva da maioria dos inquiridos do inquérito: embora 43% admita voltar para exercer a profissão, 33% só pretende voltar ao país de origem depois da aposentação e 24% dos enfermeiros portugueses não quer nem votar para trabalhar nem para gozar a reforma.