Portuguesa criou festival da canção para o Continente Africano

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Michelle Nunes Fernandes é fundadora da “AfriMusic Song Contest” e levou a vencedora, Symphony, natural da Swazilândia, ao festival Eurovisão da Canção que decorreu este ano em Lisboa, onde Symphony actuou. Trabalhou seis anos na produção, à sua inteira responsabilidade, dos SAMA’s (South African Music Awards). A criação e produção de eventos, está, segundo ela no sangue. Casada e mãe de filhos é uma árdua trabalhadora que se foca em gerir com o marido três empresas ao mesmo tempo. Michelle sentou-se com o Século de Joanesburgo à mesa da Pastelaria Princesa 2 em Aspen Hills, para nos contar um pouco do seu historial e como surgiu a ideia de criar um “Festival da Canção” para toda a África.

Michael Gillbee: Dê-nos um pouco do seu historial

  Michelle Fernandes: Eu nasci na África do Sul, vivi toda a vida no Sul de Joanesburgo, fui à escola no Sul, os meus amigos são do Sul, portanto uma menina do Sul de Joanesburgo. Os meus pais são portugueses, a minha mãe nasceu em Moçambique e o meu pai nasceu em Angola. Tenho duas irmãs, somos três raparigas. A minha família está toda no Sul e somos muito unidos, passamos muito tempo juntos. Cantamos muito, o meu pai canta muito, acho que é daí que a minha paixão pela música vem.

  MG: Quem é o seu pai?

  MF: O meu pai é Victor Nunes. Cantor e compositor de músicas. Quando saiu de Angola foi para a Namíbia, nos anos 70. Decidiu vir para a África do Sul, para a Cidade do Cabo e acabou for se fixar em Joanesburgo. Ele sempre foi muito dinâmico dentro da Comunidade portuguesa, a cantar no Lusito. Compôs um álbum com José Miguel, Tony Miguel e outros grandes artistas lusos na África do Sul e compuseram um álbum Português. E o meu pai traduziu uma canção para Português, “Emigrantes Sem Fronteiras” e essa canção tornou-se no hino dos emigrantes portugueses em todo o Mundo. A paixão pela música do meu pai contagiou-nos e está-nos no sangue. Eu depois ingressei na indústria de produção de eventos. Sempre fomos uma família de entretenimento. O meu pai também tinha um estúdio de vídeo e fotografia para eventos e casamentos. O meu pai também esteve muito envolvido na indústria cinematográfica. As minhas irmãs e eu entrámos no ramo também e eu estou a trabalhar na produção e realização de eventos há 15 anos.

  MG: E como é que foi produzir os SAMA?

  MF: Tive a oportunidade de produzir o evento, filo durante seis anos. Trabalhei com Randall Abrahams do programa “Ídolos”. É daí que a minha paixão por produção televisiva entrou. O meu pai falou-me do concurso “AfriMusic Song Contest”. Algo que ele queria muito fazer, sempre teve fascínio pelo festival da Eurovisão e queria fazer algo semelhante em África e, com a minha experiência na produção, pensei que era tempo de eu e os meus parceiros lançarmos o concurso.

  MG: E quando é que isso aconteceu?

  MF: Foi o ano passado em Agosto. Tudo em plataformas digitais. Queríamos primeiro testar as águas e saber como e que seria, qual seria a adesão à ideia em todo o continente africano.

  MG: Mas, a Michelle trabalhou nos SAMA’s. Como é que isso foi?

  MF: A empresa com que trabalho, de quem sou parceira, Vertical Limit Productions (VLP), Delmarie veio da produção televisiva. Quando eu trabalhei com ela, ela meteu-me na produção. Comecei a trabalhar com a acomodação e registo de todos nos SAMA’s. Gostaram tanto da minha maneira de trabalhar e pediram-me então para gerir tudo. Eu depois lidei com os fornecedores, membros, com as discográficas, com os artistas. Eu era a pessoa que geria todas as candidaturas e com os júris e auditorias. Estava mesmo encarregue de tudo ao mais alto nível. Por fim, divulgávamos a lista de finalistas e na produção da cerimónia final de prémios. Portanto, como disse, tudo desde o início do processo até ao fim da cerimónia de entrega de prémios da SAMA, estava à minha responsabilidade.

  MG: O que é que é preciso fazer para um SAMA?

  MF: Há muito trabalho envolvido. Não é possível faze-la num mês. É basicamente uma coisa de um ano inteiro. É preciso reunir com as discográficas, com os comités executivos, formalizar as normas para os prémios, depois disso comunica-se para os músicos submeterem as suas músicas através das discográficas com as devidas regras, as categorias também. Há também um período, só músicas e canções entre certas datas. No caso dos SAMA’s, se não estou em erro, era de 1 de Novembro até 30 de Novembro do ano seguinte. Há um painel de júris, é preciso passar revista a todos os álbuns candidatos porque há muitos artistas que candidatam canções que não são relevantes ou que os álbuns não têm canções suficientes. É preciso escrutinar muito bem. Depois, com os álbuns que obedecem às regras, passam ao painel de júri. Escolhemos júris que são peritos em música, na indústria que julgam diferentes categorias. Depois, há o processo de auditoria independente e que irão aconselhar quais serão os nomeados em cada categoria, seguidamente há o comunicado ao Mundo dos nomeados. E depois começa a grande produção, onde nos reunimos com empresas de produção, directores musicais, directores técnicos e cenógrafos, coreógrafos. Tem de se escolher o local do evento. A segurança. Há todo um planeamento geral e que leva cerca de 6 a 8 semanas a organizar. E só no fim de tudo, é que se tem o evento que dura umas horas. Como dizíamos, é um traba-lho moroso, que para a maioria só vê aquele dia e o evento espectacular, mas que para nós, quem produz, leva muito tempo e trabalho a fazer. O problema com os SAMA’s é que a industria discográfica e de gravação da África do Sul é que dita as coisas e, é algo que se torna muito politizado. É algo que absorve muito de nós e do nosso tempo e ainda ter de lidar com a politiquice toda, é algo que tira todo o entusiasmo. Nós simplesmente decidimos deixar de parte os SAMA’s por causa disso.

  MG: A VLP é a sua empresa?

  MF: Não. A VLP era detida pela Delmarie Seaward, que infelizmente faleceu devido a cancro o ano passado. Agora pertence ao director, Greg Shepard. Eu estou a ajudar a gerir.

  MG: Diria que esse é o seu emprego a tempo in-teiro?

  MF:  Sim, é a tempo inteiro. Eu e a VLP estamos a fazer conjuntamente a AfriMusic Song Contest.

  MG: Como é que surgiu o concurso?

  MF: O meu pai sugeriu-me essa ideia. Ele fazia pequenos festivais de canção entre os clubes portugueses. Foi algo que ele sempre quis fazer. Baseamos o processo no festival da Eurovisão. Estudámos muito e pesquisámos muito, porque África trabalha de uma forma muito diferente da Europa. Não se pode duplicar a Eurovisão, é algo diferente. Pesquisámos muito e com a experiência de VLP, que trabalham muito em África, conseguimos contactos e o processo ficou facilitado.

  MG: E como é que é se processa o concurso?

  MF: Seguimos muito a Eurovisão como linha condutora. Para o primeiro ano, decidimos por não termos patrocínios, “testar as águas”, ver quais seriam os números de espectadores e participantes. As empresas, as televisões, querem saber os números, a quantas pessoas conseguem chegar. Concluímos que nos primeiros dois anos, vamos estar apenas em plataformas digitais através do sítio da Internet, postaríamos os vídeos e/ou canções no YouTube, onde os fãs podem votar. Há um painel de júris que avaliam as canções e a decisão do júri contribui com 50% da pontuação de cada canção. Os restantes 50% são dos votos dos fãs. Para assegurarmos a imparcialidade e igualdade, porque há países com mais população do que outros.  E o processo é igual à Eurovisão. Há candidaturas de músicas, processo de avaliação. Depois há escolhas de cada país e os vencedores de todos os países concorrentes, competem entre si para ver quem ganha.

  MG: Qual foi o resultado deste primeiro concurso? Quantas participantes de quantos países?

  MF: O objectivo eram sete países. Obtivémos 19 participantes de África. Na fase de pré-registo, tivemos 42 países. Até tivemos um compositor do Reino-Unido e dos Estados Unidos da América, que queriam que encontrássemos um artista africano para interpretarem as canções deles. De 192 artistas no total, ficamos com 81 artistas de 19 países africanos. Na final, tivémos 19 artistas. Foi muito melhor e maior do que tudo aquilo que esperávamos.

  MG: Qual é a próxima fase?

  MF: Estamos no processo dessas negociações. Não posso confirmar com quem estamos a falar neste preciso momento, mas estamos a negociar a transmissão televisiva. Estamos a negociar uma parceria muito boa. Ao que parece também, há 90% de hipóteses, da Swa-zilândia organizar a final porque foram os vencedores da primeira edição, com a artista Symphony. Tal como acontece com a Eurovisão. Vamos à Swazilândia no fi-nal de Agosto, para começar a organizar o evento. Isso significa que podemos atrair turismo e riqueza para os países que organizarão o evento. Para a AfriMusic é ir muito para além da música. É para incrementar a economia e a cultura. Queremos abrir salas de música nos diferentes países, workshops para aqueles que querem escrever música e compor sem saberem como e isso está em plano.

  MG: Consideraria fazer um Eurovisão Africa na Comunidade portuguesa?

  MF: Claro que sim. É algo a longo-prazo. Acredito que o objectivo daqueles festivais de música que o meu pai fazia, era ingressar no festival da canção em Portugal. Portanto, não estamos muito longe disso.

  MG: Que planos tem para o Futuro?

  MF: Bem, quero elevar o concurso ao nível da Eurovisão. Claro, a Eurovisão está há mais de 60 anos. Mas é o objectivo de chegar a esse nível de qualidade. E queremos depois fazer um “AfriMusic Junior” e trabalhar com a UNICEF também, para dar às crianças a oportunidade de entrar no mundo da música.

  MG: E fala Português?

  MF: Falo, mas não é tão maravilhoso como deveria ser. Mas sim, falo Português.

  MG: Que conselho é que dá a quem está a começar? A quem quer seguir os sonhos?

  MF: Primeiro que tudo, não desistam nunca! Eu sei, toda a gente diz isso é cliché…mas nunca desistam! Uma coisa que faço sempre, leio sempre muito sobre pessoas que tentaram fazer coisas, como falharam até chegarem aonde querem. E eu tenho feito isso, durante a minha carreira. Chamo a isso “Falling Forward” ou seja, “Falhar em Frente”. Penso que é importante se algo não funcionou da primeira vez, analisa-se e saber o porque é que falhou e tentar fazer com que funcione de outra forma da próxima vez. E se tem de se tentar dez vezes, então que seja. Nunca parem e nunca desistam. Eu sou uma sonhadora, se é sonhador não mude, não deixem que ninguém vos diga para pararem ou serem diferentes.

  Michelle Nunes Fernandes é tipicamente portu-guesa: de baixa estatura, cabelo escuro, pele morena e olhos amendoados. Fala com as mãos e num tom de voz suave, mas por trás da “doçura”, Michelle tem um profundo conhecimento do que fala. Em termos de produção e realização de eventos e a criação de novos projectos é onde brilha. Sempre ávida de novos desafios e autossuperação, é orgulhosamente luso-sul-africana. Apaixonada pelo marido e pela família, dedica-se de alma e coração aos seus como se dedica ao trabalho. Michelle Fernandes é mais um exemplo de sucesso e inovação na África do Sul fruto da Comunidade portuguesa.