Português torna-se empresário de sucesso num dos distritos mais pobres do País

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Português torna-se empresário de sucesso

Português torna-se empresário de sucesso Agostinho Pinto saiu de Portugal há meio século, para cumprir o serviço militar em Moçambique. Depois de terminar a tropa, fixou residência no país, mas não se lembra porquê. Hoje, é o mais famoso comerciante português de Inharrime.

 Quando em 1961 Agostinho Pinto integrou o exército português, na província nortenha de Niassa, não sabia que no fim da guerra colonial contra a Frelimo (partido no poder em Moçambique) se tornaria um “cidadão nacional”, mesmo não tendo formalmente adquirido a nacionalidade moçambicana.
 Há 35 anos Moçambique alcançou a independência. Na altura, alguns portugueses retornaram a Portugal e outros instalaram-se nos territórios vizinhos, ou saíram das zonas rurais para áreas urbanas moçambicanas. Mas Agostinho Pinto permaneceu no país. E fez um movimento migratório contrário ao de milhares dos seus compatriotas. Iniciou trabalhos na cidade e, depois, rumou a uma zona periférica.

 Apesar de não se esquecer dos obstáculos pelos quais passou quando se instalou em Inharrime, província de Inhambane, sul de Moçambique, o empresário foi e ainda é um optimista quanto ao seu futuro.
 A confiança tem uma base. “Eu sou estrangeiro, mas sou um estrangeiro que gosta de Moçambique”, diz em declarações à Lusa.
 Além disso, desde muito cedo que o novo Estado independente se tornou uma oportunidade ímpar para o português, “natural da Beira Litoral”. Entre 1974 e 1975, trabalhou em Lichinga, como funcionário do Estado colonial, mas, posteriormente, integrou o Estado moçambicano como “cooperante português”, em Nampula, no norte.
 Mais tarde rumou para Maputo – isto nos anos 90 – iniciando uma nova trajectória num país contra o qual lutou quando ainda pertencia ao exército colonial.

 No período que sucedeu a 16 anos de guerra civil, terminada em 1992, Agostinho Pinto contou com a “força de um amigo” e a “inteligência e absoluta seriedade” da mulher moçambicana com quem se casou, para decidir se deveria instalar-se na província de Inhambane.
 Aqueles dois companheiros ajudaram-no a fazer a pros-pecção de mercado que o le-vou a descobrir as oportunida-des de negócio num dos distritos mais pobres do país: Inharrime.
 À semelhança de outras regiões de Moçambique, Inhar-rime ainda tem infraestruturas destruídas, muitas delas paralisadas devido à guerra civil.
 Mas foi ali que Agostinho Pinto recuperou uma das velhas cantinas construídas nas zonas rurais no período colonial, um local onde se vende de tudo um pouco.

 No estabelecimento do “senhor Pinto”, como é conhecido, situado mesmo à beira da estrada que liga o sul e o norte do país, o empresário português passa hoje a maior parte da sua vida, desenvolvendo a sua actividade comercial. E é num dos quartos contíguos ao armazém, no qual montou um escritório, que esboça os planos de gestão para os negócios.
 Além de comerciante, o português foi “por bastante tempo” o representante do maior banco moçambicano (o BIM), detido pelo Millennium BCP.
 Desde 2007 até à abertura do primeiro balcão no ano passado, “representei o Millennium BIM em Inharrime. Durante bastante tempo tive um contrato de representação com o BIM. Eu fazia pagamentos através de um POS (caixas electrónicas usadas em estabelecimentos comerciais), re-cebia depósitos, abria contas, recebia pedidos de empréstimos e encaminhava tudo para um balcão que me apoiava…”, lembra a sorrir.
 Mas, na sua opinião, foi mais gestor do que empresário.

 Quanto ao seu sucesso, “está na família”, responde de imediato quando questionado sobre o assunto.
 “Muitas pessoas confundem a minha gerência com as propriedades. Essas propriedades não são minhas. Eu sou o gestor. Como gestor, sim, ao nível de Moçambique, sou um gestor de sucesso”, afirma Agostinho Pinto.
 “Como empresário, sou um empresário que trabalha num grupo de uma família. Essa sim, é que é empresária na globalidade. Eu sou o gestor…”, remata.

 Certo é que hoje considera que a sua presença fez de Inharrime um lugar melhor para se viver.
 “Tenho a certeza que em Inharrime hoje se viveria pior se eu não tivesse vindo para cá. Pelo menos isso dá-me uma certa felicidade”, afirma Agostinho Pinto, que actualmente é também vice-presidente do conselho empresarial da província de Inhambane.
 Ali, por agora, está “muito bem”, tal como diz em entrevista à Lusa. E embora não garanta que um dia não volte para Portugal, parece estar mesmo para ficar.

 “Não digo que não volto para Portugal. Tudo é possível”, mas logo de seguida relembra: “Cheguei a Moçambique em 1961, e ainda estou cá. Não abandonei o país”. E conclui: “O homem é um elemento do meio, adaptei-me. Agora tenho muito gosto em estar aqui, inserido na sociedade moçambicana”.