Português nascido em Bloemfontein é origem de projecto autarca pioneiro na Figueira de Castelo

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Português nascido em Bloemfontein é origem de projecto autarca pioneiro na Figueira de Castelo Rodrigo em Portugal

É um dos exemplos de excelência que a Diáspora portuguesa produz e que vão de fora para dentro de Portugal e na pátria ancestral, de onde as raízes familiares brotam, fazem bem, melhoram e engrandecem o país. Estamos neste exemplo a falar do Cartão de Saúde “Figueira Saudável”. Esta iniciativa inovadora e pioneira, zela pelos interesses e bem-estar geral dos habitantes de Figueira de Castelo Rodrigo.

  Segundo nos foi explicado, não tem como objectivo substituir o Sistema Nacional de Saúde (SNS), mas sim complementar e suprir lacunas. Este projecto do executivo em funções, procura dar a todos os habitantes uma maior qualidade de vida, proporcionando-lhes acesso a consultas médicas de clínica geral e de especialidade, de forma totalmente gratuita. Estamos a falar no presidente da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, Paulo José Gomes Langrouva. Este projecto suscitou a curiosidade do Século de Joanesburgo e quisemos saber junto de um filho da Comunidade portuguesa na África do Sul o porquê e o como foi feito.

 

  Michael Gillbee: Nasceu na África do Sul. Em que ano?

  Jorge Langrouva: Sim. A 21 de Setembro 1969.

  MG: E viveu na África do Sul até quando?

  JL: Até 1986, vim com 16 anos para Portugal.

  MG: E cá estudou o quê?

  JL: Aqui estive a estudar, estudei na secundária de Pinhel e fui para a Universidade. Estudei Economia na Universidade Nova de Lisboa.

  MG: E quando é que teve a vontade de ingressar na política?

  JL: Bom, isto foi assim até um bocado casual. Porque eu efectivamente nunca estive ligado à parte política, nunca me associei a nenhum movimento político, foi por mera coincidência. Eu era técnico do Instituto de Emprego e For-mação Profissional (IEFP), acontece que eu estive aqui e fui convidado para ajudar aqui [Figueira de Castelo Rodrigo], no âmbito das minhas funções do IEFP, logo em tenra idade, para vir ajudar aqui o nosso município na criação de em-presas. E na altura foi convidado para alguns cargos que eu nunca aceitei, porque eu também fui chefia no IEFP, passados uns anos acabei por vir apoiar o executivo para a cria-ção do “Ninho de Empresas do Conhecimento” e que nós ajudámos a criar aqui algumas empresas. Bom, entretanto regressei ao IEFP, passados dois anos tive o convite para formalmente ingressar como autarca e para encabeçar uma lista como autarca. E, tive a sorte de ser eleito!

  MG: Fale-nos do projecto “Figueira Saudável”.

  JL: Nós temos aqui de facto um projecto inovador, não só a nível do país, mas a nível até europeu. É um projecto que visa dar saúde a todos os nossos munícipes. Saúde gratuita e em complementaridade com o Sistema Nacional de Saúde. Nós não vimos fazer concorrência ao SNS, vimos complementar. Constatámos que haviam muitos utentes nossos sem médico de família, situação que é normal nestes territórios do interior de Portugal. Achámos que tínhamos que resolver este problema, as pessoas não se podem resignar às dificuldades que vamos tendo aqui no interior. Tentámos atrair médicos, não o conseguimos e então tivemos que arranjar uma solução. A solução foi este seguro de saúde municipal que visa efectivamente possibilitar a todos os munícipies terem acesso a cuidados de saúde primários de forma gratuita e não pagam qualquer taxa moderadora, nem qualquer copagamento. Inclusivamente, o transporte que os leva às clinicas na Guarda ou em Viseu ou onde quer que seja necessário, são totalmente gratuitos. Nós lançamos um concurso internacional e com um investimento de cerca de 300 mil euros.

  MG: Mas esse dinheiro, foram fundos comunitários europeus? Ou fundos autárquicos?

  JL: [exclama e enfatiza] Não, fundos aqui da autarquia. A autarquia é que está a disponibilizar e a investir na saúde.

  MG: E como é que surgiu essa ideia? Você em vez de fazer um pavilhão ou um estádio, fez uma coisa que vai perdurar pelo tempo e que é muito mais útil à população.

  JL: Sim, nós desde o início do mandato que dissemos que não íamos fazer grandes obras. Portanto, o nosso foco iam ser as pessoas e as suas dificuldades. Uma delas era o acesso à saúde. Aliás, muitas vezes ouvíamos as pessoas dizer “oh presidente, eu não vou para Figueira de Castelo Rodrigo porque não temos lá cuidados de saúde”. Ora, nós não poderíamos compactuar com uma situação dessas! Tivémos que idealizar e conceber um documento, um caderno de encargos que viesse satisfazer essas necessidades básicas da população. Finalmente, conseguimo-lo, lançámos um concurso internacional e então que inclui consultas de clínica geral, consultas de especialidade e também meios de diagnóstico complementares.

  MG: Quando diz “concurso internacional”, a que é que se refere?

  JL: A Câmara Municipal, tem que lançar um concurso para ver quem é que é mais apto a ficar com o contrato. Logo no primeiro ano tivémos seis empresas a concorrer, seguradoras.

  MG: Internacionais ou portuguesas?

  JL: Portuguesas, essencialmente portuguesas. Ganhou a Vitória Seguros e pelo segundo ano consecutivo foi atribuído o contrato à mesma seguradora, dado que já estamos no segundo ano do seguro de saúde “Figueira Saudável”. Nós temos um serviço pioneiro e satisfaz as necessidades da nossa população. Anteriormente tínhamos pessoas que iam às quatro da manhã, outras pernoitavam no centro de saúde à espera de uma consulta para o dia seguinte. Muitas delas chegavam ao dia seguinte, nem sequer tinham acesso porque já esgotavam o número de consultas que a médica poderia fazer, portanto com este sistema resolvemos o problema todo. Num prazo de quinze dias todos tem acesso às consultas de saúde e todos vão fazer os seus exa-mes, análises, o que quer que seja necessário.

  MG: O que o presidente está a querer dizer, é que a qualidade de vida aqui em Figueira de Castelo Rodrigo melhorou?

  JL: Melhorou e em muito. Nós até podemos ser conhecidos como território de saúde [ri] !

  MG: Há quanto tempo é que não vai à África do Sul?

  JL: Bom, eu desde que vim para Portugal, nunca mais consegui regressar à África do Sul. Não porque não queira ir, mas por impossibilidades profissionais.

  MG: No congresso mundial dos 50 anos da Academia-Mãe do Bacalhau, poderá lá ir fazer uma visita?

  JL: Eu fui convidado formalmente, pelo presidente José Contente, para estar presente. Se tudo correr pelo melhor, certamente irei fazer um esforço para lá ir. Até porque tenho saudades, tenho uma costela lá e gostava muito de ir fazer uma visita.

  MG: Para os nossos leitores que não sabem, você nasceu onde exactamente?

  JL: Em Bloemfontein. Vivi lá até aos 16. Vim com uns tios meus, os meus pais ainda ficaram lá mais dois anos. Só depois, é que regressaram e estive aqui em casa de uns tios meus dois anos. Foi uma experiência única e de facto deixa muitas saudades a África do Sul. É um país com uma riqueza, quer cultural, quer económica e até uma diversidade muito grande.

  MG: E tem uma forte ligação à Comunidade portuguesa?

  JL: Sim. Precisamente, eu sei o que sofre o emigrante quando está fora do seu país. Sofre, no sentido de que tem saudade, o tal mercado da saudade e a Diáspora, isso é perfeitamente explicável e para mim isso está enraizado. Consigo perceber perfeitamente, o sentimento destas pessoas que regressam e que vivenciam a sua passagem aqui por Portugal, é de facto único e uma experiência inexplicável.

  MG: Uma mensagem à Comunidade portuguesa residente na África do Sul.

  JL: Bom, eu queria deixar uma mensagem de coragem e de esperança para todos os nossos portugueses e Comunidades que estão ainda a viver na África do Sul. Para eles, de facto, uma mensagem de apreço e de gratidão porque eles também fazem um trabalho notável em termos de promoção e divulgação do nosso Portugal e eles são de facto embaixadores de Portugal no estrangeiro. Se quiserem visitar Figueira de Castelo Rodrigo, serão todos bem-vindos.

  Jorge Langrouva é um típico beirão. Sempre com um sorriso aberto e disponibilidade para os seus munícipes e visitantes, vive apaixonadamente Figueira de Castelo Rodrigo e faz tudo para a promover e melhorar. Um autarca que pensa e coloca a população em primeiro lugar e visa fazer da vila do interior do distrito da Guarda, um exemplo para Portugal e para o Mundo. Jorge Langrouva mais um exemplo do bom que sai da Comunidade portuguesa na África do Sul.