Portugal orgulha-se de sempre ter defendido a libertação dos presos políticos sul-africanos

0
114
Portugal orgulha-se de sempre ter defendido a libertação dos presos políticos sul-africanos

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, disse na terça-feira que Portugal sempre defendeu a libertação dos presos políticos sul-africanos no regime do ‘apartheid’, “incluindo Mandela”, e que essa posição “é uma honra”.

 Cavaco Silva esteve durante cerca de sete horas em Joanesburgo, onde assistiu ao memorial a Nelson Mandela, o histórico líder sul-africano.

 “Portugal honra-se de, ao longo do tempo, ter defendido a libertação de todos os presos políticos na África do Sul, incluindo Mandela, como é óbvio”, disse Cavaco Silva, falando a jornalistas portugueses em Joanesburgo.

Depois das cerimónias do funeral de Estado de Nelson Mandela, no Estádio FNB, em Joanesburgo, e antes de regressar a Lisboa, o Presidente de Portugal, Anibal Cavaco Silva, deu ao fim da tarde de terça-feira, no Redis-son Gautrain Hotel, em Sandton, uma conferência de im-prensa aberta aos órgãos de comunicação social de língua portuguesa.

  Cavaco Silva começou por fazer a seguinte declaração:

   “Ao longo da minha vida política, participei em muitas cerimónias e cimeiras com Chefes de Estado e de Go-verno mas nunca estive presente numa cerimónia como aquela que aconteceu hoje no estádio do Soweto, com a presença e a participação de tão grande número de Che-fes de Estado e de Governo. Significa isto que, de alguma forma, o mundo inteiro quis evocar a memória daquele que considera um dos maiores estadistas do nosso tempo, Nelson Mandela, pela defesa que ele sempre fez dos ideais da paz, da justiça e da reconciliação.

  Na luta por estes ideais, ele percorreu um longo caminho para a liberdade. É este o título da sua autobiografia.

  Passou 27 anos na prisão e daí ressalta um dos aspectos mais fortes do seu carácter. Nelson Mandela sai da prisão sem ressentimentos, sem desejos de vingança, sem ódio. Pelo contrário, procura levar os sul-africanos ao esquecimento do passado e aponta para a construção do futuro – um futuro de unidade dos sul-africanos, os sul-africanos vivendo em paz, sem violência.

  E, com a mesma força que lutou contra o racismo do apartheid, ele vai voltar pela reconciliação e pela unidade dos sul-africanos.

  Portanto, sobressai aqui com uma força muito grande,  fundamentada na sua tolerância, no seu desejo de re-conciliação  e de construção de uma sociedade multirracial. Caminhar para a liberdade, como ele dizia, e construir uma democracia multirracial. É aqui que emerge, de facto, a grandeza deste homem, de uma estatura invulgar, com uma coragem política notável, com qualidades politicas excepcionais.

  Como sabem – prosseguiu Cavaco Silva -, Nelson Mandela esteve em Portugal em 1993, antes de ser Presidente da República, quando ainda estava a negociar com outro grande homem da África do Sul, Frederik de Klerk. Aí, falámos sobre muita coisa. A guerra civil em Angola e a guerra civil em Moçambique foram temas que abordámos com alguma profundidade.

  Era grande a preocupação de Portugal, era grande a preocupação da comunidade internacional, era grande a preocupação de Mandela, que me disse que ia fazer tudo para contribuir para a paz em Angola e Moçambique.

  Portugal honra-se de, ao longo do tempo, ter defendido a libertação de todos os presos políticos na África do Sul, incluindo Mandela, como é óbvio, na União Europeia, nas Nações Unidas, nos contactos bilaterais, a princípio difíceis, depois mais fáceis, com as autoridades da África do Sul. Mais fáceis quando chegou o tempo de Frederik de Klerk, em que a maior parte dos líderes europeus não estava convencida que esse era o homem que teria que ser apoiado para desmantelar o apartheid na África do Sul e para libertar Nelson Mandela.

  Por isso, foi com toda a justiça que os dois em conjunto ganharam o Prémio Nobel da Paz.

  E o Presidente Cavaco Silva disse depois:

  Nelson Mandela também reconheceu o papel da comunidade portuguesa na África do Sul, uma comunidade que queria e que quer trabalhar em paz, sem violência. Ele reconheceu o papel dessa comunidade portuguesa e neste dia tão especial para os sul-africanos e para o mundo inteiro, a prova disso está no número nunca visto de Chefes de Estado e de Governo que estiveram hoje presentes no Estádio do Soweto.

  Estou convencido que as sementes de Mandela estão aí para frutificar e para criar raízes mais fortes. Mandela não pode deixar de ser uma luz de esperança para a África do Sul, uma luz de esperança para África e um exemplo para o Mundo.

  Por isso, eu que pessoalmente estou ligado às negociações de paz em Angola e Moçambique, que tanto falei sobre a África do Sul, primeiro pelo apoio que este país prestava à Unita, em Angola, e o apoio que se dizia prestar à Renamo em Moçambique e, depois, que tanto falei com De Klerk e com Mandela para que eles ajudassem a trazer a paz para Angola e Moçambique e também porque me recordo das múltiplas viagens que fiz a Joanesburgo, a Pretória e várias outras partes de África do Sul, eu que testemunhei exemplos de apartheid que não podia imaginar que pudessem existir e em que eu próprio mais três colegas fomos seriamente advertidos aqui na estação de caminhos de ferro de Joanesburgo  por estarmos a filmar esses sinais de racismo, de apartheid, é com muita honra que, juntamente com o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros, vim hoje representar Portugal nestas cerimónias de evocação da memória de um dos estadistas mais marcantes do século XX”.

 

INCREMENTO DE CONTACTOS COM A ÁFRICA DO SUL

 

  Durante as cerimónias no Estádio do Soweto, o Presidente de Portugal teve a oportunidade de falar com o vice-presidente da África do Sul, Kgalema Motlanthe, e a ministra sul-africana das Relações Internacionais e da Cooperação, Maite Nkoana-Mashabane.

  “Encontrei-me hoje também, de forma rápida, com a ministra sul-africana das Relações Internacionais, bem como com o vice-presidente da África do Sul e referimos a necessidade de incrementar os contactos bilaterais para abrir portas a mais espaço para que o mundo empresarial possa também estabelecer mais contactos e para que contactos de outra natureza também se intensifiquem” – referiu Cavaco Silva na conferência de imprensa.

  “Temos um espaço à nossa frente que nos compere explorar. Não sei se será possível aumentar os contactos políticos até à realização das eleições no próximo ano na África do Sul, que condicionam sempre as deslocações ao estrangeiro dos líderes políticos. Nós não temos sabido aproveitar as potencialidades que a nossa própria comunidade representa, mas penso que estamos numa nova fase eu acredito nela” – salientou o Presidente.

 

ESTADISTAS COM QUEM CAVACO SILVA FALOU EM JOANESBURGO

 

  O Presidente da República, Cavaco Silva, encontrou-se na terça-feira com o Presidente norte-americano, entre outros homólogos, e teve uma “longa conversa” com o primeiro-ministro timorense, à margem das cerimónias fúnebres de Nelson Mandela, em Joanesburgo.

  Cavaco Silva encontrou-se com Barack Obama, com o Presidente de Moçambique, Armando Guebuza, Presidente do México, Enrique Peña Nieto, e com o Presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, Principe Filipe de Espanha, primeiro-ministro de Espanha, Rajoy, em encontros separados, primeira-ministra da Noruega, e antigo presidente norte-americano Bill Clinton.

 

conversa com o vice-presente de angola

 

  “Eu e o senhor ministro dos Negócios Estrangeiros tivémos hoje uma conversa com o Vice-Presidente de Angola, Manuel Vicente, e foi uma conversa que decorreu com muita naturalidade. Correu bem” – revelou o Presidente Cavaco Silva na conferência de imprensa em Joanesburgo

  “Fiquei convencido que dos dois lados, do lado angolano e do lado de Portugal, há uma vontade muito séria de manter e, se possivel, reforçar ainda mais os laços de cooperação entre os nossos dois países. Continuo com essa convicção.

  As autoridades de Angola estão informadas e sabem que nos termos da lei portuguesa, nos termos da Constituição portuguesa, os nossos tribunais gozam de independência, a Assembleia da República goza de autonomia. Agora, não podemos é permitir que as instituições portuguesas possam ser utilizadas como instrumentos da luta política em Angola. A luta política em Angola é feita entre os angolanos e deve ser feita em Angola, não em Portugal.

  Não tenho a menor dúvida que as instituições democráticas portuguesas estão determinadas e não vão deixar de certeza que alguém tente utilizá-las para a luta política, que se trava que num país como Angola, e num país como Moçambique onde irão ocorrer eleições no futuro em que cada um, naturalmente, vai tentar alcançar o melhor resultado possível”.

 

CAVACO IMPRESSIONADO COM AS CERIMÓNIAS

 

   O Presidente português não fez qualquer comentário à política sul-africana mas declarou-se muito impressionado com as cerimónias em memória de Nelson Mandela, as quais – disse – “valeu a pena vir e não vamos esquecer”.

  “Não estou em condições de apreciar a política interna sul-africana. O que eu sei é que os sul-africanos sentem que um símbolo da unidade da nação pode ter partido, mas têm a sensação que ele ainda está ali a cuidar deles e, daí, a forma festiva para nós, europeus e portugueses, como celebram o seu desaparecimento. Ouvi alguns na televisão – “ele não nos vai deixar, ele vai continuar a acompanhar-nos”. Isso é uma grande responsabilidade para os actuais líderes sul-africanos.

  Tivémos esta celebração em dia de forte chuva que, de alguma forma, prejudicou a presença popular no estádio. Mas temos que compreender que é uma semana de celebrações que vai ocorrer e hoje estava, de facto, um tempo pouco simpático: o céu estava a chorar também a partida de Nelson Mandela” – disse Cavaco Silva.

  “A África do Sul  – prosseguiu o presidente português – é uma potência africana e, em primeiro lugar, uma grande potência da África Austral. A sua influência é muito grande e Nelson Mandela é não só um símbolo para a África do Sul mas também para a região.

  Espero que, de facto, os líderes sul-africanos façam frutificar estas sementes que Nelson Mandela deixa e que as raízes para a reconciliação continuem a fortalecer-se. Que seja uma nação unida e sem violência.

  Agora, o que me dizem é que os próprios sul-africanos ficaram surpreendidos com o movimento de pesar à escala mundial, de norte a sul, do ocidente a oriente. Por todas as partes do mundo. Não me recordo de outro acontecimento que tenha tido um tal impacto em todo o planeta, como o desparecimento de Nelson Mandela.

  Tudo isto está associado também à forma como ele sai de 27 anos de prisão. Normalmente, alguns previam sentimentos de vingança, de recriminação e algum ódio. Ele surpreende todos .

  Lembro-me bem, em Lisboa, como ele valorizava o diálogo com Frederik de Klerk e como ele dizia “vamos ganhar as eleições”. Era já na proximidade das eleições para a assembleia constituinte.

   O ANC – dizia ele – vai ganhar as eleições, mas não haverá problema, vamos continuar a trabalhar em conjunto com o partido de De Klerk.

   Fiquei amigo deste homem – acentuou Cavaco Silva – pelos contactos que mantive durante o tempo em que fui primeiro-ministro. Muito depois recebi De Klerk mais uma vez em Lisboa. Pertenciamos a um grupo comum de re-flexão internacional do qual tenho agora o meu lugar suspenso.

  Portanto, estas cerimónias em Joanesburgo foram qualquer coisa que marcou o mundo.

  Obama veio e foi simpático em cumprimentar-nos. Estava próximo de mim e do senhor ministro dos Negócios Estrangeiros. Também vieram os ex-presidentes dos Estados Unidos. Parece que todos quiseram estar presentes. Portanto, eu e o senhor ministro sentimo-nos honrados de estar aqui a assistir a qualquer coisa que, de certeza, nos vai marcar também. Não foi fácil cá chegar. Foram 28 horas de avião, cinco de aeroporto e sete de África do Sul, mas valeu a pena e não vamos esquecer.