Portugal aposta na nova classe média brasileira para promover turismo

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Portugal aposta na nova classe média brasileira para promover turismo

A ascensão da nova classe média brasileira com maior poder de compra está na mira das autoridades portuguesas que querem investir nesta população que nunca viajou e divulgar Portugal como um destino atraente e acessível.

 Esta é a aposta do sector para 2012 que pretende aumentar o número de brasileiros que visitam o país, segundo Luís Matoso, administrador do Turismo de Portugal.
 Nos últimos dois anos, foi registado um aumento de 23 por cento no volume de turistas brasileiros que viajam para Portugal. O Brasil é um dos cinco países que mais enviam turistas e o sexto em criação de receitas turísticas no país
 “O conhecimento que o brasileiro tem de Portugal não corresponde à sua realidade. O imaginário tem a ver com a nossa presença no Brasil, uma ligação mais histórica pelo lado tradicional e do romantismo. Mas nos últimos 30 anos Portugal mudou muito e estamos a falar de um país europeu moderno”, disse Luís Matoso.
 Seduzir o brasileiro para viajar e incentivar Portugal como um destino turístico é uma for-ma de fintar os efeitos da crise económica que afeta a zona do euro.
 “Os países não se medem apenas pelo seu valor económico. Num momento em que ninguém tem dinheiro, o país mais capaz é o que mostra outras competências. Temos que mudar essa perceção do brasileiro e mostrar um Portugal com estima elevada, mesmo num momento de crise”, argumentou Luís Matoso, que esteve no Brasil, para promover o país junto dos agentes de viagem.
 Esta foi a primeira visita de Matoso a São Paulo e ao Rio de Janeiro após assumir o cargo na administração do Turismo de Portugal, no final do ano passado.

 O Turismo de Portugal pretende estabelecer vínculos com agentes e operadores brasileiros ao longo de todo o ano e mostrar as novas estratégias para divulgar os atractivos turísticos do país adaptando-os ao perfil do brasileiro.
 A partir de Abril e Maio, já serão realizadas acções táticas para “tornar a nossa mensagem abundante”, disse Matoso, e criar uma plataforma de comunicação no meio digital.
 A aposta estará nos media tradicionais, como exibir imagens do país em canais televisivos brasileiros, mas também entrar no mundo virtual e alcançar brasileiros nas redes sociais.
 A estratégia de reforçar a imagem de Portugal nos meios de comunicação inclui fazer com que personalidades se tornem “embaixadores de Portugal”, explicou Paulo Machado, director do Turismo de Portugal no Brasil.
 Figuras televisivas que tenham o carisma dos brasileiros serão convidadas para divulgar o país, como as apresentadoras Ana Maria Braga e Hebe Carmargo, assim como Luciano Huck e Amaury Jr, famoso por entrevistar celebridades, e o empresário João Doria para um público executivo.
 A nova classe média brasileira que deve incluir mais de 50 milhões de pessoas até 2014 representa um nicho de “grande oportunidade”, destaca Matoso.
 “Essa população vai começar a viajar, muitas vezes não tem domínio de outros idiomas e a proximidade da língua em Portugal facilita a entrada na Europa. Temos que transmitir esse Portugal moderno que a pessoa vai querer visitar, não apenas de passagem, mas porque efetivamente acha que Portugal é uma boa oferta turística”, salientou.
 Segundo Matoso, o país oferece ainda uma vantagem comparativa, não apenas por ser uma porta de entrada na Europa, mas porque numa semana é possível visitar o país inteiro, ao contrário do Brasil que tem grandes distâncias geográficas para vencer.
 “Muitas vezes se pensa ‘vou a Portugal e depois vou à Europa’. É um desafio mudar este paradigma, temos que criar mais laços de afinidade”, reforçou.
 Dos cerca de 1,1 milhões de brasileiros que a TAP transporta por ano, 600 mil não desembarcam em Lisboa, apenas realizam ligações.
 A meta é não só duplicar este volume de brasileiros que, de facto, optem por passar alguns dias em Portugal, como também aumentar o tempo médio da estada. Lisboa é o principal destino no país, onde os brasileiros ficam em média entre 2,4 a 2,7 noites.

* Agências de viagem interessados em novas estratégias para divulgar Portugal como destino turístico

 Agentes de viagem e operadores turísticos brasileiros estão interessados nas novas estratégias de Portugal para divulgar o país como destino turístico prioritário para os brasileiros, mas apontam problemas.
 Para trabalhar no fortalecimento da marca de Portugal como destino, é preciso que haja investimentos e um esforço de longo prazo para consolidar a marca, explica Paulo César Soares, director geral da RDTours, empresa que trabalha há 15 anos no Rio de Janeiro enviando portugueses para Portugal e no mercado de recepção de portugueses no Brasil.
 “Fazer um destino é função do Governo, um trabalho de longo prazo. Para conseguir captar, se vale a pena investir ou não no destino, é preciso saber se o Governo está aberto e disposto a investir e fazer que esse destino se torne conhecido no mercado brasileiro”, disse Soares.
 Actualmente Soares trabalha com o segmento de “turismo de colónia”, normalmente en-tre filhos e descendentes de portugueses que voltam às terras de origem com frequência para visitar parentes.
 “É um turismo de saudade, de viagens regulares com certa frequência por ano e que fica restrito à região e não tem intenção de passear pelo país”, explicou.
 O fluxo de portugueses que viajam para o Brasil varia entre 250 a 300 mil turistas por ano, metade do que acontecia há quatro anos. O mesmo ocorre no sentido inverso: houve uma redução de portugueses e descendentes que viajam para Portugal, até por causa do envelhecimento da comunidade de portugueses no Brasil.
 “O fluxo de imigrantes esteve interrompido por mais de 20 anos, agora está começando a retornar com portugueses com um perfil diferente”, afirmou.
 O director desta operadora admitiu estar interessado em conhecer a nova proposta de promoção do país do Turismo de Portugal e já pensa em ampliar o volume de clientes interessados em conhecer o país.
 “A minha intenção é ver o que eles têm para investir nesse novo mercado. Acho que as ideias são boas. Talvez o governo português, nesse momento, não tenha verba disponível para fazer um trabalho mais pesado, que seria muito importante, mas através de parcerias também pode ser possível se chegar a um bom resultado”, ressaltou.
 Segundo destacou, é importante conquistar o interesse do brasileiro para conhecer o país e fazer com que ele desfrute do destino.
 “Portugal tem um dos melhores climas da Europa, um país comparativamente barato com o restante da Europa e que fala a nossa língua. Ou seja, uma série de situações que conspiram a favor de Portugal, mas falta que isso seja mostrado e passa por um trabalho de imagem e comunicação”, argumentou, lembrando que há ainda um obstáculo, no sentido de que Portugal não seja um destino de primeira linha”.
 Com estas novas ações, o operador já pretende expandir seu público e ampliar os lucros. “Queremos alcançar um mercado e um público que ainda não conseguimos”, concluiu.
 Contudo, agentes de viagem criticaram o baixo volume de publicidade do país no Brasil e a diferença de tarifas aéreas. É mais barato voar pela TAP para Paris do que voar para Lisboa.
 “Portugal tem que estar mais presente, os atrativos, a hotelaria tem que ser mais vistos, além de tarifas mais atraentes que despertem no brasileiro a vontade de ficar em Portugal”, disse Bia Barros, diretora da Mondeo Turismo, operadora no Rio.
 Ela defende um produto voltado especialmente para o perfil do brasileiro. “Gostaria muito que Portugal estivesse mais presente”, afirmou.
 O gerente regional da TAP no Rio de Janeiro, António Jorge, admitiu a diferença de preços nas passagens aéreas. É 10 a 15 por cento mais barato ir a destinos como Paris em relação a Lisboa.
 “A questão de Portugal ser mais caro como destino é porque é o nosso melhor produto, é a única empresa que voa directo saindo do Rio de Janeiro, com nove horas e meia de voo”, disse, lembrando que “a maior fatia da venda não é Portugal, e sim a Europa”, explicou.

 Por ano, a companhia aérea transporta cerca de 1,1 milhões de passageiros de 10 cidades brasileiras em 74 voos por semana. Contudo, apenas menos de metade dos passageiros desembarcam no país, o restante segue em ligações para outras cidades europeias.