Político britânico acusa bancos estrangeiros pela corrupção no Governo da África do Sul

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O parlamentar britânico Peter Hain afirmou que a grande corrupção no governo do Congresso Nacional Africano durante o mandato do ex-presidente Jacob Zuma, foi facilitada por bancos, empresas e governos internacionais que agora devem procurar recuperar o saque que ajudaram a retirar da África do Sul.

 Peter Hain declarou perante a comissão de Inquérito Zondo, em Joanesburgo, que investiga alegações de grande corrupção na administração estatal sul-africana, também conhecida por “Captura do Estado”, que o HSBC, o Standard Chartered e o Banco de Baroda da Índia, bem como os seus gestores foram “directamente culpados” no saque do tesouro da África do Sul durante a presidência de Zuma.

 De acordo com a agência Reuters, Peter Hain foi convidado a depôr perante aquela comissão de inquérito por ter identificado várias empresas que investigou em 2017 ao abrigo do estatuto de privilégio parlamentar, como tendo sido cúmplices na captura do Estado na África do Sul.

 O HSBC, citado pela Reuters, disse que apoiava totalmente o inquérito da comissão Zondo, enquanto que o Standard Chartered referiu que “não existem provas que vinculam o banco directamente à família Gupta”. Por seu lado, o banco de Baroda escusou-se a comentar as declarações do político britânico.

 “Estão todos envolvidos nisto até ao pescoço”, sublinhou Hain perante o juiz sul-africano.

 “Estas instituições continuaram a prática porque é evidente que as empresas envolvidas, incluindo os bancos, estavam a ganhar dinheiro com isso e os Gupta não poderiam ter acumulado essa riqueza ilícita sem que as empresas e os bancos fossem os seus pequenos facilitadores”, afirmou.

 O ex-presidente Zuma, que foi destituído do cargo pelo seu partido ANC, no poder desde 1994, e substituído por Cyril Ramaphosa, na altura vi-ce-presidente do país e do partido governante, por acusações de corrupção, é actualmente alvo de uma investigação judicial.

 A comissão de inquérito Zondo tem por mandato investigar o alegado envolvimento dos irmãos Gupta – os empresários Atul, Ajay e Rajesh – na administração estatal sul-africana, ao ponto de terem influenciado Zuma a fazer compromissos políticos e a conceder contratos públicos multimilionários em seu favor.

 Peter Hain, político trabalhista e antigo activista anti-apartheid, instou ainda os bancos, as empresas multinacionais e os governos estrangeiros “a cooperarem para que todos os envolvidos sejam levados à Justiça”.

 No seu depoimento, o parlamentar britânico disse que “vários bancos internacionais ajudaram os Gupta a esconderem a fonte dos seus rendimentos”, permitindo a abertura de contas bancárias, “mesmo depois do seu alegado envolvimento na corrupção se tornar público”, como também a transferência de fundos ilícitos através dessas contas bancárias.

 “Os sinais de alerta estavam lá e os bancos fizeram muito pouco sobre isso”, salientou, acrescentando que ao tentar interrogar os bancos depois de anunciar a sua cumplicidade no parlamento, “defrontou-se com uma enorme relutância” por parte daquelas instituições financeiras.

 “Os bancos internacionais, HSBC, Standard Chartered e Banco de Baroda estão a esconder-se atrás do princípio da confidencialidade para ocultar a sua cumplicidade (na corrupção e lavagem de dinheiro)”, salientou.

 Peter Hain afirmou que o papel das instituições financeiras a nível global na facilitação da corrupção, fraude e lavagem de dinheiro tem sido objecto de crescente escrutínio na última década, “mas a luta contra o crime financeiro é principalmente tratada pelas autoridades nacionais, que muitas vezes deixam de cooperar efectivamente”.

 Entre as suas recomendações à comissão Zondo, o parlamentar britânico sublinhou a importância de se “identificar com transparência os proprietários das empresas que tenham sido beneficiários”.

 Nesse sentido, Hain advogou ainda a aplicação de “penas mais rígidas para indivíduos e organizações incumpridores das leis contra lavagem de dinheiro”.

 Uma porta-voz do britânico HSBC, citada pela Reuters, disse que “o banco continuará a investigar possíveis ligações com indivíduos e empresas relacionadas com os Gupta, caso se confirmem novas informações”.

 “Esta não é uma tarefa fácil, dado o tempo que os Gupta demoraram para disfarçar a sua actividade”, adiantou.

 Um porta-voz da Standard Chartered afirmou: “Não encontrámos provas de que tenhamos facilitado directamente as transacções dos Gupta, mas encerrámos todas as contas que identificámos como vínculadas aos seus interesses comerciais no início de 2014”.

 Os Guptas também negam as acusações e dizem que foram vítimas de um “ataque político”. Desde então, a controversa família indiana próxima de Jacob Zuma encerrou todas as suas actividades comerciais na África do Sul nos sectores da mineração, comunicação social e tecnologia.

 No relatório submetido à comissão de inquérito, Peter Hain menciona que os Gupta residem actualmente no Dubai e exorta as autoridades dos Emirados Árabes Unidos a extraditá-los para a África do Sul para que sejam interrogados sobre as alegações de corrupção.