Pastor Hermanus Taute foi no passado, quando pastor da Igreja Reformada Portuguesa, intérprete de Inglês e Afrikaanse para Português, em cerimónias oficiais de Pretória

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 Divulgando figuras de outras nacionalidades que pelo seu envolvimento na comunidade portuguesa, não só restrito ao sector em que se envolveram, mas sobretudo no carinho, es-tima e respeito pelos portu-gueses que com eles lidaram ou conviveram, e como tal, passados tantos anos continuam a ser recordados com amizade, que escolhemos para esta crónica um sul-africano considerado de verdadeiro “gentleman”.

 É ele Hermanus Taute que em 1983 e anos que se lhes seguiram foi pastor na igreja reformada portuguesa, em Rose-Etta Street, de Pretória West, funções que enquanto ali permaneceu desempenhou com grande entusiasmo e enorme dedicação, daí ainda hoje ser recordado com estima e consideração pelos que nessa época frequentavam esse templo, ou a qualquer outro propósito com ele lidaram.

 Mais conhecido por Mannie, natural de Kroonstad, onde nasceu a 15 de Novembro de 1955, após ter terminado o serviço militar, que cumpriu como capelão no Batalhão número 32, denominado “Búfalo”, na altura integrado em grande parte por angolanos, que após os acontecimentos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, e deu lugar à chamada descolonização exemplar operada nos territórios, até aí sob administração portuguesa, para fugir ao terror, se refugiaram na África do Sul.

 Sul-africano de nacionalidade, Mannie Taute estudou na universidade de Potchefs-troom, onde concluiu o bacharelato em Grego/Hebraico e Psicologia, que lhe deu o acesso à Faculdade de Teologia, que frequentou de 1977 a 1980, em Pretória.

 Dedicando-se ao estudo da língua portuguesa, quando em 1976 cursava na cidade de Potchefstroom, em cujo estabelecimento de ensino superior leccionava Luís Leal e, posteriormente na UNISA, onde então aí davam aulas as professoras Elizabete Camacho e Ana Low.

 A sua expressão em português tornou-se tão vasta, que nos anos em que foi pastor na  Igreja Reformada Portuguesa, por ocasião das celebrações do Dia da República da África do Sul, então comemorado a 31 de Maio, serviu de intérprete nos discursos proferidos em afrikaanse pelo Mayor de Pretória, Heunis, no cemitério dos Heróis, e em inglês pela dra. Rina Venter, esta em re-presentação ministerial, no Pioneer Park, e dada a presença nessas cerimónias de significativo número de portugueses, traduziu para o nosso idioma.

 Casado com Annelie Lupping Taute, professora, natural de Vanderbijlpark, este pastor es-tendeu a sua acção às áreas de Witbank, Kriel, Nelspruit, Tzaneen, Britz e Pietersburg, hoje Polokoane, localidades a que periodicamente se deslocava, para ali dirigir reuniões de estudo bíblico e visitas pastorais aos seus membros, na sua esmagadora maioria de origem portuguesa, radicados nessas áreas.

 Nas suas impressões sobre a nossa comunidade, sempre que para tal lhe era pedida essa opinião, Hermanus Taute referia sempre, que o facto de com ela trabalhar directamente, era para si uma experiência agradável, em especial no que dizia respeito a hospitalidade e dedicação ao trabalho com que contribuía para o desenvolvimento deste país, adiantando por outro lado:

 Embora o povo lusíada tenha fortes sentimentos religiosos, verificava ter poucos conhecimentos bíblicos, e grande parte pouco relacionados com Cristo, afirmando a este res-peito:

 “O nosso trabalho está na base de estimular o português para uma maior aproximação com o Pai Celeste, na sua vida ou lida diária, uma vez que só Cristo nos poderá salvar dos erros cometidos. Está provado que a vida no seu quotidiano, desde que se entregue ao Senhor, se torna mais significativa e alegre, com esperança na eternidade”.

 Nos contactos que estabelecia, não só com os que nessa altura frequentavam a igreja reformada de que era pastor, como outros de diferentes convicções religiosas, Manie Taute deixava em cada um deles, pela maneira simples e honesta como se expressava, ouvia e aconselhava, um amigo, daí deixar saudades a muitos que ainda hoje, depois de tantos anos passados o recordam como pessoa íntegra, honesta e humilde que tive-ram a felicidade de conhecer e dificilmente poderão esquecer.

 Durante os anos em que Mannie Taute serviu naquela igreja reformada, os membros que a ela pertenciam, participaram em sucessivos anos nos festivais jacarandá, que então decorreram anualmente em Pretoria, mais propriamente no bairro de Sunnyside, neles participando Misses e Mini-Misses jacarandá, bandas da polícia e do exército, escolas do ensino primário e secundário, grupos de dança e outros, tendo no cortejo alegórico de 1986, esta igreja reformada participado a convite da organização que reconhe-cia mérito na comunidade lusa, com miniatura da caravela Bartolomeu Dias, sido premiada com R500, valor atribuído à melhor decoração, originalidade e apresentação.

  Nestes mesmos festivais onde normalmente actuava o nosso consagrado artista Manuel Escórcio, a igreja reformada a que nos referimos, participou em anos sucessivos nos certames com pavilhão onde eram vendidos os variados petiscos tradicionais da nossa gastronomia, diga-se sempre muito procurados, num deles a simbolizar o castelo de Santa Maria da Feira, onde a bandeira portuguesa assinalava condignamente a presença da nossa comunidade.

 Recorda-se que nessa altura faziam parte do conselho desta igreja reformada, como anciãos, Artur Gomes Franco, Manuel Reis, Carlos Franco, Luís Martins, Mário Rocha, Victor Cardoso, Manuel Teixeira, José Torres e Raimundo Dias, e como diáconos, José Alfredo, Nelson Ferreira, José Sá, Luís Abrunhosa e Amílcar Teixeira.

 Presentemente o nome de Igreja Reformada Portuguesa continua ali patente, tal como quando em 1980 foi inaugurada, só que as instalações são agora utilizadas para outra actividade.

 Quanto ao que ultimamente soubemos desta Igreja Reformada Portuguesa, onde na parede que dá entrada para o recinto, continua destacado a designação com que foi inaugurada, enquanto em placard lateral à esquerda é indicado o nome de Dominion Life City Church, ao que parece também já desactualizado, a indicar os seguintes horários de funcionamento:

 Sandays prayer 7:00 – 8:30 AM; service 9:00 – 12:00 AM. Thursday, prayer 5:30 – 7:00 PM.    

 Na nossa recente deslocação ao local, soubemos ali que depois do falecimento em Setembro de 2011 do pastor Joaquim Valadas, tudo se foi transformando, ao ponto de na actualidade, parte das instalações a funcionarem como escola, onde são dadas aulas, certamente pela idade que aparentam, de instrução primária a crianças sul-africanas daquela zona ou áreas contíguas, nada nos falando agora do motivo para que o complexo foi construído de raiz, a par do aspecto algo degradado que com o andar dos tempos agora apresenta.

 No pequeno resumo ao historial desta igreja diremos, que com o afluxo dos refugiados nossos compatriotas vindos de Angola e Moçambique, a seguir à revolução dos cravos em Portugal, a secção portuguesa que se havia separado da congregação Andrew Murray em 21 de Junho de 1970 para formar a sua própria igreja, a Reformada Portuguesa, núcleo agregado à “N.G.Kerk”, viria a adquirir da Câmara Municipal de Pretória, em Fevereiro de 1974, o terreno para edificação do templo pela quantia de R12.000.00, importância paga na totalidade pelos membros portugueses.

 O conselho baseado no projecto que o arquitecto Paul Duplessis em determinada altura elaborou e ofereceu à igreja, aprova a cotação da firma “Mono Konstruksies”, para a edificação do complexo (igreja e casa pastoral), no valor de R-131.750,00, tendo o custo final, incluindo móveis e acabamento do terreno, rondado os R.160.000.00.

 Finalmente, a 14 de Setembro de 1980, com a presença de várias entidades, civis, religiosas e militares, destacando-se em representação da comunidade portuguesa, o vice-consul de Portugal, em Pretória, Mário Silva, é inaugurada a igreja e suas dependências, diremos com uma festa muito digna, e pelas actividades a assinalar esse feito, a dignificarem a comunidade portuguesa, que a avaliar pelas referências que nesse dia ali ouvimos, deve ter ganho pontos.

 Nessa altura eram ali pastores Petrus Arnaldus Pienaar, Mário Augusto Alves e Samuel de Oliveira Coelho; anciãos Artur Gomes Franco, Carlos Franco, Manuel Fernandes Pisco, António Monteiro dos Santos, Manuel Francisco Ferreira Reis, Manuel Mira Raposo, Ernesto de Almeida, Orlando Jorge e António de Almeida Lourosa; e diáconos, Arménio da Silva Carvalheiro, António Pedro Mendes, Paulo Jorge Grova da Saúde, Óscar Manuel Camacho Martins, Vitor Manuel Cardoso, Joaquim Mira Raposo, Mário Alberto da Costa Neves Rocha, Leonel Pedro Cardoso e Manuel Ribeiro da Silva.

 Na ocasião as congregações portuguesas nesta ideologia religiosa concentravam-se em Pretoria, Joanesburgo, Vanderbijlpark e Parow na Cidade do Cabo, sendo a da capital do país, com os cerca de 300 membros, e dispondo de amplas e modernas instalações, apontada como principal, onde anteriormente a “N.G.Kerk”, havia iniciado o seu trabalho no seio da comunidade portuguesa.

 Sem de maneira nenhuma tirar o mérito aos restantes elementos que a constituíam, onde todos na medida das suas possibilidades colaboraram, muito contribuiu para a grandeza do património dessa Igreja Reformada, Artur Go-mes Franco, figura de prestígio e fé inabalável, bem conhecida da comunidade, pelas suas qualidades mais tarde eleito presidente da direcção da então Associação da Colónia Portuguesa, hoje Associação da Comunidade Portuguesa de Pretoria, considerada casa-mãe das colectividades lusas na capital sul-africana.

 “Na ocasião, e como todos os presentes puderam ouvir na igreja, por intermédio de quem a representava, dando graças a Deus por ter no seu seio um membro daquela en-vergadura, isto referindo-se a Artur Gomes Franco, respondia mais tarde o elogiado, considerando pela sua simplicidade todos os auxílios prestados, como recompensa à maneira como o Pai Divino o vinha ajudando”.  

 Recorda-se que por intermédio do pastor Pienaar, esta igreja Reformada Portuguesa, ofereceu em tempos à Associação da Colónia Portuguesa de Pretoria, como então era designada, um donativo de mil randes destinado a apoiar a escola de português que vinha funcionando na ACPP, por aqui se vendo o empenho e espírito de colaboração en-tão demonstrado no apoio à língua de Camões.

 Certamente que ao passarem hoje pelo local pessoas que na altura estiveram directamente envolvidas na edificação do complexo e projecção desta igreja, devem sentir com alguma emoção, o rumo dado na actualidade ao conjunto de instalações que com carinho e sacrifício ajudaram a construir e por elas tanto se debateram.