Passageiros do último voo da TAP lamentam fim das ligações com a Guiné-Bissau

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Passageiros do último voo da TAP lamentam fim das ligações com a Guiné-Bissau

Os passageiros que se preparavam no último dia do ano para embarcar para Dacar, de onde depois apanharam o voo da TAP para Portugal, lamentaram que aquele fosse o derradeiro voo da companhia aérea portuguesa para a Guiné-Bissau.

Habitualmente os voos da TAP, tanto na chegada como na partida, costumavam a originar azáfama no aeroporto de Bissau, mas na última madrugada do ano, a agência Lusa pode testemunhar um clima de desalento com passageiros a não esconderem o desagrado pela situação.

 Entre os passageiros destacaram-se as vozes críticas dos jovens que vivem em Portugal ou na Inglaterra e que tinham ido ao país passar as festas do Natal e do final do ano, mas que, “às pressas”, são obrigados a voltar.

 "Vim ao meu país, depois de 16 anos sem passar o Natal com os meus pais e irmãos, mas quando estava a contar passar o «revellion» com eles, eis que fui chamada rapidamente para regressar", contou a passageira, Solange Reis, que vive na Inglaterra.

 Ao lado e aos berros para que os "senhores da política possam ouvir", um outro jovem que não se quis identificar dizia que os "políticos guineen-ses são uns irresponsáveis" por terem, disse, "cortado com a TAP".

 "Nem sequer fazem ideia dos transtornos que isso nos vai causar", destacou o jovem, que disse viver na Escócia de onde partiu há duas semanas com esperança de "curtir Bis-sau" durante três semanas.

 Mais contida estava a jovem Janaina Vaz Turpin, que defendeu que as autoridades dos dois países deviam tentar chegar a um entendimento sobre os voos da TAP para a Guiné-Bissau, por ser, afirmou, uma companhia que "dá garantias de segurança" aos guineenses.

 "O que se passou não foi correcto. Mas já aconteceu. O povo está a sofrer com as consequências, quando no fundo não tem culpa. Devem considerar um bocado. No fundo, o povo guineense também precisa da TAP", observou Vaz Turpin, estudante em Lisboa.

 Não são apenas os passageiros que lamentam o fim dos voos de ligação da companhia aérea portuguesa entre Lisboa e Bissau.

 Pago Fernandes, responsá-vel de uma conhecida agência de transporte de encomendas disse que sem a TAP "vai ser o fim do mundo".

 "Nem quero pensar no que vai ser de muita gente aqui no país e mesmo lá em Portugal ", enfatizou Fernandes, lembrando que nas outras companhias que voam para Bissau é regra perderem-se as encomendas.

 "Uma pessoa vai ao aeroporto de Portela ou vem aqui e manda uma encomenda, di-nheiro, comida, e da outra parte a encomenda chega ao destinatário passados quatro horas, agora sem a TAP vai ser o fim do mundo", sublinhou Pago Fernandes.

 Por ser sido forçado por um membro do Governo guineense a transportar 74 sírios com passaportes falsos a TAP decidiu cancelar e agora en-cerrar os voos de ligação para a Guiné-Bissau.

 

* Presidente da Guiné- Bissau diz que  “incidente com a TAP” deteriorou imagem externa do país

 

 O presidente de transição da Guiné-Bissau, Serifo Nhamadjo, confirmou, no seu discurso à Nação de fim do ano, que o "incidente com a TAP" deteriorou a imagem externa do país.

 Além de prejudicar a imagem do país, Serifo Nhamadjo afirmou que a passagem dos cidadãos sírios pela Guiné-Bissau, de onde partiram para Portugal e onde acabariam por pedir asilo político complicou também as relações com Portugal.

 "É verdade que o incidente da passagem por Bissau, a caminho de Lisboa, de 74 cidadãos sírios veio acrescer mais uma acha nas já deficitárias relações entre o nosso país e Portugal", disse Nhamadjo.

 No passado dia 10 deste mês 74 sírios, entre adultos e crianças, embarcaram à força no aeroporto de Bissau, depois de pressões à tripulação da TAP, por parte do ministro guineense do Interior, para Portugal sob alegação de constituírem perigo para a segurança interna da Guiné-Bissau.

 Para o presidente de transição, o incidente complicou as relações com Portugal, afectou a imagem externa da Guiné-Bissau e ainda "lesa a dignidade dos guineenses".

 Nhamadjo diz, contudo, que aguarda pelo posicionamento da Justiça e do primeiro-mi-nistro, Rui de Barros, para de-pois tomar uma decisão.

 "Como é do conhecimento público tanto o ministro dos Negócios Estrangeiros, que tutela as embaixadas, como o ministro do Interior, que tutela as migrações, colocaram os seus lugares à disposição do chefe do Governo", lembrou Nhamadjo.

 Perante este e outros factos invocados no discurso de fim do ano, o presidente guine-ense questionou os seus concidadãos sobre os caminhos a tomar para o novo ano.

 Para Nhamadjo só resta aos guineenses trabalharem para que o país possa retomar a normalidade constitucionalmente interrompida com o golpe de Estado militar de Abril de 2012.

Nhamadjo instou os guine-enses a continuarem "com a mesma determinação", empenho e "capacidade de sofrimento", mas mantendo sempre a coesão na diversidade.

 "Devemos levar a cabo aquilo que a Nação e toda a comunidade internacional espera de nós, a realização de eleições gerais (…) bem como a criação de condições para um efetivo retorno à normalidade constitucional", observou o presidente guineense.

 As eleições gerais (legislativas e presidenciais) estão marcadas para 16 de Março.