Os que nasceram antes de 2009? Estamos todos chumbados!

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Os que nasceram antes de 2009? Estamos todos chumbados!

Na Quarta-feira, 11 de Março de 2015, li uma notícia que me deixou perplexo. Por dentro, eu espumava enfurecido qual lunático à porta do Hospital Júlio de Matos! A culpa de tal estado de alma foi a manchete do Diário de Notícias de Lisboa do mesmo dia, que lia o seguinte: “Acordo Ortográfico. Erros nos exames cortam 25% da nota”. Ora, isto é aberrante! Eu que fui estudante e não há tanto tempo assim, sei o quão importante são as notas dos Exames Nacionais no acesso ao Ensino Superior. 25%, até 5 valores em 20, por erros ortográficos? Ora por estes 5 pode-se ver o acesso negado ao curso que se pretende! A nota de acesso à Universidade é feita da média da nota da disciplina e do exame nacional.

 Estou incrédulo no que respeita a isto! Não estou de modo nenhum a desculpar os erros de ortografia, mas neste caso não fazem sentido. Faz tanto sentido culpar os alunos de hoje por erros de uma grafia que não é a deles, como culpar os marcianos pela construção de Nkandla.

 Se começassem em 2021 a avaliar os alunos na nova grafia eu aceitava, porque começaram na escola pri-mária a aprender a ler e a escrever de acordo com o novo Acordo Ortográfico (AO) e fizeram toda a escolaridade obrigatória debaixo deste novo AO. Assim, uma coisa que foi ratificada em 2009 não deveria abranger alunos anteriores a esse ano e nos exames e provas de avaliação deveria figurar a grafia antiga. Penso que seja lógico, mas como a legislação é feita e as decisões são tomadas por pessoas divorciadas da realidade, seja qual for a cor partidária que tenham, fica sempre tudo mal-amanhado.

Veja-se os E-tolls aqui na África do Sul. Suas Incompetências andam com as brigadas de luzes azuis e cheira-me que não deverão pagar as facturas. Lá está, uns são filhos, outros são enteados! Muitos são os que esbracejam e condenam o AO sem saber bem o porquê. Acusam o actual Executivo de coisas que nem tem culpa.

 A decisão de haver uma normalização da língua partiu de uma ideia tomada em 1990. No sítio da Internet, www.portaldalinguaportuguesa.org está escrito o seguinte e cito “Consideran-do que o projecto de texto de ortografia unificada de Língua Portuguesa aprovado em Lisboa, em 12 de Outubro de 1990, pela Academia das Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, com a ade-são da delegação de observadores da Galiza, constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da Língua Portuguesa e para o seu prestígio internacional”, pois muito bonito. Isto trocado por miúdos, se fazem favor! O que custa mais é o facto de isto não ter sido referendado.

 Numa conferência de imprensa recente, com Clara Ferreira Alves, que esteve cá para dar uma palestra sobre Luís de Camões e Fernando Pessoa a propósito de um ciclo de conferências da Universidade Wits, afirmou que são os fundadores da Língua Portuguesa Moderna. Até aí tudo certinho. Mas e o AO?

 Respondeu-me que numa legislação complexa…e de-pois não me lembro de mais nada, porque estava a bradar por dentro! Então uma legislação complexa como a despenalização do aborto em Portugal foi referendada e uma coisa que mexe com o povo, a língua, não o é?

 Clara Alves falou na sua pa-lestra que a Língua, bem como, os Costumes fazem parte da Cultura e da Iden-tidade de um povo. Então não nos mexam na identidade. Pelo amor da Santa! Eu já falei sobre isto noutras conversas, então os Ingle-ses inventam a língua de Shakespeare, os America-nos bastardeiam-na. Há AO inglês? Não! As ex-colónias, agora membros da Commonwealth, escrevem Inglês como no Reino-Unido. Thru? Donut? Aluminum? Não! Through, Doughnut e Aluminium.

 A haver um AO português teriam que se fazer vários referendos para saber como é que o povo quereria escrever. Um em Portugal, um no Brasil e outros em An-gola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Macau. E mais, agora toco no ponto que nos afecta a todos caro leitor. Nós emigrantes! Nin-guém quer saber de nós, os 5 ou 6 milhões de Tugas cá fora. Seria o mesmo que mudar a bandeira ou o hino.

 O Português é um símbolo nacional, a sequer pensar alterar uma vírgula tem que se fazer ouvir a opinião de todos os Portugueses. Não é à revelia de ninguém! Se-ria bom? Seria. A circulação de livros de autores, livros de escola, publicações de Comunicação Social e tudo que tem a ver com a língua Lusa. Mas seria sempre em Português de Portugal. Afinal de contas não fomos nós que inventámos a língua? Não fomos nós que a levamos nas caravelas e naus? Ou querem escamotear isso também? A oralidade, os sotaques isso é natural, mas também é por isso que existem níveis da língua – o Erudito, o Formal, o Corrente (o que as pessoas falam) e o Arcaico (incluído está aqui também o calão).

 Agora aproximar a escrita da oralidade? Ficamos com um idioma abandalhado. Nós dizemos em Portugal desporto, no Brasil dizem esporte. Nós dizemos autocarro, na Terra de Vera Cruz é ónibus e em Moçambique é o machimbombo! Correctíssimo. Não faz sentido dizer machimbombo em Macau ou em Lisboa, muito menos escrevê-lo. E sei que não é esse o objectivo.

 Outro exemplo é hormonas que no Brasil é dito e escrito como hormônios. Lamento mas sou contra. Muitas pessoas vêm com a léria de que faz sentido porque no antigamente escrevíamos Pharmácia e agora é Farmácia. Escrevíamos Cintra e agora é Sintra. Thiago deixou cair o h. No livro “As Cidades e as Serras”, de Eça de Queirós, escrevia-se em 1901 villa e collina e aquelle, por exemplo. Depois passou a vila, colina e aquele.

 Simplificou-se a grafia ao deixar cair o supérfluo da palavra, mas a fonética manteve-se igual apesar de anteriormente se escrever Jacintho. Tal como Luíz era assim e hoje grafa-se com s. Mas o que agora se quer impôr é uma infantilização da língua. Ação em vez de acção, direto em vez de directo e perceção em vez percepção. Eu não gosto. Sinto-me, mais do que magoado e ofendido, lesado porque estão a mexer com a minha identidade. Aquilo que me define enquanto Português! Repito, a haver AO é segundo a Língua de Camões. Não é porque há mais habitantes num lugar do que noutro que faz deles melhores, ter mais razão ou mais força. A Língua Portuguesa é nossa, pertence-nos!

 O Director deste Jornal escreveu, no Editorial de 24 de Novembro de 2014, o “Desacordo ortográfico” e termino citando “Sem entrarmos pelo caminho dos abaixo-assinados, aqui no Século de Joanesburgo também nos sobra liberdade de não concordar com o Acordo”. Por favor, revertam esta tontice do Acordo Ortográfico, ou estamos todos chumbados daqui para a frente!

Por Michael Gillbee