Os conceitos a que um presidente de Colectividade está sujeito

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Enquanto no passado o lugar de presidente nas nossas colectividades era bastante disputado, chegando-se a fazer campanhas para o desempenhar, ao contrário hoje em assembleias gerais paras eleição de novos corpos directivos dos nossos clubes nota-se, salva raras excepções, o afastamento dos associados, para assim evitarem ser votados ou escolhidos para cúpulas directivas, desculpando-se sempre os que lá vão, caso a escolha recaia na sua pessoa, não o permitir a sua actividade profissional ou empresarial, estar nos seus planos regressar brevemente a Portugal, ou estar na contingência de pela firma onde trabalha, ser transferido para outra localidade, tornando-se por isso cada vez mais difícil arranjar quem as possa dirigir, face às acusações a que fica sujeito.

 Por outro lado, e esse conceito já vir de longe, por mais que um líder se sacrifique para conseguir que a agremiação que lidera prossiga com algum progresso, sabe-se lá com que sacrifício, não se livra de acusações menos abonatórias, como algumas das que aqui deixamos, a começar pela de simples sócio, por aqui se vendo o conceito que na generalidade se faz ao movimento associativo:

 Se não é sócio, é porque é forreta, não interessa, não dá nada a ninguém;

 Se é sócio e não tiver sido director, não é um bom associado, e reconhecida a sua nulidade;

 Se é director mas não chega a presidente, é porque lhe falta coragem e tem medo de dirigir o clube;

 Se chega a presidente e não faz um bom trabalho, não tem habilidade, era melhor não ter aceite o lugar, é “persona não grata”;

 Se faz um bom trabalho e não quer continuar, é porque se julga de pessoa importante e espera que lhe implorem para o demover da decisão, não se livrando de ser apontado de sínico;

 Se quer continuar é porque não quer largar o tacho e sair do poleiro;

 Se faz uma festa e não deixou lucro, é porque o presidente não a soube organizar;

 Se a festa deixou bom lucro, é porque o presidente andou de porta em porta a convidar as pessoas e a vender rifas para se elevar;

 Se o presidente não usa gravata é feio, porque nem sabe representar o clube;

 Se o presidente usa gravata é para dar nas vistas e deseja ser comendador;

 Se falta comida numa festa, a culpa é do presidente por não saber fazer cálculos;

 Se sobra comida numa festa, é porque o presidente a quer levar para sua casa;

 Se o presidente anda de carro velho, não é carro para a categoria de presidente;

 Se o presidente compra carro novo, é porque se abotoou com o dinheiro do clube;

 Se o presidente faz muitas festas, é porque quer sugar o dinheiro aos sócios;

 Se ao contrário faz poucas festas, é apelidado de como-dista, não quer ter trabalho;

 Se o presidente é popular e fala com todos, é porque não se sabe impor, ou deseja agradar a fim de voltar a ser reeleito para novo mandato;

 Se ao contrário não fala, é porque é imperialista ou já se julga importante.

 São estes conceitos, ditos e mexericos que lavam muitas pessoas válidas a afastarem-se cada vez mais dos nossos clubes, especialmente de funções directivas, a fim de evitar ser medidos pela mesma bitola, tantos que pela sua competência fariam um bom trabalho, mas para não passarem por fama contrária ao seu carácter e dignidade, muito menos competência, fogem a essas polémicas que só lhes trariam aborrecimentos e dores de cabeça.

 Foi é e será sempre assim, porque infelizmente está na nossa mentalidade criticar, disso pagando inocentemente tanta gentinha que não merecia de maneira nenhuma esse rótulo, muito menos beliscada a sua dignidade, e para não estarem sujeitas a essas descabidas críticas, afastam-se simplesmente dessas polémicas, e como pessoas íntegras continuarem por outro lado, pela sua competência e honestidade a contribuir para o prestígio e bom nome com que felizmente a nossa comunidade é tida na África do Sul.

 E porque como se diz em ditado antigo “santos da terra não fazem milagres”, valha-nos ao menos o conceito com que continuamos a ser vistos e avaliados neste país de acolhimento, razão porque temos algum valor, e das duas uma:  Ou não damos valor àquilo que é nosso e devemos apoiar, ou por inveja não queremos que outros mediante a sua competência nos possam ultrapassar, muito menos impor na sociedade em que vivemos.

Vicente Dias