Olhando por Joanesburgo

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Olhando por Joanesburgo

Olhando por JoanesburgoJoanesburgo cresceu nos últimos anos a um ritmo muito elevado e nem todas as infraestruturas acompanharam esse crescimento. É claro que, quando há falta de planeamento adequado por parte das entidades responsáveis pelo fornecimento desses serviços, situações de ruptura são inevitáveis.

Já aconteceu com o racionamento da energia eléctrica – com reflexos negativos incalculáveis na economia, havendo ainda o risco do problema se repetir até à entrada em funcionamento das novas centrais termo-eléctricas em construção -, parece que não vai suceder com a água – sector em que foi antecipado um programa de reforço e expansão da rede -, mas o mesmo não se pode dizer da rede rodoviária da cidade que, esgotada pelo aumento do tráfego, viveu a fase do caos.

  Foi esse caos no trânsito que obrigou a entidade que regula a rede nacional de estradas e as autoridades municipais e provinciais – que, por vezes, não sabem muito bem coordenar as acções nas áreas das suas competências – a encontrar soluções. Os estudos feitos levaram à conclusão que seriam necessários 23 biliões de randes – a derrapagem nos custos já se tornou mais do que evidente – para alargar as actuais auto-estradas, onde isso fosse possível, e construir na área metropolitana de Joanesburgo novas estradas circundantes para descongestionar o trânsito.
  As obras arrastaram-se para além dos prazos admissíveis, com enormes sacrifícios para os automobilistas os quais, à excepção dos indisciplinados motoristas dos táxis, aceitaram a lenta evolução dos trabalhos com muita paciência. Aliás, uma paciência nem sempre cor-respondida pelos responsáveis das empreitadas, já que em muitos troços importantes de estrada, onde a produtividade laboral roçou o zero por semanas a fio, as obras não progrediram com a rapidez que seria exigível.

  Ainda hoje isso acontece com pequenos trabalhos de acabamentos, onde os trabalhadores se arrastam e fazem cortes de faixas de trânsito, sem grande lógica e a provocar engarrafamentos desnecessários. Já alguém fez cálculos aos custos de um engarrafamento em horas de ponta e ao seu peso na economia do país?

  Por resolver está ainda o problema das portagens. E que problema!
  E como estarão os níveis de poluição na Grande Joanesburgo?
  Mais cinzenta e menos verde, esta é a nova cidade que estamos a ver crescer porque, até há bem pouco tempo, uma das principais características da área metropolitana de Joanesburgo era a de uma região fisica e ambientalmente bem estruturada com a existência de espaços verdes nas suas zonas residenciais e as moradias a ocuparem uma superfície muito inferior à área arborizada de cada propriedade.

  Ano após ano, a cidade tem perdido as suas vivendas rodeadas de grandes jardins, através da subdivisão dos lotes originais e, hoje, a reestruturação operada no tecido social, o crescimento populacional e o desenvolvimento urbano estão a dar lugar – apesar de um certo abrandamento verificado nos últimos meses, devido à crise e às restrições impostas no acesso ao crédito bancário –  à rentabilização imobiliária de todo o metro quadrado, com o sacrifício quase total dos espaços verdes. O cimento avança, tanto faz a sul como a norte, sobre antigas explorações agrícolas ou vastos terrenos ocupados por velhas savanas nos subúrbios, agora altamente valorizados pelo mercado, deixando como paisagem os telhados quase contínuos de imensos condomínios fechados. Árvores, nem vê-las. E a sua presença seria afirmação bastante para transmitir ao povo da cidade que o desenvolvimento não precisa de ser depredador do ambiente.

  Com efeito, como urbe cada vez mais urbanizada, Joanesburgo tem vindo a perder o mosaico diversificado de paisagem de grande beleza que possuía há alguns anos.
  Na realidade, ao ritmo a que tudo se processa, a construção civil, garantindo, apesar de um acentuado arrefecimento da economia, um elevado número de postos de trabalho, deve ser, ainda assim, o sector da actividade económica deste País que regista maiores índices de produtividade. Mas produtividade não significa qualidade e a ausência desta em muitas das obras em curso, quase que dispensada nas fundações e estruturas dos imóveis pelo baixo nível de risco sísmico da região, vai dar origem necessariamente, dentro de poucos anos, ao aparecimento de inúmeras empresas especializadas na reparação e manutenção de habitações.

  Por outro lado, como não é possível ter qualidade de vida sem espaços verdes nos meios urbanos, fica-nos a esperança de a Câmara, sensibilizados que forem os vereadores para essa necessidade, continuar a preservar os parques municipais.
  Mais dois problemas devem merecer a atenção e o debate urgente por parte dos vereadores: a poluição provocada na cidade pelas nuvens de poeira oriundas das montanhas formadas há décadas pela acumulação dos desperdícios das minas de ouro, actualmente em fase de reciclagem, e a forma irregular e pouco profissional como estão construídas as lombas nas ruas onde a Câmara “entendeu” reduzir a velocidade do tráfego rodoviário.

  Embora tenham sido colocadas com o objectivo de travar os instintos dos “aceleras”, as lombas constituem, acima de tudo, uma penalização injusta para os automobilistas que conduzem com civismo. Algumas surgem em pontos de localização discutível – a poucos metros, por exemplo, de um cruzamento com paragem obrigatória ou próximo de uma curva, já de si implicando o abrandamento de velocidade – levando a admitir que a sua proliferação terá sido fruto de qualquer “negociata” entre os serviços autárquicos que as mandam construir e as empresas privilegiadas com tais empreitadas.

  Mas a questão que se coloca – para além de se continuar a questionar a sua necessidade, tanto mais que o constante aumento dos fluxos de tráfego rodoviário obriga a uma condução de baixa velocidade – é o formato das lombas, cada qual construída com a sua configuração. Umas mais altas, outras mais baixas, umas mais extensas, outras mais curtas.
Será que o departamento de obras públicas não possui especificações que normalizem a sua construção? Algumas são apenas um monte de alcatrão a evidenciar a falta de qualidade profissional de quem as construíu, a contrastar com o “peso” da factura.

  Portanto, neste capítulo, há que inspeccionar o que está construído e, por outro lado, normalizar o formato das lombas que obstaculizam a fluidez de tráfego nas ruas da área metropolitana de Joanesburgo. Por mim, seriam todas demolidas.

  Outro ponto a merecer legislação apropriada é a redução da poluição que invade a cidade em dias altamente ventosos e resultante das operações de reciclagem das montanhas auríferas. Nestas semanas, que precedem a fase de polinização da Primavera, as densas nuvens de poeira que dominam a atmosfera da cidade causam problemas no aparelho respiratório dos seus cidadãos, nomeadamente aos mais idosos. Haverá, concerteza, através de soluções técnicas, a possibilidade de melhorar a qualidade do ar, reduzindo a poluição vinda das minas.
  Têm a palavra os vereadores.
R. VARELA AFONSO