O perigo de ser vítima da causa dos outros

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O perigo de ser vítima da causa dos outros

A tragédia abateu-se sobre Paris mas o problema atinge toda a humanidade. Como é que meia dúzia de loucos e uma dúzia de metralhadoras colocam um país como a França em estado de emergência? Porque isto, mais do que uma guerra, é uma guerrilha.

  O foco do radicalismo situa-se no Médio Oriente, o recrutamento de apoiantes para a implantação de califados, sendo eles aderentes convictos ou puros mercená-rios, passa pelas redes sociais e os alvos das operações suicidas são países que combatem militarmente o jihadismo. Às operações, que visam uma alegada vingança e o mediatismo para a existência da causa, é alheia a inocência  das vítimas, tendo os operacionais bombistas instruções para que o número de mortes seja o maior possível antes da sua auto-destruição.

  O mais recente atentado planeado pelo califado ocorreu na passada sexta-feira, dia 13 de novembro, na capital francesa, dele tendo resultado já 129 mortos  – entre eles dois portugueses – e 352 feridos, 99 dos quais em estado grave. Oito  bárbaros, que actuaram em três equipas coordena-das, desencadearam na cidade de Paris pouco depois das 21 horas seis ataques, quase simultâneos, o primeiro dos quais junto do Estádio de França, onde decorria o jogo amigável entre as selecções da França e da Alemanha, com a presença do presidente francês François Hollande, que viria a ser evacuado discretamente do local para não criar o pânico entre a assistência.

  O anterior ataque tinha ocorrido quinta-feira num bastião do grupo xiita libanês Hezbollah, nos subúrbios da zona sul de Beirute, num duplo atentado que fez 41 mortos e 200 feridos. Ali, o chamado Estado Islâmico fez detonar uma motorizada armadilhada junto de uma reunião de xiitas em Burch al-Barachne para, depois de uma multidão acorrer ao local para socorrer as vítimas, outro dos combatentes ter feito detonar um cinto de explosivos no meio do grupo. Estes ataques foram uma vingança contra a decisão do Hezbollah de enviar milhares de combatentes para a vizinha Síria para apoiar no terreno as forças do presidente Bashar al-Assad contra a rebelião dominada pelos sunitas.

  No caso da França, embora o governo de Hollande não apoie al-Assad e até tenha feito tudo para conseguir o seu derrube do poder, a Força Aérea tem desencadeado na Síria bombardeamentos a bases jihadistas, que têm sido igualmente alvo das bombas lançadas, em operações independentes, por aviões militares da Rússia, país aliado do presidente sírio, e agora também dos Estados Unidos.

  Os Estados Unidos já aumentaram o seu estado de alerta, isto depois dos atentados de Paris e do braço egípcio da organização jihadista Estado Islâmico ter assumido a responsabilidade pela queda do avião da companhia russa MetroJet, acidente que vitimou 224 pessoas no passado dia 31 de Outubro. O avião, que fazia a ligação entre o centro turístico egípcio de Sharm el-Sheikh e a cidade russa de São Petersburgo, despenhou-se no Sinai poucos minutos depois de ter levantado voo, suspeitando-se do rebentamento de um engenho explosivo a bordo.

  Esta sequência de atentados sangrentos levaram as grandes potências a concluir por uma acção concertada  que passa pelo mal menor de apoiar o presidente da Síria a recuperar a soberania sobre a área controlada pelos jihadistas entre aquele país e o Iraque e que corresponde a uma superfície idêntica à da Grã-Bretanha.

 Desapossados da terra, os jihadistas ficarão também sem a receita das vendas de petróleo roubado dos poços sírios e que lhes rende no mercado negro mais de dez milhões de dólares por mês. Quem o compra barato é que não estará muito in-teressado que esta guerra acabe!

  Na semana passada, os jihadistas enfrentaram duas pesadas derrotas no terreno. Na Síria, forças leais a Assad quebraram o cerco à base aérea de Kweyris. No Iraque, as forças curdas reconquistaram a cidade de Sinjar, que o Estado Islâmico tinha tomado há mais de um ano.

  Paralelamente, as autoridades têm que se debruçar, através de uma maior coope-ração na troca de informações, sobre a vertente do mercenarismo. Esta conclusão deriva do que tem sido apurado na investigação relativa aos recentes atentados.

  Um primeiro atacante já foi identificado. Um passaporte sírio foi encontrado junto de um dos corpos dos terroristas que deflagaram bombas junto das portas do Estádio de França, onde se disputava o jogo amigável entre a França e a Alemanha. O dono do passaporte era um jovem que tinha entrado na União Europeia a 3 de outubro depois de ter chegado à ilha grega de Leros numa pequena embarcação ida da Turquia e que transportava um grupo de 69 refugiados.  A ilha de Leros tem sido uma das principais portas de entrada dos refugiados sírios na União Europeia.

  Um segundo passaporte, de origem egípcia, foi encontrado no mesmo local e está a ser objecto de investigação.

  Mas nem todos os terroristas são refugiados sírios. Também foi identificado entre os bombistas atacantes da sala de espectáculos Bataclan, onde gritaram pela Síria e pelo Iraque, um cidadão francês que tinha cadastro e que se encontrava referenciado pelas autoridades policiais. Os investigadores identificaram-no pelas impressões digitais, tratando-se de um jovem natural de Courcouronnes, a cerca de 35 quilómetros de Paris, conhecido da polícia e dos serviços de informação por ligações ao jihadismo. Sete dos seus familiares já foram detidos para interrogatório.

  A “pista síria” é uma das hipóteses de trabalho dos investigadores, que estão a verificar todos os elementos recolhidos com os serviços de informações de outros países, designadamente europeus.

  Uma fonte policial salientou que os bombistas suicidas eram aparentemente “ex-perimentados e bem treinados” e testemunhas dos ataques descreveram-nos como “muito jovens e seguros de si”.

  A possibilidade de terem sido treinados e eventualmente passado algum tempo em zonas dominadas por jihadistas, nomeadamente na Síria, colocou-se rapidamente aos investigadores.

  Sabe-se que as autoridades detiveram no sábado três pessoas, uma das quais na fronteira entre França e a Bélgica. Também nos arredores de Bruxelas foram detidas três pessoas, uma das quais tinha estado em Paris, na sexta-feira à noite, altura em que se deram os ataques terroristas. As detenções foram feitas no bairro Molenbeek, ligadas a testemunhos sobre a presença de um carro de matrícula belga, nas imediações da sala Bataclan, de Paris, admitindo-se que possa tratar-se de uma viatura alugada na Bélgica.

  Mas, os atentados ainda poderiam ter causado mais vítimas. Um dos bombistas tentou entrar no Estádio de França, onde estavam cerca de 80 mil pessoas. Tinha bilhete mas, quando se preparava para entrar no recinto, foi visto com o colete de explosivos e bloqueado nos seus intentos. Segundo um segurança, o suicida activou, então, os explosivos junto a uma das entradas do estádio.

  Dois portugueses – Manuel Colaço Dias, de 63 anos, alentejano natural de Mértola, residente em França há 45 anos e industrial no ramo de transportes de turismo, e Priscila Correia, que nasceu em França em 1980 e era portadora de dupla nacionalidade -, um espanhol, uma norte-americana, três chilenos, dois belgas, dois romenos e duas tunisinas foram os estrangeiros identificados até ao momento entre os 129 mortos dos atentados. Manuel Dias faleceu na sequência das explosões junto ao Estádio e Priscila Correia foi uma das vítimas na sala de espectáculos Bataclan. Havia ainda entre os feridos quatro nomes tradicionalmente portugueses. Três deles já receberam alta hospitalar.

  Enquanto no sábado, numa declaração conjunta, os líderes da União Europeu prometeram unir esforços para enfrentar as ameaças terroristas com determinação e de forma implacável, para garantir a segurança em França, hoje na Turquia, os ataques em Paris vão certamente mudar a dinâmica das reuniões do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, nos encontros com os líderes mundiais na reunião cimeira do G-20.

  África também sentiu o drama. A presidente da União Africana, a sul-africana Nkosazana Dlamini-Zuma, manifestou-se  no chocada e profundamente consternada, com os ataques terroristas ocorridos, de forma cobarde, em Paris.

  A dirigente africana sublinhou que a UA condena veementemente os "ataques cobardes" perpetrados em Paris, que "não podem ser justificados em quaisquer circunstâncias".

  Em nome da União Africana, Nkosazana Dlamini-Zuma enviou condolências aos familiares das vítimas mortais e ao Governo francês, e votos de restabelecimento aos muitos cidadãos feridos.

  A presidente da UA manifestou ainda o apoio e solidariedade dos povos africanos para com o povo francês e o seu Governo, rejeitando todas as formas de terrorismo e extremismo.

  A responsável da UA salientou que os ataques de Paris vieram alertar para a ur-gência e a necessidade de juntar esforços internacionais no combate ao terrorismo, indicando que os Estados-membros da União  Africana estão empenhados nesse objectivo.

  Está, pois, lançado um alerta para a necessidade de encontrar um novo tipo de resposta para este novo tipo de insegurança urbana, em que os jovens são agentes centrais nesta equação.

  “O Futuro da Segurança” foi tema de um dos painéis da conferência Diálogos Atlânticos, recentemente realizada na cidade marroquina de Marraquexe. Feita uma sondagem sobre “Qual deveria ser a principal estratégia para impedir a eclosão de conflitos no futuro?”, a resposta com mais votos entre os participantes foi "Promover o emprego e a educação", a uma larga distância das restantes: "Reforçar as comunidades e as famílias; Melhorar o desempenho policial e a capacidade de resposta militar; Melhorar a eficácia dos serviços de informações".

  Educação e Emprego para a juventude crescer dentro das maior estabilidade social. A Educação só pode melhorar se houver qualidade na formação dos professores e o emprego só pode crescer se os governantes legislarem no sentido de facilitarem o investimento. A pista está dada. Assim os políticos a saibam seguir para bem do povo e do país.

R. VARELA AFONSO