Nunca o Partido Socialista esteve tão dividido na luta interna pelo poder

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Nunca o Partido Socialista esteve tão dividido na luta interna pelo poder: António Costa não desiste e José Seguro não se demite

Na sequência das eleições para o Parlamento Europeu, que o Partido Socialista ganhou em Portugal mas que Mário Soares – um dos seus fundadores e antigo presidente da República – considerou uma “vitória de Pirro”, estalou uma luta pelo poder no seio do PS, com António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a contestar a liderança do actual secretário-geral do partido, António José Seguro, a um ano das próximas eleições legislativas em Portugal.

 Mário Soares admitiu que o resultado do PS nas eleições europeias representou "uma vitória de Pirro", que "não deveria ter sido aclamada com o entusiasmo com que o seu líder o fez".

 No habitual artigo de opinião no "Diário de Notícias", o ex-Chefe de Estado e líder histórico dos socialistas, ao analisar os resultados das eleições europeias que deram a vitória ao PS com cerca de três pontos de vantagem sobre a aliança PSD/CDS-PP, advertiu que o PS não devia exorbitar o resultado de domingo, chegando mesmo a colocar entre aspas a palavra "vitória". Soares esteve ausente da campanha eleitoral para as europeias, aparentemente por ter sido convidado por José Seguro já na recta final .

 Agora, na já apelidada versão portuguesa da “guerra dos tronos”, só falta marcar a data do duelo entre José Seguro e António Costa.

 Seja pela via tradicional, seja em eleições abertas a não militantes, o duelo pelo poder no PS já é inevitável: eis a única certeza saída da Comissão Nacional, reunida sábado em Torres Vedras.

Conforme salienta Paulo Martins no JN, se era necessária uma "clarificação", ela aí está. A presumível unidade em torno do líder socialista, quebrada quando o presidente da Câmara de Lisboa se afirmou disponível para o apear, esfumou-se de vez. Desde sábado, tornou-se claro o clima de confronto entre dois campos opostos, que não se inibem de ataques mútuos. Só falta marcar a data do combate. Se tardar, é certo e sabido que a crise se aprofunda.

 A evolução para esta nova fase resulta, objectivamente, da tomada de posição do secretário-geral.

 Seguro abriu a reunião de sábado no Porto Novo, Torres Vedras, com um murro na mesa. "Quero deixar bem claro que não me demito", disse no discurso – cujo registo áudio foi, numa iniciativa sem precedentes, distribuído ao jornalistas.

 O líder não se demite, mas também não deixa de corres-ponder ao desafio do adversário. Para o efeito, avançou com a proposta de eleições primárias abertas a simpatizantes do partido, destinadas a escolher o candidato do PS a primeiro-ministro. Trata-se de uma opção que recusou por duas vezes – constava da moção de Francisco Assis, quando em 2011 disputou a liderança, e foi assumida por João Tiago Silveira, no congresso de 2013.

 Regressa agora, associada a um pacote de iniciativas legislativas, com o argumento de que é uma das receitas para combater o descontentamento face ao sistema político, detectado nas eleições europeias, ao qual dirigentes como Eurico Dias imputam a dimensão do voto no MPT.

 Apanhados de surpresa pela proposta de Seguro – com a qual, enquanto método, não discordam -, os adeptos de António Costa seguiram à risca o seu "guião".

 Abortada a tentativa de inscreverem na ordem de trabalhos da Comissão Nacional a marcação de um congresso extraordinário, impuseram a convocação de nova reunião do órgão, através da recolha de assinaturas.

 Nessa altura, já as posições estavam extremadas. Já Seguro falara em movimentos "visíveis e ocultos" para o destronar. E já acusara Costa de "irresponsabilidade", por pôr em causa uma liderança vencedora de duas eleições, precisamente num momento em que o Governo está em situação de fragilidade, agravada pela decisão do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento do Estado.

 Do lado dos "costistas", o ricochete não tardou. Carlos César, para quem o discurso "não foi próprio de um secretário-geral", disse com ironia que se Seguro vencer estarão com ele os dirigentes que agora "desconsiderou".

 Sem ceder à tentação de alimentar conflitos, Costa limitou-se a garantir: "Estou disponível, seja para primárias, seja para congresso".

 Mas Seguro reafirma "na minha consciência não encontro uma razão para me demitir".

 "Isto é uma irresponsabilida-de causada por ti", apontou o líder do PS ao seu desafiador à liderança, António Costa. E vincou o resultado das eleições, lembrando que o autarca de Lisboa não chegou aos 30% na primeira eleição à Câmara.

 

versão portuguesa da ‘Guerra dos Tronos’

 

 O porta-voz do PSD, Marco António Costa, acusou ontem o PS de ser um “foco de instabilidade” na política nacional, considerando que se assiste no maior partido da oposição à versão portuguesa da “Guerra dos Tronos”.

 “Não podemos ignorar que hoje o maior partido da oposição é um foco de instabilidade na vida política nacional e que, permanentemente, nós estamos a assistir à versão portuguesa da ‘Guerra dos Tronos’”, afirmou Marco António Costa, em Fátima, onde foi orador nas I Jornadas Formativas da JSD/Santarém.

 “Trata-se, de facto, de uma situação que a nós nos preocupa, porque precisávamos de ter um Partido Socialista – o maior partido da oposição – estável e, também, determinado a querer ter um comportamento no sentido de auxiliar o país a ultrapassar as dificuldades”, declarou.

 Para o dirigente nacional do PSD, tem-se assistido a “um Partido Socialista que não só vive a sua guerra dos tronos, como ainda, permanentemente, procura destabilizar a situação política nacional”.

 “Assistimos a declarações do secretário-geral do PS esta semana a propósito do diploma do Tribunal Constitucional a reclamar eleições antecipadas. Os portugueses ficam sempre confusos, não sabem de que eleições estamos a falar, se são as internas do PS ou se são as eleições antecipadas a nível legislativo”, re-feriu, destacando que, “de qualquer das formas, não é um bom contributo que o Par-tido Socialista tem dado para a vida nacional”.

 

* Costa pode chegar à maioria absoluta

 

 O ex-líder do PSD, Marques Mendes, comentador da SIC,  defende que António Costa não tinha outra hipótese senão candidatar-se à liderança do PS e acredita que o autarca de Lisboa tem mais condições para ganhar as legislativas.

 "António Costa tem condições para poder aspirar a uma maioria absoluta, Seguro não tem. António José Seguro não foi visto como alternativa ao Governo, o mesmo não acontece com António Costa", disse Marques Mendes no seu habitual comentário na SIC.

 Para o comentador, uma vitória de António Costa no PS deve obrigar a uma remodelacao governamental "até ao Verão".

 "Há muitos ministros que até podem não ser polémicos, mas estão cansados. O Governo deve mudar o discurso, passar a ser mais virado para as pessoas e menos para os mercados", defendeu.

 Na perspetiva do comentador, António Costa tem “muita experiência governativa e autárquica” e “é visto mais como um governante” do que António José Seguro, uma vez que este último, “mesmo ocupando o lugar de líder da oposição há três anos, não conseguiu criar a imagem de alternativa ao primeiro-ministro”.

 Além disso, é um político “muito tacitista, tem-se a sensação de que é tudo ensaiado” e “tem medo de tudo e de todos, incluindo da sua própria sombra”, apesar de ter “mais peso no aparelho”. Mas, como afirmou o antigo líder do PSD, “nas eleições, o apare-lho pesa pouco. O que conta são os votos dos militantes”.

 Há outras falhas que são apontadas a Seguro: “Cometeu erro por não ter aceitado o acordo a três, proposto por Cavaco Silva”, e caiu na imprudência de “pedir eleições antecipadas no país mas não aceitar eleições antecipadas no seu partido”.

 

* ASSALTO AO PODER

 

 O recém-eleito eurodeputado pelo MPT,  Marinho e Pinto, comentou a crise de liderança no Partido Socialista, alegando existir um assalto ao poder.

 «O que se está a passar com o PS é muito perigoso, um Partido Socialista que tem um dos melhores resultados a nível europeu, está a ser objecto de um assalto interno ao poder. Parece que algum re-ceio de alguns sectores no PS é que António José Seguro seja primeiro-ministro no próximo ano, porque isso atrasará os seus desígnios e clientelas», disse Marinho e Pinto à TSF.

 

* João Soares diz que opinião do pai é "um disparate"

 

 João Soares disse na sexta-feira à noite que o artigo de opinião escrito pelo pai, no qual apoia António Costa e arrasa António José Seguro, é "um disparate". Crítica que faz "com toda a ternura", diz.

 "Eu queria com toda a ternura dizer que não me revejo de maneira nenhuma naquele artigo que o meu pai escreveu e que acho aquilo um disparate tão grande como aquilo que o António Costa está a fazer, que é uma coisa que faz mal ao partido", disse João Soares na TVI 24.

 Para o socialista, a situação que se vive no PS, provocada por António Costa, "disfarça aquilo que foi uma derrota clara da direita nestas eleições europeias".

 No artigo de opinião que escreveu no jornal Público, Mário Soares escreveu que "António Costa é uma nova esperança" que fará esquecer "as hesitações do passado" e a "preocupante indiferença" dos portugueses face ao "partido de Seguro".

 

* Zorrinho compara situação no PS à casa dos segredos

 

 O dirigente socialista Carlos Zorrinho afirmou que o PS foi transformado na última sema-na numa "enorme casa dos segredos" para ver qual dos dois Antónios, Seguro ou Costa, sai da liderança do partido.

 Carlos Zorrinho, eleito eurodeputado na sequência das últimas eleições europeias, falava aos jornalistas à entrada para a reunião extraordinária do Secretariado Nacional do PS.

 "Nesta última semana, o PS foi transformado numa enorme casa dos segredos, já que parece que a única discussão é a de saber qual o António [Seguro ou Costa] que fica na casa, qual o António que sai da casa. Só falta fazer um sistema de chamadas de valor acrescentado", comentou, usando a ironia.

 De acordo com Carlos Zorrinho, a discussão em torno de pessoas não é esse o papel do PS.

 "Este partido tem de discutir ideias e projectos para Portugal", contrapôs.

 Interrogado se defende a realização de um congresso extraordinário, na sequência da disponibilidade de António Costa para avançar para a liderança do PS, Carlos Zorrinho recusou-se a responder.

           

* Seguro diz que aparecimento de António Costa enfraquece partido

 

 O líder do PS disse em Torres Vedras que não faz sentido ter ganho a liderança do partido e agora aparecer António Costa a querer substitui-lo, provocando “choques de poder” e enfraquecendo o partido.

 “Os portugueses em casa perguntam se é isto que é a política, estes choques de poder. Então há um que ganhou as eleições e agora vem outro e diz sai daí para eu entrar”, questionou em declarações aos jornalistas António José Seguro, para quem “isto não faz sentido”.

 Para o líder socialista, “é de uma enorme irresponsabilidade” o presidente da câmara de Lisboa, António Costa, ter anunciado que pretende apresentar uma candidatura ao partido nesta altura, “enfraquecendo o PS”.

 

* Costa recusa liderança bicéfala tipo Bloco Esquerda

 

 O dirigente socialista António Costa recusaa possibilidade de o PS seguir a solução de liderança bicéfala do Bloco de Esquerda, tendo um candidato a primeiro-ministro eleito em primárias e um secretário-geral diferente eleito pelo partido.

 Esta posição foi assumida pelo presidente da Câmara de Lisboa no final da reunião da Comissão Nacional do PS, depois de criticar a proposta do secretário-geral, António José Seguro, no sentido de realizar já eleições primárias, abertas a simpatizantes, para escolher o candidato socialista a primeiro-ministro.

 “A solução tem de ser clara. A solução não será clara se for bicéfala, assim tipo Bloco de Esquerda com Catarina Martins e João Semedo. Essa não é uma boa solução para um partido que tem a ambição de ser Governo – isto, admitindo que para o Bloco de Esquerda esteja a ser boa solução”, declarou António Costa.

 Ainda em relação à proposta de eleições primárias, António Costa criticou a lógica “de quem as ganha é candidato a primeiro-ministro e quem perde continua como secretário-geral do PS”.

 “Estou disponível para tudo, mas penso que deve haver uma solução clara e rápida que permita ao PS ter uma resposta eficaz para o objectivo de mudar de Governo e mudar de política. Posso ser vencido democraticamente, mas não pelo cansaço”, disse.

 De acordo com António Costa, o PS tem de apresentar “uma solução clara perante os portugueses”.

 “Não podemos estar aqui com lideranças bicéfalas, nem com um líder do partido fragilizado por perder eleições primárias, nem ainda com um candidato a primeiro-ministro fragilizado por não ter o apoio da liderança do partido”, declarou o presidente da Câmara de Lisboa.

 Neste quadro, António Costa defendeu que o PS “não poderá prescindir de realizar um congresso, onde será aprovada a orientação política do partido”.

 “O secretário-geral do PS convocou uma Comissão Política para se discutir eleições primárias. Eu estou disponível para servir o PS e os portugueses”, acrescentou.

 

* Seguro apresenta esta semana proposta detalhada para realização de primárias

          

 O secretário-geral do PS dis-se que apresentará esta semana, durante uma reunião da Comissão Política, a solução detalhada da sua proposta para a realização de eleições primárias para a escolha do candidato socialista a primeiro-ministro.

 Na reunião, o deputado socialista Pedro Delgado Alves questionou o líder sobre o modo como se poderá compatibilizar a realização de eleições primárias, abertas a simpatizantes, sem que haja previamente uma alteração dos estatutos do PS.

 António José Seguro respondeu então que em breve apresentará uma proposta para enquadrar estatutariamente a realização de primárias.

 Mas, nesse mesmo contexto, deixou uma crítica aos apoiantes da candidatura à liderança do presidente da Câmara de Lisboa.

 “Espero que aqueles que não queriam discutir estatutos não estejam agora a criar problemas estatutários no PS”, comentou António José Seguro, citado pela mesma fonte oficial do partido.