Novo Cardeal português

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Novo Cardeal português

Num gesto de elevado significado para o País e para toda a sua comunidade cristã, o Papa Francisco contemplou Portugal com um novo Cardeal entre os 15 que vai proclamar em Consistório a realizar no Vaticano no próximo sábado, dia 14 de Fevereiro. Trata-se de D. Manuel Clemente, de 66 anos, Patriarca de Lisboa, que passa a ter capacidade eleitoral na escolha do Sumo Pontífice.

  A Santa Sé tinha anunciado no início de Janeiro que o Papa iria criar 15 Cardeais eleitores, provenientes de 14 países, naquele que vai ser, no próximo fim de semana, o segundo Consistório do actual Pontificado.

  Neste momento, há 110 Cardeais eleitores, dos quais menos de metade são da Europa (52), seguindo-se a América (33 – 17 do Norte e 16 latino-americanos), África (13), Ásia (11) e Oceânia (1).

  Habitualmente, o Papa nomeia os Patriarcas como Cardeais eleitores no primeiro Consistório após a tomada de posse, mas, no caso de D. Manuel Clemente, o primeiro Consistório ocorreu quando o Patriarca emérito de Lisboa, D. José Policarpo era ain-da Cardeal eleitor. É habitual – e aqui está a explicação -, não existirem dois Cardeais eleitores na mesma Diocese.

  O Patriarca de Lisboa afirmou que a nomeação como Cardeal nada muda-rá no seu dia-a-dia e que só terá de ir mais vezes a Roma. D. Manuel Clemente reagiu à notícia da sua nomeação como Cardeal afirmando que será "um gosto colaborar ainda mais directamente com o Papa".

  "Vi este anúncio como já estou habituado a ver as coisas da Igreja: elas acontecem de forma surpreendente, comprometem-nos sempre mais e, nesse sentido, para mim é um gosto colaborar ainda mais directamente com o Papa Francisco, com cujo Pontificado e pensamento me identifico absolutamente", disse D. Manuel Clemente, no dia em que soube da notícia e quando se preparava para celebrar missa.

  Sublinhando que nada mudará no ritmo da sua actividade, o Patriarca de Lisboa reiterou o seu compromisso perante os desafios colocados pelo Papa, com especial atenção aos mais pobres e às periferias, a avaliar pelas suas escolhas geográficas na nomeação dos novos Cardeais.

  "Reparei na lista dos que o Papa escolheu agora para o Colégio Cardinalício: a grande maioria não é da Europa, nem sequer do hemisfério Norte, e isso coincide com aquilo que está a ser o catolicismo mundial, não só o movimento da demografia mundial, mas também o movimento do catolicismo e do cristianismo mundiais", observou D. Manuel Clemente.

  "Acho isto muito bem, muito coincidente com aquilo que é preciso fazer agora para que o Evangelho chegue a todos", defendeu .

  O Patriarca de Lisboa junta-se aos dois Cardeais portugueses existentes – D. José Saraiva Martins, Prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos, e D. Manuel Monteiro de Castro, Penitenciário-Mor emérito -, mas só ele será eleitor com assento no Conclave. "É algo que eu não tenho pressa nenhuma em efectivar. Que o Papa Francisco viva muitos e bons anos, porque ele está a fazer muito bom trabalho e to-dos os dias nos leva para diante no sentido evangélico das coisas e, portanto, que lá esteja com muita saúde, com muita força e por muitos e bons anos", salientou o novo Cardeal, que no próximo fim de semana integrará o Colégio Cardinalício para debater a reforma da Cúria Romana.

  Manuel José Macário do Nascimen-to Clemente nasceu a 16 de julho de 1948 em Torres Vedras, é licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa e doutorou-se em Teologia Histórica, em 1992, pela Universidade Católica Portuguesa. Revelou interesse pela vida clerical aos 13 anos, mas só aos 24 entrou no Seminário.

  Até 1980, D. Manuel Clemente foi vigário paroquial coadjutor das Paróquias de Runa e Torres Vedras e em 1989 foi nomeado Cónego da Sé Patriarcal de Lisboa. Em 1997 tornou-se reitor do Seminário Maior dos Olivais.

  Em 1999, foi nomeado pelo Papa João Paulo II Bispo auxiliar de Lisboa com título de Bispo de Pinhel, tendo escolhido como lema do seu Episcopado "In lumine tuo" ("Na tua luz").

  Em 2007, o Papa Bento XVI nomeou-o Bispo do Porto, cargo que exerceu até ser nomeado Patriarca.

  D. Manuel Clemente tomou posse como o 17.º Patriarca de Lisboa, o terceiro de nome Manuel, a 7 de julho de 2013, sucedendo a D. José Policarpo, resignatário desde 2011, quando completou 75 anos.

  À frente da Diocese portuense, nu-ma entrevista a uma revista católica, defendeu a necessidade de uma no-va evangelização. "Para atender a esse grande universo de pessoas que vão perdendo a prática ou que nem sequer a tiveram e que vão ficando longe de uma visão e de uma vivência cristã, é preciso aquilo a que se tem chamado a nova evangelização", afirmou.

  O Patriarca de Lisboa é também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, eleito pelos seus pares, tendo ocupado anteriormente a vice-presidência deste órgão.

  Condecorado em 2010 pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, tinha sido distinguido no ano anterior com o Prémio Pessoa.

  O júri do prémio realçou, na ocasião, "a sua intervenção cívica" que se tinha "destacado por uma postura humanística de defesa do diálogo e da tolerância, de combate à exclusão e da intervenção social da Igreja".

  Em dezembro passado recebeu a Grã-Cruz Pro Piis Meritis, da Ordem Soberana e Militar de Malta.

  D. Manuel Clemente é autor de várias obras, tanto de foro pastoral como teológico e historiográfico, no-meadamente, "Igreja e Sociedade Portuguesa do Liberalismo à Repú-blica", "Os Papas do século XX", "Sínodos em Portugal: um esboço histórico" e "A Igreja no tempo: História breve da Igreja Católica".

  Longe das crises que volatilizam diariamente os acontecimentos da actualidade política e económica mundial e que levantam muitas interrogações às famílias que se preocupam com o seu futuro, escolhi para o Editorial de hoje um tema sereno – a elevação de um compatriota nosso à dignidade cardinalícia, facto que nos enche de muita satisfação e imenso orgulho.

R. VARELA AFONSO