Notícias da Venezuela preocupam emigrantes portugueses

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Notícias da Venezuela preocupam emigrantes portugueses

Portugueses que estiveram emigrados na Venezuela seguem com preocupação os últimos acontecimentos naquele país, com confrontos entre manifestantes anti-Governo e a polícia, e as opiniões dividem-se sobre o que se está a passar.

 Em Aveiro, distrito de onde é oriunda a segunda maior comunidade portuguesa, a Lusa contactou com vários emigrantes que mantêm negócios nos dois países, ou já regressaram definitivamente a Portugal.

 Luís Brito, empresário de panificação que está há 30 anos na Venezuela e se encontra em Portugal por motivos fami-liares, manifestou-se convicto de que a agitação se deve à interferência estrangeira, lembra que sempre houve problemas de insegurança e atribui a escassez de bens a sabotagem e contrabando.

 “Claro que estou preocupado. O problema lá é sobretudo político. O país está dividido entre o oficialismo e a oposição. Por um lado, a oposição faz sabotagem e há problemas logísticos, a segurança é difícil e esse é o principal foco, mas ainda se pode lá viver, apesar da escassez de bens que é também provocada pelo contrabando”, disse.

“Na zona onde estou, em Maracaibo, os “machaqueiros” levam gasolina e mantimentos de contrabando para a Colômbia, e do outro lado é para o Brasil. O contrabando que passa a fronteira e escapa ao controlo do Estado é a principal razão para a escassez que se verifica na Venezuela”, acrescentou o emigrante.

Luís Brito reconheceu que há um problema generalizado de insegurança e que “a oposição tem razão nesse ponto”, mas responsabilizou as interferências estrangeiras, comparando a situação com o clima vivido há 12 anos, na tentativa de derrubar o então presidente, Hugo Chávez.

 “Parte desta agitação é financiada do exterior, a partir da Colômbia e Estados Unidos, porque a Venezuela é um país rico em petróleo”, disse.

 Fernando Ferreira, empresário hoteleiro com 34 anos de Venezuela, radicado em Caracas, veio para Portugal abrir um negócio, mas disse que tem intenção de voltar e espera que a situação melhore.

 “É a minha terra, gosto de aqui estar, mas isto aqui também está mal. O que sei da Venezuela é pelas notícias e já teve melhores dias. É um país que já deu para ganhar dinheiro, mas agora não dá. Nós, portugueses, espanhóis e italianos, ainda vamos tendo os nossos negócios, mas os venezuelanos não têm trabalho e eles têm de comer”, observou.

 Já João Domingos regressou definitivamente. Partiu de Cabecinhas, Vagos, na década de 1950 “como todos os

outros” e ainda hoje não sabe se foi a melhor opção. Foi “a salto”, com passaporte falso e teve por lá “uma vida apertada”, entre vários “sustos” devido aos assaltos de que foi vítima.

 “Daqui das Cabecinhas foi tudo: só faltou ir o padre para a Venezuela. Foi uma loucura e eu empenhei-me e fui também, quando na altura havia aqui trabalho para toda a gente, fosse em Aveiro ou em Lisboa”, lembrou.

 Das notícias que lhe chegam da Venezuela, comparou com os anos que lá viveu e concluiu que “o regime ‘fidelista’ está a estragar tudo”, acreditando que só uma mudança política pode devolver o país à normalidade.

 “No tempo em que lá estive era comida em todo o lado, os supermercados estavam cheios, não havia falta de nada. Agora não deixam as pessoas desenvolver-se porque não têm matéria-prima para trabalhar, não há trigo, o leite parou. Não vai haver paz e normalidade enquanto não estiver no poder um partido democrático”, considerou.

 Opinião idêntica manifestou o seu parente e vizinho Manuel Malta, preocupado porque deixou lá a filha, o genro e um neto.

 “Já havia problemas de segurança, mas não era como agora. Roubavam (…), chegavam ao pé de mim, encostavam a faca à barriga e dava o dinheiro, iam embora e acabava. Isso existiu lá toda a vida”, relatou.

Todos os dias, disse, segue as notícias: “ainda agora estive no computador. Acho que aquilo está mal, mas se Maduro saísse era capaz de melhorar porque o Caprilles é capaz de fazer melhor. Pelo menos o Chávez sabia mais, era militar e não era tão tonto como este pois com ele não faltaram alimentos”.