Não há borracha que apague a História!

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Não há borracha que apague a História!

Está na moda o vandalismo. Vemos o dessacrar de estátuas, túmulos, templos e outras preciosidades insubstituíveis por parte dos militantes terroristas do ISIS.

 O Estado Islâmico acha giro detonar explosivos e dinamitar monumentos culturais – os quais não compreendem e por isso toca a destruir – coisas, que fazem parte da História da Humanidade. Só porque o Islão – ou melhor, a versão do Islão que eles interpretam – não permite nada a não ser o Alcorão e aquilo que os imãs e aiatolas dizem.

 O problema disto tudo é a miopia religiosa e a intolerância cultural. Não poder haver espaço para multiculturalidade e o pluralismo de opiniões, destrói a teia que segura e faz próspera uma sociedade.

 “Vocês que não são da nossa facção, não podem existir!” Isso está errado, porque não se consegue apagar o passado nem da História episódios, por melhores ou por mais maldosos que tenham sido.

 Aqui pela África do Sul, vemos que a moda do vandalismo pegou e pegou em força. Não me refiro apenas à xenofobia do queimar e pilhar lojas dos Somalis e Quenianos e Paquistaneses. Mas vemos que jovens, andam agora a vandalizar e a profanar estátuas de figuras históricas deste nosso país.

 Tudo começou com a estátua do Cecil John Rhodes, na Universidade do Cabo. Depois foi em Durban, Pretória e Port Elizabeth. Não é com o remover de estátuas, artefactos, mudar os nomes às cidades e províncias que se vai conseguir apagar o passado colonialista.

 Um senhor chamado Sebastião José de Carvalho e Melo – mais conhecido por Marquês do Pombal – foi um belo estadista português no reinado de D. José I e um grande ditador. Entre muitas coisas, expulsou os Jesuítas de Portugal e das colónias e proibiu o casamento dentro da própria etnia a judeus. Promulgou a censura e governava Portugal com pulso de ferro. No entanto hoje, ninguém diz que tem que se tirar a estátua da rotunda em Lisboa diante do Parque Eduardo VII.

 A Ponte Salazar mudou para Ponte 25 de Abril e isso é de valor, embora a Abrilada nada tivesse a ver e em nada contribuiu para a construção e manutenção daquela travessia do rio Tejo. É uma infantilidade e de quem se ocupa com coisas triviais, pensar que substituir nomes ou remover símbolos históricos altera o curso dos acontecimentos.

 Lourenço Marques era a capital de Moçambique, hoje é Maputo. De nada alterou o facto de ter sido território ultramarino de Portugal em Moçambique. Ali era Portugal, hasteava-se a bandeira lusa, o hino era a Portuguesa, a língua era a de Camões.

 Remover e encaixotar a estátua do Rhodes em nada altera o facto do homem ter ligado o Cabo ao Cairo por via-férrea. De ter tido dois países com o seu nome, Rodésia do Norte e do Sul, hoje Zâmbia e Zimbabué respectivamente.

 No entanto eu vou mais longe, é para retirar todos os símbolos coloniais? Então pronto, retiramos tudo! Água canalizada, barragens, electricidade – que para desaparecer de vez falta pouco – sistemas de governação, legislação e as forças armadas. A televisão, o sistema bancário e o próprio dinheiro, os telemóveis, os carros, as estradas, tudo… tudo desaparece, porque nada disso foi inventado aqui.

 E quem diz África do Sul diz África em geral, Austrália, Nova Zelândia, praticamente toda a Ásia e todo o continente Sul e Norte-americano. Foi tudo idealizado, experimentado e posto em prática na Europa por europeus.

 Quando Bartolomeu Dias chegou em 1488 ao Cabo da Boa Esperança, a Cidade do Cabo não existia. Auckland na Nova Zelândia não tinha nem sido pensada e Sidney nem era a metrópole cosmopolita e vibrante que é hoje, quando o capitão Cook lá desembarcou.

 Não se trata de racismo, mas sim de chamar as coisas pelos nomes. Franco foi ditador e tirano em Espanha, os espanhóis não escondem isso. A Argentina não esquece José Maria Guido, um ditador civil entre os vários ditadores militares. Os britânicos não apagaram da sua história o rei Eduardo I, conhecido como o “Martelo dos Es-coceses”. Tirano puro. Muito menos Henrique VIII com as suas esposas todas, as quais mandou executar.

 Há muitas incongruências nestes actos. Profanam um túmulo, vandalizam uma estátua, mas tudo filmadinho com telemóveis da última geração e postado no YouTube.

 Deixem a História em paz, não a queiram apagar – porque não conseguem – mas sim aprendam com ela e a partir dela. Hitler foi o genocida tirano que foi, mas no entanto assiste-se agora à ressurgência de grupos neonazis na Alemanha.

 D. Afonso Henriques expulsou de Portugal os Mouros, mas estes lunáticos do Estado Islâmico insistem que vão conquistar a Ibéria. Boa sorte é o que lhes desejo! Quando acabar o stock de bombistas suicidas e se começar a largar bombas sobre eles, os Ocidentais são maus e não sabem levar uma brincadeira com bom humor.

 Daí que eu digo, é preciso reflectir e medir as palavras, porque todos os actos acarretam consequências. Não se pode cuspir para o ar e esperar que não nos aterre na testa.

 Esta violência cultural e estas palavras de ordem que se gritam são ocas e vazias, porque há muitos africanos a residir na Europa e o que aconteceria se se expulsasse os ex-colonizados ou provenientes das ex-colónias? Não pensam na reciprocidade dos seus actos? A Europa tem História e saber de milénios, o Novo Mundo tem recursos primários.

 Precisamos todos uns dos outros, mas se calhar uns precisam mais que outros. Cabe ao leitor a sua interpretação. O que eu sei é que não gostaria de ver isto escalar para outra coisa mais grave.

 Há pessoas, mestiços, provenientes de relações e de casamentos de Portugueses com nativos africanos. Esses são para erradicar? Ou também não são fruto do colonialismo? Não pode haver dois pesos e duas medidas.