Não compensa vir de Portugal para ser professor na África do Sul

0
99
Não compensa vir de Portugal para ser professor na África do Sul

Um terço dos 3.744 alunos que beneficiam do programa de ensino do Português na África do Sul, Namíbia, Suazilândia e Zimbabwé podem ficar sem aulas no próximo ano lectivo por falta de professores, prevê o coordenador do programa, Rui de Azevedo.

  Aquele responsável afirma que o cancelamento do concurso nacional pelo Governo para o recrutamento de professores para a zona que cai sob a jurisdição de Pretória obriga a coordenação a contratar professores localmente, “o que não é de todo fácil dado o défice linguístico prevalecente entre a comunidade e a carência de docentes neste mercado”.

 Neste momento, segundo o responsável, a pouco mais de um mês do arranque do ano lectivo nestes países, a coordenação tem 18 vagas em aberto nos quatro países on-de trabalha e está a envidar esforços no sentido de contratar localmente utilizando protocolos com instituições de ensino locais que tenham professores de português e concursos locais.
 Rui de Azevedo refere que “a informação oficial oriunda do Governo e do Instituto Ca-mões é que não haverá cortes orçamentais”, mas a contrata-ção de professores, na ausência de concurso nacional, torna-se “muito difícil”.
 No presente ano lectivo, três professoras oriundas de Portugal leccionaram na África do Sul tendo-se candidatado ao concurso local, e a coordenação recorreu também a quatro docentes moçambicanos e um brasileiro, adianta o responsável.
 Apesar disso, situações graves ocorreram em vários pontos, nomeadamente na província sul-africana do Kwazulu-Natal, onde as docentes começaram as aulas a meio do ano lectivo.

 Para o próximo ano não há ainda professores destacados para Durban (duas vagas) e Pietermaritzbug (uma vaga), havendo três vagas por pre-encher no Cabo Ocidental (na Cidade do Cabo), por exemplo, onde apenas um de quatro docentes estão garantidos, adiantou a mesma fonte.
 Os professores residentes em Portugal que concorram aos concursos locais não têm as passagens aéreas pagas pelo Estado, o que constitui um obstáculo de peso à contratação através deste mecanismo, tendo em conta que o preço dos bilhetes, consoante a rota e a companhia escolhidas, varia entre os 800 e os 1.800 euros.

 Numa das várias escolas secundárias onde o português é leccionado, em Bedfordview, Joanesburgo, uma mãe portu-guesa declarou-se “indignada” com a perspectiva de os seus dois filhos virem a deixar de ter aulas de português ca-so se concretizem as previsões da coordenação para a região.
 “A melhor coisa feita pelo Estado português em prol dos emigrantes na África do Sul nas últimas décadas foi proporcionar aos nossos filhos um ensino do português de qualidade. Se não fosse este programa os meus filhos nun-ca falariam bem a língua ma-terna”, disse à Lusa esta mãe, que pediu o anonimato.

 Nesta altura do ano, os estudantes na África do Sul estão a terminar os exames de fim do ano. Muitos dos que beneficiam do programa, a nível primário e secundário, não sabem ainda se vão deixar de ter aulas de português.
 “Dizer que as lacunas nos quadros serão preenchidas com contratações locais e que Portugal formará professores locais para a rede é uma falácia, disse uma fonte ligada ao programa do ensino do português em Joanesburgo.
 “A verdade é que os professores qualificados existentes na região estão a trabalhar nos sistemas de ensino dos seus países, nomeadamente Angola e Moçambique e a maioria dos lusófonos residentes na África do Sul ou em qualquer dos países da zona falam mal o Português não tendo as qualificações mínimas para leccionar”, disse.
Segundo o Sindicato dos Professores das Comunidades Lusíadas (SPCL), foram já dispensados 149 professores de português no estrangeiro desde junho de 2011, o que equivalerá a 15 mil alunos sem aulas.