Mundo à espera da solução europeia

0
138
Mundo à espera da solução europeia

Mundo à espera da solução europeiaA economia mundial está em crise e, como consequência disso, os mercados financeiros andam agitados. Nas últimas semanas, o rand, por exemplo, perdeu vinte por cento do seu valor. Isso seria bom para a competitividade das exportações nacionais, não fora os custos acrescidos que a desvalorização implica nos preços, nomeadamente, dos combustíveis.

  Havia a esperança da Europa, os Estados Unidos e o Japão poderem evitar o regresso à recessão, mas a realidade começa a desafiar esse optimismo e o problema está a sobrar para o resto do mundo, que, desta forma, entra numa fase perigosa.
  O último relatório do Banco Federal dos Estados Unidos, conhecido a semana passada, inquietou os investidores sobre a saúde da economia norte-americana associada ao facto das autoridades financeiras daquele país não terem avançado, ao contrário do que era esperado, com medidas capazes de dinamizar o crescimento económico.

  O estado de espírito dos investidores foi também influenciado negativamente por dados pouco animadores das economias europeias e de uma quebra nos índices de crescimento da China, indicadores que ampliam fortemente os receios de uma recessão global.
  A situação internacional inspira cuidados e tem-se complicado nos últimos meses. Isso é um facto.

  A preocupação é impedir que a crise avance ainda mais e atinja um nível mais grave, deixando de estar localizada apenas nos países economicamente mais evoluídos e envolva, além dos Estados componentes do Grupo Brics, os países emergentes menos avançados.
  Perante este quadro geral, receosos de se verem atingidos pela crise nas suas funções vitais devido a factores externos, os Brics – dos quais faz parte a África do Sul – pediram a semana passada aos países europeus, seus principais parceiros económicos, uma acção rápida e ousada para solucionarem os problemas financeiros decorrentes das elevadas dívidas públicas de alguns países da zona euro.

  Um dos problemas para os Brics, com o agravamento da crise, tem a ver com o comércio mundial, que pode ser reduzido com consequências para os países exportadores de matérias-primas incluindo a própria África do Sul. É evidente que, com uma redução na procura das matérias-primas, se assistirá a uma queda no seu preço e ao enfraquecimento do crescimento económico desses países, provocando uma crise de grandes proporções.
  Entretanto, os países do Grupo Brics – Brasil, Rússia, India, China e África do Sul – resolveram aumentar a solidariedade entre eles, impulsionando a actividade comercial e financeira e procurando novas sinergias.

  Mas uma coisa é certa: quanto mais tarde se resolver a crise, mais cara ela ficará. Que o digam a Grécia e Portugal, pelos juros que lhes estão a ser pedidos pelos empréstimos a que têm recorrido nos mercados financeiros internacionais.
  Os juros exigidos pelos investidores para negociarem dívida soberana portuguesa estavam na sexta-feira pressionados a 5 e 10 anos nos 13,536 por cento e 11,724 por cento, respectivamente, enquanto na Grécia avançavam para os 29,647 e 23,564 por cento cada.

  No caso de Portugal, na maturidade dos dois anos, os investidores estavam a pedir juros superiores pelas obrigações nos 17,504 por cento. Para a Grécia, os juros neste prazo estavam também na sexta-feira a subir para os 66,629 por cento. Que economia pode sobreviver com juros desta ordem?
  No epicentro desta crise, a Europa, a quem se apela que acelere o processo de decisão, afirma-se disposta a enfrentar os desafios actuais para aliviar a estabilidade financeira global, mas tem alguma explica-ção para o atraso de soluções que se verifica na zona euro.

  A zona euro alega que é composta por países com democracias e que o processo de ratificação do acordo assinado em Julho pelos chefes de Estado e de Governo dos 17 países membros está em curso ao nível dos respectivos Parlamentos, não ajudando o facto de dez desses 17 governos serem de coligação.

  Há três anos, em 2008, quando o epicentro da crise financeira foi os Estados Unidos, a resolução do problema, a uma só voz federal, foi mais rápida. Agora, na Europa, há mais democracias para encontrar soluções. Por isso, cresce a tese da criação de uma confederação como a forma mais aceitável de defender a zona euro, onde houvesse maior integração fiscal e orçamental, ou mesmo uma inevitável integração política no quadro de algum tipo de federalismo.
  Neste momento, para Portugal a maior catástrofe seria a desintegração da zona euro e o colapso da moeda única.
  O regresso a um escudo altamente desvalorizado, talvez para metade do câmbio com que entrou no euro, seria incomportável para o pagamento de uma dívida contraída pelo País em biliões e biliões de euros.

  Uma pergunta que também se coloca é a de que terá o escudo tido a conversão correcta para o euro quando Portugal aderiu, um tanto ou quanto precipitadamente, à moeda única europeia, na ânsia de receber no imediato elevadas verbas dos fundos de coesão?
  Agora há que esperar pela aprovação da extensão do mandato e do volume do fundo de resgate do Fundo Europeu de Estabilização Financeira, origem da ajuda necessária, a par das corajosas medidas de consolidação orçamental que o actual governo português está a adoptar.

  Mas corajosa, mesmo corajosa, seria a decisão do Banco Central Europeu – a entidade emissora de moeda na zona euro – imprimir nota suficiente para colocar a zero as dívidas soberanas dos países com problemas financeiros profundos, nomeadamente a Grécia, Portugal e a Irlanda, e em menor proporção a Espanha, a Itália e a França, ajudando-os a pagar as respectivas dívidas aos credores e libertando-os dos pesados encargos com os juros. Seria o desafogo total e o renascimento das respectivas economias, obrigadas à regra de ouro de não ultrapassarem um défice superior a 3% do PIB e melhorarem a boa governação para evitar a repetição de uma crise.

  Com o consumo restaurado, a obrigar ao aumento da produção e à criação de mais postos de trabalho, a inflação decorrente de uma maior circulação de moeda seria o mal menor.            

R. VARELA AFONSO