Multidão incontável encheu ontem Santuário de Fátima

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Multidão incontável encheu ontem Santuário de Fátima

As centenas de milhares de peregrinos que ontem se reuniram em Fátima para as celebrações do 13 de maio lembraram os jovens que “vivem apreensivos relativamente ao futuro” por causa da falta de emprego, da violência ou da insegurança.

 Durante a oração que antecedeu a bênção dos doentes, integrada na celebração central da peregrinação à Cova da Iria, os presentes rezaram também pelos doentes, em particular “os que sofrem sozinhos”, e pela “Igreja perseguida”.
 Na saudação final, o bispo de Leiria-Fátima destacou a “beleza, o encanto e o fascínio” da “multidão imensa e incontável” que acorreu ao santuário, em números fora do normal, segundo as autoridades locais.
 “Esta multidão constitui uma paisagem humana de uma beleza verdadeiramente admirável e emocionante”, disse D. António Marto.
 O prelado agradeceu a presença do cardeal Gianfranco Ravasi, que presidiu à peregrinação deste ano, e elogiou a mensagem “bela e profunda” deixada pelo responsável máximo do Conselho Pontifício para a Cultura, organismo da Santa Sé, gesto sublinhado por uma salva de palmas dos presentes.

 Neste contexto, o bispo de Fátima falou numa cultura que “está a dar sinais de desencanto, de cansaço, de esgotamento, de desorientação, em busca de algo de mais e de melhor, em busca de Deus”.
 “Aqui, junto do coração materno de Maria,  encontramos aquilo que a cultura do mundo de hoje anda à busca: acolhimento, conforto, alento, confiança, esperança e paz”, prosseguiu.
No final, D. António Marto convidou as crianças para a peregrinação anual do dia 10 de junho, dedicada aos mais novos em Fátima.
 A peregrinação internacional de maio, que evoca o 95.º aniversário da primeira aparição da Virgem Maria na Cova da Iria, teve como tema ‘Eis a serva do Senhor’.
 No recinto estiveram presentes mais de 160 grupos organizados de peregrinos de cerca de 30 países.
 O Santuário de Fátima revelou que foram atendidas cerca de 780 pessoas no Posto de Socorros e 1480 no ‘lava-pés’.
 Foram acreditados para acompanhar esta peregrinação 149 profissionais de 53 órgãos de comunicação de Portugal, Brasil, Espanha, Itália, Polónia, Guatemala, Argentina e México.

 A página do santuário na internet foi visitada esse sábado por mais de 26 mil pessoas, sobretudo de Portugal, Brasil, Espanha, Itália, EUA, Polónia, França, Argentina e México.
 A Guarda Nacional Republi-cana (GNR) informou que te-ve lugar uma total ocupação dos parques de estacionamento do recinto, que levou ao desvio dos veículos pesados de passageiros durante a manhã.

* Cardeal Ravasi contesta falta de consistência da
cultura e pede «fraternidade operativa»

 O cardeal Gianfranco Ravasi alertou ontem em Fátima para a inconsistência da cultura actual e lembrou os sofrimentos da humanidade, apelando à acção em favor dos mais desfavorecidos numa “fraternidade operativa”.
 “Não devemos ter medo de sujar as mãos, ajudando os miseráveis da terra: para que servirá ter as mãos limpas, se as temos no bolso”, disse o responsável máximo do Conselho Pontifício para a Cultura (CPC), que este ano presidiu às cerimónias anuais do 13 de maio, perante centenas de milhares de peregrinos reunidos no santuário da Cova da Iria.
 O cardeal italiano afirmou, por outro lado, que a cultura contemporânea “é muitas vezes fluida, inconsistente, semelhante a uma neblina que não conhece pontos firmes morais e luzes de verdade”.
 D. Gianfranco Ravasi evocou “as tristes presenças que infelizmente se alojam ainda em Fátima, em todas as cidades e vilas de Portugal, nas nações das quais provêm os peregrinos, nas extremas terras desoladas da Ásia ou da África”.
 “Muitos de nós viemos aqui com os olhos velados de choro”, reconheceu o prelado, declarando que “Deus passará diante de todos os homens e mulheres e, quando vir as lágrimas descer dos seus olhos, irá ele mesmo enxugá-las”.
 Neste contexto, o responsável do Vaticano para o mundo da cultura recordou Ésquilo, autor da Grécia antiga, e a sua questão sobre a resposta divina ao sofrimento humano.

 “A sua pergunta cética não tinha resposta. Nós, pelo contrário, apresentamos a nossa secreta bagagem de sofrimentos, de doença, de mal, de pecado, de solidão, de incompreensões a Maria, para que a entregue ao seu Filho”, observou.
 O cardeal italiano apresentou na sua homilia uma reflexão sobre a simbologia de “corpo”, que considerou como mais do que “um aglomerado de células”, destacando a capacidade de comunicar “a alegria e o amor, mas também a dor e o ódio”, “um santuário que pode ser dessacralizado pelo pecado”.
 “Infelizmente, na sociedade contemporânea são os corpos sem alma a dominar, tornando-se carne sem espírito, ora adorada ora desprezada”, alertou o responsável da Cúria Romana
 O corpo, prosseguiu, “é uma arquitectura admirável que tem sobretudo no rosto a via para se abrir ao mundo e ao próximo”.
 O colaborador de Bento XVI citou o apóstolo São Paulo para pedir aos presentes que não se limitem a navegar “na superfície, à deriva, sem refletir e interrogar, sem procurar e julgar”.
 “Lembremo-nos uns dos outros, unidos na mesma fé e na comunhão de afectos, para além das distâncias e das dificuldades das línguas”, pediu o cardeal Ravasi, antes de concluir sob uma salva de palmas dos presentes.
 A missa foi concelebrada por 22 bispos e 265 sacerdotes.

* Trinta e uma toneladas de velas

 Trinta e uma toneladas de velas foram queimadas no tocheiro do Santuário de Fátima desde as 00:00 de sábado, quantidade “muito superior” ao habitual em ocasiões de grandes peregrinações, informou fonte da instituição.
 Segundo o administrador do Santuário de Fátima, Cristiano Saraiva, no sábado estiveram sete funcionários afectos ao serviço de abastecimento das velas e de recolha da cera derretida.
 Além das velas normais, de vários tamanhos, os peregrinos apresentavam imagens em cera de feitios tão diferentes como figuras humanas ou reprodução de órgãos do corpo humano e, nesta peregrinação, até com o feitio de casas de habitação.
 A entrega de velas para derreter no tocheiro do Santuário é uma das formas mais tradicionais de cumprimento de promessas neste templo mariano.
 As promessas dos peregrinos a Nossa Senhora de Fátima bateram todos os recordes nesta peregrinação de 12 e 13 de Maio ao Santuário, tendo em conta a compra e queima de velas, que quadruplicou, em comparação com os anos anteriores.
 "Nunca houve ano algum, nem com a vinda dos Papas, com um consumo de velas tão elevado", disse o padre Cristiano Saraiva, administrador do Santuário de Fátima.
 Por norma, o consumo de velas na manhã do primeiro dia da peregrinação de Maio é de duas toneladas, para um total de dez toneladas nos dois dias.
 A fila para colocar velas a arder chgou a ter mais de uma centena de metros, apesar dos peregrinos serem rápidos, devido ao calor no local.
 A vela é "um símbolo da luz" e a sua oferta a Nossa Senhora é uma "manifestação de fé e de pagamento de promessas", explicou Cristiano Saraiva, defendendo que "os peregrinos vêm com a sua devoção apresentar-se diante de Nossa Senhora de Fátima, fazendo as suas orações e pedidos".
 O tocheiro foi reformulado em 2005 e a recolha da cera derretida é feita de forma auto-matizada, com mais segurança e menos poluição. A cera derretida é colocada em nove pequenas calhas e encaminhada para uma caleira. É depois colocada em dois depósitos, para ser reciclada e reutilizada no fabrico de novas velas.
 O cumprimento de promessas de joelhos, na passadeira em pedra, com início no recinto e envolvendo a Capelinha das Aparições, também registou muita procura. Alguns peregrinos tiveram de fazer várias paragens.