Mulheres empresárias portuguesas defendem maior diálogo e inclusividade na África do Sul

0
39

 As mulheres estão cada vez mais a conquistar o seu lugar no mundo profissional, do empreendedorismo e dos grandes negócios, contribuindo para que a sociedade seja mais produtiva, inclusiva e equitativa, referiu na passada quinta-feira, um painel de mulheres empresárias e profissionais portuguesas na África do Sul.

 O evento empresarial, organizado pela Câmara de Comércio Portuguesa na África do Sul (SAPCC), no Royal Johannesburg & Kensington Golf Club, reuniu cinco casos de sucesso de mulheres luso-descentes no país, para partilharem “experiências e vivências” e estimular o papel da mulher no mercado de trabalho e no mundo empresarial, como disse na abertura do encontro a moderadora e directora do African Business Dialogues, Mudzithe Phiri.

 “Conversas como esta são muito importantes porque permitem dar a palavra à mulher para que a sua voz seja escutada e a sua mensagem anotada”, afirmou a empreendedora que iniciou o diálogo pelos desafios que se colocam às mulheres na sociedade de hoje.

 “A actividade desportiva é parte integrante da nossa educação como mulher portuguesa, mas foi só quando entrei na indústria de televisão e radiodifusão que constantei que a presença da mulher no jornalismo desportivo não era assim tão comum na altura”, respondeu a jornalista e apresentadora Cindy Poluta.

 “Hoje já é diferente. Mas é uma batalha constante, porque supostamente os rapazes são conhecedores de desporto, porque o praticam, enquanto que as raparigas são vistas como não tendo esse conhecimento já que se espera que fiquem em casa a gerir a casa e a família. Ainda hoje as pessoas se surpreendem ao verem uma jornalista desportiva”, adiantou.

 Para Carla da Silva, gestora regional da companhia aérea Air Mauritius, a indústria da aviação é “operacionalmente gerida por mulheres mas liderada por homens” o que obriga a uma dedicação e trabalho “sem precendentes” para que uma mulher consiga chegar aos cargos de gestão e liderança no topo da hierarquia do sector. 

 “Os homens são promovidos a cargos superiores de liderança com base no seu potencial enquanto que a promoção das mulheres é feita por mérito, isto é, com base nas actividades desempenhadas e nos resultados alcançados”, precisou.

 “Por outro lado, enquanto os homens se ajudam mutuamente quando precisam de ajuda num plano de negócios, nós mulheres não cooperamos assim tanto, embora a situação tenha melhorado, e é o que temos vindo a encorajar na aviação para que as mulheres adoptem mentores, tanto senhoras como senhores, para que possam ascender na carreira”, explica a gestora sobre os principais desafios que têm enfrentado pelo caminho.

 “Tem sido um percurso díficil, devo dizer, mas o elemento de ‘receio’ existe porque fomos educadas a ser mães e donas de casa, o que não significa que não possamos ter uma carreira profissional. É uma questão de nos afirmamos e de criar oportunidades para que outras mulheres sejam também estrelas”, adiantou Carla da Silva.

 Janine Rebelo, gestora de topo na privada Liquid Telecom, onde desempenha funções de CCO na direcção comercial, observou nesse sentido que a África do Sul não é um “caso isolado” comparativamente a outros países no tocante à igualdade de género, tanto na sociedade como no local de trabalho, mas sublinhou também as dificuldades e os desafios com que a mulheres se deparam na África do Sul. 

 “No mundo corporativo, é absolutamente crucial ter um conhecimento especializado da área, e por vezes saber duas vezes mais do que os colegas para se grangear  credibilidade. É preciso conquistar etapa a etapa até ao topo com muito conhecimento”, referiu.

 De acordo com esta directora executiva, as estatísticas indicam que as mulheres são tidas como sendo “17% menos competentes” quando intervêm em reuniões do executivo.

 “De forma que, combater estas percepções é uma constante preocupação, além de outros aspectos. Como sociedade, não progredimos. Há ainda muito trabalho árduo a fazer pela frente com muita persistência e ser portuguesa ajuda imenso, porque nunca aceitamos um não como resposta”, disse Janine, numa declaração que provocou uma forte gargalhada imediata na plateia.

 Já para a psicóloga e directora executiva da Sincroniciti, Natércia Faustino, o percurso foi inverso e menos “penoso”, considerando até uma experiência positiva o facto de ter sempre trabalhado com mulheres “que foram minhas gestoras e todas elas líderes fantásticas”.

 “A minha experiência é por isso diferente, e é o resultado da influência do meu falecido pai, que teve duas filhas, e cuja atitude era: ‘vocês podem alcançar tudo o que escolherem fazer na vida’ criando assim o ‘palco’ para as filhas (optarem por uma carreira profissional). A ironia é que o conselho parte de um homem que foi educado numa sociedade patriarcal no Portugal rural dos anos de 1950”, contou Natércia.

 “No mundo empresarial, sempre contei com o apoio de mulheres em posições-chave”, disse a psicóloga luso-descente acrescentando também que “até sou muito um produto da cultura portuguesa, porque se me disserem um ‘não’ é garantido que irei desafiar a pessoa a apresentar boas razões para justificar”.             

 Neste primeiro encontro com mulheres empresárias em destaque na África do Sul, o painel sublinhou ser importante a continuidade do diálogo “para que mulheres e homens possam trabalhar em conjunto na realização das nossas ambições profissionais” e destacou ainda a importância dos ”valores” da cultura portuguesa na cons-trução de “uma mais valia” no plano profissional e empresarial.

 O público presente, na sua maioria jovens mulheres, aplaudiu as experiências partilhadas, quer a nível pessoal como profissional, em particular as “dicas” de sucesso empresarial.

 

A cultura portuguesa é subs-critora de boas práticas e ética profissional

   – Carla da Silva

 

 Em declarações ao Século de Joanesburgo, no final do encontro, as panelistas foram unânimes em afirmar que o debate sobre a questão da igualdade de género e diversidade cultural dever ser inclusivo e participativo no colectivo por forma a sensiblizar a sociedade em geral, como sublinhou Carla da Silva.

 “É necessário criar este diálogo inclusivo para implementar planos de acção e sensibilizar a nossa sociedade. Estas iniciativas são de vanguarda, inspiradoras e podem servir de motivação para outras mulheres, para que um dias possamos ter uma sociedade mais igual, livre de preconceitos e de leis discriminatórias. Temos que dialogar mais abertamente. A comunicação desempenha um papel crucial na partilha de conhecimento e de experiências pessoais, quer da perspectiva das mulheres como também dos ho-mens”, afirmou.

 Questionada sobre a diversidade cultural como sendo uma vantagem a ter no local de trabalho, a gestora destacou o facto de a cultura portuguesa ser “subscritora das boas práticas e ética profissional”.

 “Os nossos avós e pais ensinaram-nos que o trabalho árduo significa sucesso; a trabalhar com transparência, eticamente e a ter ambição. São pilares da nossa cultura. Os nossos valores e a nossa ética permtiram-nos ser também bem sucedidas”, disse Carla da Silva.

 Por seu lado, Natércia Faustino adiantou ao nosso jornal que “se utilizarmos as nossas qualidades naturais, julgo que a mulher já por si é mais afectiva; mais aberta à negociação e compromisso, e se colocarmos este conjunto de competências ao serviço da sociedade no seu todo, educando não só jovens mulheres mas também partilhar com homens jovens a importância de valorizarem essas compe-tências e atributos, julgo que poderemos fazer avançar as nossas sociedades neste continente. Mas será necessário o empenho e a participação de todos na criação de uma sociedade melhor”.

 A jornalista Cindy Poluta referiu que este tipo de plataforma “é importante para dialogar e dar a conhecer que há mais mulheres no local de trabalho, nos negócios e sensibilizar a sociedade sobre a realidade actual que, quer mulheres como homens, partilhamos o mesmo espaço e as mesmas lutas”.

 Cindy considerou ser “fantástico ser uma mulher portuguesa nos negócios porque nos permite contribuir no local trabalho com um pedaço da nossa cultura que os outros desconhecem” porque vivemos num país onde “tanta gente é oriunda de tantos outros países”.

 “Como mulher portuguesa é fantástico poder conversar com os colegas sobre a nossa cultura e constatar que existem semelhanças com outras culturas. E claro, é extraordinário ser jornalista desportiva (na rádio e televisão) quando Portugal vence o campeonato europeu de futebol”, declarou esta profissional de comunicação social de descendência madeirense.

 “O Cristiano Ronaldo incutiu nos portugueses espalhados pelo mundo um novo sentido de orgulho da nossa cultura e das nossas raízes. Julgo que não podemos subestimar uma pessoa portuguesa seja no desporto ou no local de trabalho ou onde quer que seja para que os outros possam valorizar o nosso país”, sublinhou Cindy Poluta.  

 O debate sobre a igualdade genéro, diversidade e inclusividade é um tema pertinente a acontecer na África do Sul, particularmente no sector profissional e empresarial, vinte e quatro anos após as primeiras eleições democráticas multiraciais e multipartidárias, em 1994.

 A gestora Janine Rebelo considera que, neste sentido, “o país e a comunidade pecisam de começar a congregar recursos e a debater as questões mais díficeis para encontrar soluções”.

 “Não o poderemos fazer em silos, com segregação, particularmente neste debate em torno da mulher, em que precisamos de todas as nossas competências e de sermos inclusivos”, sublinhou.

 “Os portugueses são traba-lhadores incansáveis, muito dedicados, conscientes e dos melhores profissionais que já alguma vez vi. Têm um sentido de ética profissional muito elevado de herança dos pais e julgo que temos muito para contribuir”, disse ao Século, Janine Rebelo.

 No fim do evento, Mudzithe Phiri contou ao nosso jornal ter sido “interessante ver as semelhanças entre as cultu-ras Africana e Portuguesa, e constatar que somos de facto a mesma coisa”.

 “Muitas das experiências aqui partilhadas dizem-me também respeito”, disse a directora do African Business Dialogues e moderadora do encontro.

 “É óptimo ver a Câmara de Comércio a apoiar este tipo de diálogos porque, tal como as mulheres hoje disseram, ainda existe uma disparidade enorme entre homens e mu-lheres no local trabalho que continua a ser por eles dominado. Em média, as mulheres recebem 50% a menos do que os homens no mesmo cargo profissional, o que é ridículo constatar em 2018. Por isso é importante criar este tipo de plataforma de dálogo”, afirmou a empreendedora.

 “O facto de os portugueses se integrarem fácilmente (na sociedade) é inspirador para um país como a África do Sul. Se mais mulheres sul-africanas puderem vivenciar o que eu hoje conheci e puderem fazer parte da mesma comunidade, julgo que será muito motivante”, disse ao Século, Mudzithe Phiri.