Moçambique recebe três biliões de dólares em receitas da Área 1 do gás natural a partir de 2030

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 A consultora Wood Macken-zie estima que só as receitas do projecto de gás natural aprovado em Moçambique vão, em dez anos, valer 3 biliões de dólares anualmente, duplicando a totalidade do montante total actual.

 “Acreditamos que, a partir do início da década de 2030, as receitas estatais do projecto Mozambique LNG vão chegar a 3 biliões de dólares [mais de 2,6 biliões de euros] por ano, duplicando, por si só, as receitas actuais calculadas pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial”, disse o analista Jon Lawrence, citado pela Lusa.

 Comentando os projectos de gás natural em Moçambique, o analista disse que a Decisão Final de Investimento, anunciada recentemente pela Anadarko, torna-se na segunda decisão mais onerosa a seguir ao projecto Arctic LNG-2, na Rússia, e a maior de sempre no sector do petróleo e gás na África subsaariana.

 “Com uma forte procura pelo gás natural liquefeito, este é o tempo de Moçambique”, salientou o analista.

 O plano de desenvolvimento da Área 1 da Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado, a província mais a norte de Moçambique, está avaliado em 25 biliões de dólares – o dobro do Produto Interno Bruto (PIB) do país, ou seja, a riqueza que o país produz a cada ano.

 A decisão foi anunciada na penúltima terça-feira e esta é só metade da prosperidade prometida, porque um plano de dimensão semelhante já foi aprovado pelo Governo para outro consórcio, que vai explorar a Área 4, na mesma bacia, e cujo anúncio final pode acontecer até final do ano.

 Os projectos de gás natural devem entrar em produção dentro de aproximadamente cinco anos e colocar a economia do país a crescer mais de 10% ao ano, segundo o FMI e outras entidades.

 Para lá chegar, a Área 1 vai investir 25 biliões de dólares (21,97 biliões de euros) que vão ser utilizados para furar o fundo do mar, sugar o gás natural através de 40 quilómetros de tubagens para uma nova fábrica onde vai transformado em líquido, na península de Afungi, distrito de Palma.

 Ao lado desta fábrica vai ser construído um cais para navios cargueiros especiais poderem ser atestados com gás natural liquefeito (GNL), que vai ser vendido sobretudo para mercados asiáticos (China, Japão, Índia, Tailândia e Indonésia), mas também europeus, através da Electricidade de França, Shell ou a britânica Cêntrica.

 Haverá ainda uma parcela mais pequena que vai ficar no país e que será canalizada para produção de eletricidade, transformação em combustíveis líquidos e adubos, em Moçambique.

 Tudo deve estar pronto em 2024. O plano da Área 1 prevê inicialmente duas linhas de liquefação de gás com capacidade total de produção de 12,88 milhões de toneladas por ano (medição para a qual se usa a sigla mtpa), sendo que o empreendimento pode crescer até oito linhas.

 A ambição justifica-se com o tamanho da descoberta feita desde 2010 na Área 1 e que ascende a 75 “triliões de pés cúbicos” (tcf, sigla inglesa) de depósitos de gás, enterrados debaixo do mar – um número gigante: 75 seguido de doze zeros, sendo que na vizinha Área 4 o valor chegará a 85 tcf.

 A Anadarko considera as jazidas da sua Área 1 equivalentes ao dobro do gás e petróleo que há para explorar na área britânica do Mar do Norte e classifica a bacia do Rovuma como a próxima grande zona de exploração de hidrocarbonetos do mundo.

 Além da Anadarko, que lidera o consórcio com 26,5%, o grupo que explora a Área 1 é constituído pela japonesa Mitsui (20%) e a petrolífera estatal moçambicana ENH (15%), cabendo participações menores à indiana ONGC (10%) e à sua participada Beas (10%), à Bharat Petro Resources (10%), e à tailandesa PTTEP (8,5%).

 A Anadarko deve ceder a liderança do consórcio à francesa Total até final do ano, de-pois de ser comprada (processo ainda em curso) por outra petrolífera dos EUA, a Occidental, que por sua vez celebrou um acordo para venda dos activos em África.

 O consórcio da Área 1 avança desde há ano e meio com diversas obras de preparação em Cabo Delgado.

 Os trabalhos incluem uma nova aldeia onde vão ser realojadas comunidades que vivem no local de implantação da fábrica, novas estradas e uma pista de aviação para servir a futura cidade do gás de Palma, destinada a centenas de novos trabalhadores que vão operar o megaprojecto.