Missa é ponto de reencontro para os portugueses de Goa

0
119
Missa é ponto de reencontro para os portugueses de Goa

Todos os domingos, às dez e meia da manhã, é em português que se reza na igreja matriz de Pangim, cujo átrio se transforma num incontornável ponto de encontro de “portugueses de Goa na diáspora”.

 Na outrora jóia do império português a Oriente, ouvir, nos dias de hoje, uma missa na língua de Camões é uma raridade. “Já não há tanta gente”, constata o sacristão. “Os nossos antigos ou foram para Portugal ou já morreram e eu também estou velho”, conta, apressando-se nos seus afazeres.

 Nos bancos da frente são poucos. Em toda a igreja, onde o padre António Xavier começa por cumprimentar com um “Bom dia a todos”, não chegam a ser uma centena. E quase não há jovens.

 Apesar do empenho de dezenas de ventoinhas, o calor faz-se sentir na igreja, onde muitos recorrem ao missal, também como abano, mas sobretudo para avivar as orações em português.

 Maria de Jesus Mártires Lopes, que fez uma das leituras na missa, regressa às raízes uma vez por ano. Tal como a maioria dos que atenderam religiosamente à chamada matinal.

 Embora haja quem descreva como “mascavado” o português que ecoa da Igreja da Imaculada Conceição, a iniciativa é louvada. “Nos últimos anos só tem havido esta (missa). É um esforço que se faz para a manter e acho que vale a pena”, diz esta “portuguesa de Goa na diáspora” – como se autointitula – à agência Lusa.

 Um cenário que a tabela de horários, fixada no exterior, reflecte. O concani (língua local) e o inglês dominam os dias da semana, abrindo apenas uma excepção ao domingo, que permite ao português entrar numa das cinco missas programadas para o “Dia do Senhor”.

 Cumprido o ritual da fé segue-se um outro: o da confraternização. “Como estão os teus filhos? Ficas até quando?”, ouve-se junto à escadaria da igreja, caiada de branco.

 À medida que a igreja se vai esvaziando, dois rapidamente passam a quatro, no exterior, onde os diálogos fluem em português, ainda que com uns estrangeirismos pelo meio, para colmatar falhas da memória daqueles que deixaram a terra há muitos anos.

 “Esta missa das 10:30 é também um encontro dos goeses e ajuda-nos a recordar os nossos tempos do liceu e os nossos amigos”, confirma Maria de Jesus, que deixou Goa rumo a Lisboa, poucos dias antes da invasão, em dezembro de 1961, a bordo do “Índia”.

 Apesar de ter partido para Portugal, Maria de Jesus nunca se desligou da terra natal, dedicando até o doutoramento à História de Goa.

 Zaro Delgado e a sua “paklina” (branca) – como o próprio descreve, em jeito de brincadeira, referindo-se à sua mulher – também não falham: “Já estamos aposentados e vimos cá todos os anos. Dá-nos muito prazer”.

 “Com toda a sinceridade, [vi-mos] também para fugir um bocadinho a todas as desgraças que ouvimos todos os dias”, confessa. “Aqui, [encontramos] amigos de longa data, comemos arroz de caril, a nossa comida… É uma maravilha”, diz, entre risos.

 Ao lado, Óscar Monteiro, um professor emigrado no Canadá que passa quatro ou cinco meses por ano em Goa, conversa sobre uma actividade cultural com Wilfred Miranda, amigo natural de Damão, mas que cresceu em Goa, donde nunca mais saiu.

 “Nasci cá e gosto disto e tenho familiares (aqui) também”, explica Óscar Monteiro.

 O encontro à porta da igreja, diz Wilfred Miranda, “é mais familiar do que os outros”. Messias Pereira, emigrado na Suíça, e também médico de profissão, concorda: “A igreja matriz de Pangim é um dos centros importantes de convívio”.

 Mas, não muito longe dali há outros: “Vamos para o Clube Vasco da Gama, onde toma-mos bebidas e cultivamos a língua portuguesa”, assinala.

 Apenas pela segunda vez no mais pequeno estado indiano, encontra-se Lourenço Marques, para uma visita ao filho, o qual se dedica há três anos ao ensino do português em Goa, terra de que “é um amante incondicional”, nas palavras do pai. “Ele é praticamente goês”, descreve.

 “Goa tem, de facto, um ambiente que nos recorda Portugal”, observa Lourenço Marques.

 

* Goa: Azulejos e fados  – um “cheirinho” a Portugal

          

 Um dedica-se à arte de pintar o azulejo, outro mostra habilidade na guitarra portuguesa. Orlando de Noronha e Franz Schubert Cotta acabam por ajudar a recriar, na distante Goa, um “cheirinho” de Portugal.

 Embora desenrolada num tempo e espaço diferente, a história de Orlando de Noronha e Franz Schubert Cotta tem um ponto comum: foram para Portugal aprender com os mestres guitarra portuguesa.

 Orlando Noronha partiu para Coimbra, onde permaneceu dez meses, à boleia de uma bolsa, após concluir a licenciatura em Publicidade, em 1997.

 Para o azulejo despertou depois de espreitar a arte de Fernando Martins, um amigo da família goesa que o acolheu. “Fui para aprender guitarra, mas como também me agradavam as artes, acabei por gostar”, explica Noronha.

 “Nunca pensei que ia começar uma fábrica de azulejos”, diz, relatando as dificuldades iniciais, em 1999. Apesar de “haver painéis trazidos pelos portugueses antes de 1961, no Instituto Menezes Bragança [em Pangim] ou em Cana-cona (sul), acho que nunca tinha existido uma fábrica de azulejos”, aponta.

 De Coimbra saiu com um livro sobre o tema oferecido na hora da despedida pelos colegas da Estudantina Universitária – com a qual chegou a tocar.

 No regresso a Goa, sempre que ia a casa de amigos e de familiares, levava o catálogo. Porém, lembra, “não acreditavam que era capaz de fazer aquilo”.

 Mas o primeiro projecto não tardaria: “Tive sorte com a abertura do hotel Taj Exotica em Benaulim (sul) porque a arquitectura era indo-portuguesa e eu já tinha falado ao gerente a respeito dos azulejos”, conta Noronha.

 Pouco tempo depois do painel sobre as Fontainhas, único bairro luso-goês, executou, em 2002, um outro para o Intercontinental sobre a viagem marítima de Vasco da Gama.

 Com oito artesãos, a fábrica em Santa Inês já não é a única, porque alguns dos funcionários acabaram por se lançar sozinhos, indica Noronha, estimando os concorrentes em “quatro ou cinco”.

 Anos mais tarde abre, em Pangim, uma pequena galeria de arte, onde se ouve um fado e se destaca, numa das paredes, uma fotografia de 2007, em que Noronha aparece a receber do Presidente da Re-pública, Cavaco Silva, uma guitarra portuguesa.

 Um presente que surgiu após uma conversa com a fadista Kátia Guerreiro em que expressou o desejo de voltar a ter o instrumento, dado que o seu se estragara devido ao clima de Goa.

 O povo goês “respondeu bem” e o negócio vai-se fazendo. “Também vêm estrangeiros, mas a maioria só a ver. O azulejo pesa muito para levarem”, justifica.