Mia Couto distinguido com o Prémio Camões

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Mia Couto distinguido com o Prémio Camões

O Prémio Camões foi atribuído na segunda-feira a Mia Couto, disse a Secretaria de Estado da Cultura. Mia Couto é o vencedor da 25.ª edição do prémio, que distingue um autor da literatura portuguesa. O anúncio do vencedor foi feito no Rio de Janeiro, onde o júri se reuniu.

 O júri integrou os escritores José Eduardo Agualusa e João Paulo Borges Coelho, o jornalista José Carlos Vasconcelos, a catedrática Clara Crabbé Rocha, o crítico Alcir Pécora e o embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva.

 A reunião decorreu no Palácio Gustavo Capanema, sede do Centro Internacional do Livro, Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

 O Prémio Camões foi criado em 1988 por Portugal e pelo Brasil para distinguir um autor de língua portuguesa que, “pelo valor intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum”.

 Em 2012 foi atribuído ao escritor brasileiro Dalton Trevi-san e no ano anterior ao es-critor português Manuel António Pina.

 Ferreira Gullar (2010), Arménio Vieira (2009), António Lo-bo Antunes (2007), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Pepetela (1997), José Saramago (1995) e Jorge Amado (1994) também já foram distinguidos com o Prémio Camões que, na primeira edição, reconheceu a obra de Miguel Torga.

 Em 2006, o escritor angolano José Luandino Vieira recusou o prémio.

 

* Mia Couto “surpreendido” e “muito feliz” por ter vencido

 

 O escritor moçambicano Mia Couto disse que ficou surpreendido por ter sido o vencedor da 25.ª edição do Prémio Camões, tendo ficado “muito feliz” com esta distinção, num dia que, revelou, não lhe estava a correr de feição.

 “Recebi a notícia há meia hora, num telefonema que me fizeram do Brasil. Logo hoje, que é um daqueles dias em que a gente pensa: vou jantar, vou deitar-me e quero me apagar do mundo. De repente, apareceu esta chamada telefónica e, obviamente, fiquei muito feliz”, avançou à agência Lusa Mia Couto, sem adiantar as razões que lhe provocavam tal sentimento.

 Mia Couto disse que “não esperava” ser distinguido com este prémio e acrescentou: “Não espero nunca uma coisa destas. Tenho com os prémios uma relação de distância, não de arrogância, mas pensando que não vale a pena olhar para eles porque a gente traba-lha por outra razão, que são outros prémios mais importantes que este”.

 Mia Couto reforçou que “um escritor ou qualquer outro artista que começa a piscar o olho a um prémio fica cego”, brincando com o nome do galardão com que foi distinguido ao acrescentar que, quem o faz, “tem o olho como o Camões”.

 O escritor concordou que os seus livros têm cada vez maior aceitação fora do universo da língua portuguesa, afirmando que seria “mentira” se o negasse.

 “Mas vejo isso como alguma coisa que eu alimento como uma missão, como uma espécie de uma responsabilidade minha, embora ninguém me tivesse incumbido dessa coi-sa”, sublinhou.

 O vencedor da edição deste ano do Prémio Camões destacou que a distinção ajuda a promover a imagem de Moçambique no exterior, frisando que ainda recentemente esteve no Canadá, na Colômbia e nos Estados Unidos e muita gente ignorava a própria existência daquele país africano, “tão periférico e tão desconhecido”, como o classificou.

 “Tomar conhecimento da rea-lidade de um país através das histórias é a melhor maneira possível e sinto-me muito bem fazendo isso”, admitiu.

 Segundo Mia Couto, este prémio é também um “contributo” para acabar com o pessimismo em torno de tudo o que diz respeito ao continente africano.

 “Acho que é bom que este continente dê contas de si e sinais de si por via da produção artística”, assinalou.

 Sobre o valor monetário que acompanha o prémio, Mia Couto disse à Lusa que ainda não pensou na utilização que lhe dará.

 “Não pensei. E, também, se pensar, não digo a ninguém, digo só à minha mulher e aos meus filhos”, afirmou.

 

* PERFIL: Mia Couto, o  inventor de palavras

          

 Mia Couto, autor de “Jesu-salém” e de “O Último Voo do Flamingo” e que venceu a 25.ª edição do Prémio Camões, estreou-se com um livro de poesia, publicado há exactamente 30 anos.

 “Raiz de Orvalho”, a obra, surgia então contra a corrente da poesia militante e panfle-tária, que marcava a época, depois de os primeiros textos do escritor terem já aparecido em duas antologias de auto-res moçambicanos, marcados pela tradição e a memória cultural do continente, e pelo “falinventar” português, de que o escritor fez a sua assinatura.

 Mia Couto “é um elo vivo de toda a tradição portuguesa e de todo o espaço da língua portuguesa”, disse o pensador Eduardo Lourenço no final de 2011, quando o autor de “Cronicando” foi distinguido com o Prémio que leva o seu nome. “Merece qualquer espécie de prémio”, disse então Eduardo Lourenço.

 António Emílio Leite Couto, Mia Couto, nasceu em 1955, na Beira, numa família originária de Portugal. Em 1971, iniciou os estudos de Medicina na antiga Universidade de Lourenço Marques, actual Maputo, associando-se então à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).

 Depois do 25 de Abril de 1974, interrompeu a formação, para trabalhar como jornalista, primeiro em A Tribuna, com Rui Knopfli, depois na Agência de Informação de Moçambique, que dirigiu. Seguiram-se a revista Tempo e o Notícias, até 1985, quando ingressou na Universidade Eduardo Mondlane, onde se formou em Biologia e onde é actualmente investigador e professor de ecologia.

 Após o primeiro livro, seguiram-se, entre outros, “Tradutor de Chuvas”, também de poesia, “Vozes Anoitecidas”, livro de contos com que se estreou na ficção, a que se sucedeu “Cada Homem é uma Raça”, “Estórias Abensonhadas”, “Contos do Nascer da Terra”, “Na Berma de Nenhuma Estrada”, “O Fio das Missangas”.

 “Cronicando”, “O País do Queixa Andar”, “Pensatempos” testemunham o domínio da crónica, que Mia Couto viria a reunir também em “Textos de Opinião”. Reflectiu sobre a vitória de Barack Obama, nas presidenciais norte-americanas de 2008, num texto que daria nome à nova colectânea, “E se Obama fos-se Africano? e Outras Interinvenções”, publicada em Portugal em 2009.

 No romance estreou-se com “Terra Sonâmbula”, na vira-gem da década de 1980 para a seguinte, obra que foi considerada um dos melhores livros africanos do século XX, Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos.

 Seguiram-se “A Varanda do Frangipani”, “Mar Me Quer”, concebido para o pavilhão de Moçambique na EXPO’98, “Vinte e Zinco”, “O Último Voo do Flamingo”, “Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra” (adaptado ao cinema por José Carlos Oliveira), “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”, “Jesusalém”, “A Confissão da Leoa”.

 Para os mais novos escreveu também “O beijo da palavrinha”, publicado com ilustrações de Malangatana, “O Gato e o Escuro”, “A Chuva Pasmada”, “O Outro Pé da Sereia”.

Mia Couto foi distinguido já com o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra, o Prémio União Latina 2007, de Literaturas Românicas, o Prémio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, do Brasil, e o Prémio Eduardo Lourenço, entre outros. É membro da Academia Brasileira de Letras.

 Em 2011, quando lhe foi entregue o Prémio Eduardo Lourenço, o pensador português, disse esperar que Mia Couto “seja um dos autores de origem portuguesa tão universal como a sua própria obra, que já é hoje”.

Homenageado há dois anos, em Penafiel, nas Escritarias, Mia Couto deixou o apelo para o tempo presente: “É preciso sair à rua, é preciso revoltarmo-nos, é precisa esta insubordinação”.

 Mia Couto é o segundo escritor moçambicano distinguido com o Prémio Camões, depois de José Craveirinha em 1991.