Mega projecto multimilionário coloca em risco o bairro dos lusodescendentes de Malaca

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Mega projecto multimilionário coloca em risco o bairro dos lusodescendentes de Malaca

Um empreendimento multimilionário de ilhas artificiais em frente ao bairro dos luso-descendentes de Malaca, na Malásia, está a pôr em risco a continuidade da comunidade iniciada há mais de 500 anos, alertam vários residentes.

 "A reclamação da terra está a destruir a zona pesqueira" e a segunda fase do projecto irá "reclamar directamente do povoado português o pouco espaço que temos", levando o bairro a "desaparecer", avisou Martin Theseira, presidente do Comité de Acção para Salvar os Portugueses.

 O empreendimento chinês, conhecido com Melaka Gateway e iniciado em 2014, terá áreas residenciais, um hotel de sete estrelas, centros comerciais, um parque temático, um museu e a maior marina privada do Sudeste Asiático, prevendo-se a criação de 15.000 postos de trabalho.

 Martin Theseira lembrou que o Portuguese Settlement (Povoado Português, em inglês), criado em 1928 para acolher os descendentes dos portugueses que aqui chegaram em 1511, depende do mar também por uma questão de identidade cultural e por causa do turismo.

 Os vários restaurantes voltados para a costa, que atraem turistas pelo seu "marisco português", podem ter os anos contados, porque no horizonte já se avistam barcos parados e várias obras, incluindo um edifício de dezenas de andares erguido no mar.

 "[O Melaka Gateway] tem estragado tudo", lamentou James Saviage, um pescador de 61 anos que falou à Lusa debaixo de uma árvore onde jaz uma cruz com a insígnia "RIP" ("Descanse em paz") outrora usada em protestos.

 Agora os pescadores "querem sair e é muito difícil, porque não há água", lamentou.

 As construções e o consequente assoreamento têm afastado o peixe e dificultado o trabalho, exigindo por vezes três horas de espera para conseguir lançar os barcos no mar.

 Martin Theseira alertou também que as indemnizações estão a deixar de fora cerca de 100 pessoas que se dedicam à pesca costeira, porque "não têm licença", algo que não lhes é exigido.

 Segundo o mesmo responsável, o governo fez dois pagamentos de "3200 ringgites [679 euros]" a cada pescador "por causa das eleições de 2013", mas "muitas pessoas aproveitaram-se disso".

 Porém, defendeu que o executivo deveria antes oferecer-lhes "oportunidades para fazerem pequenos negócios", um fundo para a educação dos filhos ou habitação.

 Segundo Martin Theseira, dezenas de pessoas têm-se manifestado contra o projecto em protestos não por causa das indemnizações, mas acusando o governo de "estar a es-vaziar o areal sem consultar" o sector, colocando a segurança dos pescadores em risco.

 O mesmo lusodescendente lembrou que a reclamação de terras levou à desintegração de outras aldeias de luso-descendentes na região.

 Michael Singho, presidente da Associação dos Euro-Asiaticos Portugueses de Malaca, afirmou que o projecto está a ser "administrado de forma muitíssimo má pelo governo e pelo promotor", e não envolveu a comunidade desde o início.

 O mesmo responsável avisou que "a qualidade da água já está afectada" e que a reclamação de terra está a 200 metros da costa, quando, de acordo com a legislação, deveria ficar a 750 metros.

 Michael Singho espera que "Portugal e o resto do mundo luso" possam ajudar na defesa da comunidade de cerca de mil pessoas que ainda festeja festas tipicamente portu-guesas, como os Santos Populares.

 Raymond Lopez, chefe da comunidade até dezembro último, disse que existe a intenção de se fazer um "cais para os barcos" como contrapartida para os pescadores, considerando que o Melaka Gateway pode trazer mais empregos para as pessoas da comunidade.

 O antigo líder deu ainda conta de limitações no terceiro pagamento das indemnizações, porque no segundo pagamento houve pessoas que "nunca pescaram na vida, mas obtiveram indemnizações".

 Havia "92 pescadores registados no departamento de pescas, mas quando eles receberam o dinheiro do governo, eram 239 pescadores", disse.

 Para Raymond Lopez, o poder negocial dos pescadores quanto à natureza do projecto ficou reduzido a partir do momento em que eles aceitaram receber indemnizações.

 Na mesma linha, o seu sucessor, Richard Hendricks, realçou que a maioria dos pescadores do bairro quer que as futuras gerações escolham outras carreiras longe das redes de pesca, sendo que o Melaka Gateway pode significar mais empregos.

 "Tenho de trabalhar com o governo para garantir que a minha cultura continua "e tornar o povoado português "mais bonito" para atrair turistas, frisou.

 Também Joseph Sta Maria, representante das minorias junto da administração de Malaca, defendeu que "não vale a pena lutar uma batalha que sabes que vais perder", lembrando que está em causa um projecto de "40 mil milhões [de ringgites]" (8,560 mil milhões de euros) e que envolve "pessoas com poder".

 O lusodescendente considerou que uma luta "inteligente" deve passar pela cooperação com os responsáveis, tentando obter o máximo de contrapartidas, como habitações para os pescadores.

 Nadia Adnan, da Unidade do Planeamento Económico de Malaca, respondeu à Lusa que a administração local está aberta a discutir o problema com os pescadores e com a comunidade em geral, dando conta de encontros agendados.

 Martin Theseira saiu satisfeito da reunião de dezembro com as autoridades locais, que pareceram "sérias" em resolver problemas detectados, como os efeitos da construção nas "águas marinhas e nos recursos de pesca", e em requerer os documentos necessários para dar luz verde aos trabalhos. A empresa KAJ Development foi recentemente ordenada a parar as obras até o estudo sobre o impacto socioeconómico do projecto estar concluído.

 O presidente do Comité de Acção para Salvar os Portugueses afirmou ainda esperar que os promotores do Melaka Gateway passem a participar nas reuniões com a comunidade e a administração local.