Marcelo veta diploma que impedia Câmara de Lisboa de concessionar Carris no futuro

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Marcelo veta diploma que impedia Câmara de Lisboa de concessionar Carris no futuro

O Presidente da República vetou na quarta-feira o diploma que introduzia alterações ao decreto sobre a transferência da Carris para a Câmara de Lisboa, considerando abusivo que se proíba qualquer concessão futura da empresa.

 “O presente decreto impõe ao Governo e às autarquias locais um regime que proíbe qualquer concessão da Carris mesmo que tal possa vir a corresponder um dia à vontade da autarquia local”, lê-se numa nota divulgada no ‘site’ da Presidência da República sobre a decisão do Chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, de devolver à Assembleia da República sem promulgação a primeira alteração ao diploma que passou a gestão da Carris para a Câmara de Lisboa.

 Na nota, Marcelo Rebelo de Sousa considera que “vedar taxativamente” uma concessão futura “representa uma politicamente excessiva intervenção da Assembleia da República num espaço de decisão concreta da Administração Pública – em particular do poder local, condicionando, de forma drástica, a futura opção da própria Autarquia

Local”.

 Sublinhando que a Assembleia da República deve “ter a oportunidade de ponderar de novo a matéria”, o Presidente da República nota que o legislador não deve intervir “de for-ma casuística” em decisões concretas da administração pública, “que têm de atender a razões de natureza económica, financeira e social mutáveis” e em que “ela está em melhores condições para ajuizar, até por se encontrar mais próxima dos problemas a re-solver”.

 “Mesmo que essa indesejável intervenção legislativa possa não ser qualificada de inconstitucional – e, por isso, não suscitar a correspondente fiscalização –, pode ser politicamente contraproducente, e, por isso, excessiva e censurável”, refere ainda o Presidente da República.

 O diploma que agora foi vetado teve origem numa apreciação parlamentar pedida pelo PCP que introduzia alterações ao decreto que levou à municipalização da Carris, mas não o revogava.

 Pois, a decisão de transferir a empresa para a Câmara de Lisboa apenas poderia ser anulada caso tivessem existido propostas de cessação dos decretos-lei, o que não aconteceu.

 Na altura da discussão da apreciação parlamentar, PS, PCP e BE manifestaram-se, aliás, contra qualquer possibilidade de revogação do decreto que determinou a municipalização da Carris e que tinha sido promulgado pelo Presidente da República no final de dezembro.

 As alterações agora vetadas pelo Presidente da República tinham sido aprovadas no parlamento em votação final global a 7 de Julho, com os votos favoráveis do PS, BE, PCP, PEV e PAN e os votos contra do PSD e do CDS-PP.

 Entre as alterações introduzidas, e além da proibição de qualquer concessão futura da Carris, estabelecia-se que os contratos colectivos de trabalho em vigor não poderiam ser objecto de qualquer modificação por parte das novas entidades proprietárias.

 A Câmara de Lisboa assumiu a 1 de Fevereiro a gestão da rodoviária Carris, 41 anos depois de a “ter perdido” para o Estado.

 

* Presidente  da República já usou o veto político cinco vezes

 

 O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, utilizou na quarta-feira pela quinta vez o veto político, tendo já devolvido por três vezes diplomas da Assembleia da República e ‘chumbado’ dois decretos do Governo.

 Marcelo Rebelo de Sousa usou o veto pela primeira vez em junho de 2016, ao fim de quase três meses de mandato, devolvendo à Assembleia da Republica o diploma sobre gestação de substituição para que a lei fosse “melhorada” e incluísse as “condições importantes” defendidas pelo Conselho de Ética.

 Na altura, o Chefe de Estado justificou a decisão com o argumento de que faltava na lei “afirmar de forma mais clara o interesse superior da criança ou a necessidade de in-formação cabal a todos os interessados ou permitir, a quem vai ter a responsabilidade de funcionar como maternidade de substituição, que possa repensar até ao momento do parto quanto ao seu consentimento”.

 Mais de um ano depois, em 26 de Julho, e após a introdução de alterações ao diploma inicial, o Presidente da República promulgou a nova lei sobre a gestação de substituição.

 A 25 de Julho de 2016, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a devolver um diploma à Assembleia da República, desta vez o decreto que alterava os

estatutos da Sociedade de Transportes Públicos do Porto (STCP) e da Metro do Porto, por "vedar, taxativamente, qualquer participação de entidades privadas".

 Dois meses depois, a 30 de Setembro de 2016, o Presidente usou pela terceira vez o poder de veto, ‘chumbando’ pela primeira vez um decreto do Governo: o diploma que obrigava os bancos a informar a Autoridade Tributária sobre as contas bancárias de residentes em território nacional com saldo superior a 50 mil euros.

 Marcelo Rebelo de Sousa justificou o veto ao decreto do Governo sobre acesso da Autoridade Tributária a informação bancária com a consideração de que era de uma "inoportunidade política" evidente, num momento de "sensível consolidação" do siste.ma bancário.

 O quarto veto do Presidente da República aconteceu já este ano, a 14 de Março, e novamente a um decreto do executivo socialista liderado por António Costa.

 O Chefe de Estado vetou o novo Estatuto dos Militares da Guarda Nacional Republicana (GNR), considerando que a possibilidade de promoção ao posto de brigadeiro-general podia “criar problemas graves" à GNR e às Forças Armadas.

 Agora, Marcelo Rebelo de Sousa utilizou pela quinta vez a ferramenta constitucional do veto, devolvendo à Assembleia da República o diploma que introduzia alterações ao decreto sobre a transferência da Carris para a Câmara de Lisboa, considerando abusivo que se proíba qualquer concessão futura da empresa.

 De acordo com a Constituição, no caso de vetos a diplomas do parlamento, se a Assembleia da República decidir não alterar um diploma que tenha sido devolvido e confirmar o voto por maioria absoluta dos deputados em efetividade de funções (116 parlamentares), o Presidente da República deverá promulgá-lo no prazo de oito dias a contar da sua recepção.

 Até agora, e desde que iniciou o mandato, a 9 de Março de 2016, o Chefe de Estado nunca enviou um diploma para o Tribunal Constitucional para fiscalização preventiva ou sucessiva da constitucionalidade.