Manuel Escórcio: orgulho artístico português na África do Sul

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  No pequeno diálogo que travamos com o artista Manuel Escórcio no penúltimo sábado, 19 de Setembro, nas proximidades de Bela-Bela, na propriedade residencial do empresário e bem conhecido em termos positivos na nossa comunidade, o sul-africano Danny, onde por sinal foi comemorado na ocasião o seu aniversário natalício, daí na festa de arromba com jantar servido a mais de meia centena de pessoas, ficarmos a saber que esse credenciado “tenor” português, nascido em Moçambique, viera de tenra idade, isto em Setembro de 1966, com seus pais para a África do Sul, no intuito do agregado familiar aqui passar a viver.

  Filho de gente modesta, daí ao que nos referiu, o agregado familiar nunca ter até essa altura um simples carro, todas as deslocações familiares serem feitas de autocarro ou boleia de alguns amigos, Manuel Escórcio começou por frequentar neste país a instrução primária na Heidelberg Primary School.

  Foi nessa localidade, algum tempo depois, que ao cantarolar na tarde de certo dia, quando tomava banho no chuveiro, o preceptor do dormitório ao escutar no corredor do complexo a sua voz, em querer imitar o consagrado Mário Lanza, lhe ter convidado a ir ao edifício de música da região, para avaliação da voz e respectivo grau de competência, dando com o resultado animador apurado, que a partir daí não mais parasse de cantar. 

  Mais tarde e com aulas de canto na Faculdade de Música da Universidade de Stellembosh, concluir ali em 1979 o mestrado nessa especialidade, apenas lhe faltando o doutoramento, que não concluiu por na altura a ópera lhe telefonar a oferecer o dobro do salário que então auferia, isto para começar.

  O que lhe fez a agarrar com unhas e dentes essa oportunidade, em boa hora o fazendo, já que não demorou a ganhar o prémio nacional de ópera, e com isso a abrirem-se boas perspectivas quanto ao futuro na sua carreira.

  Ao aperceber-se a partir de certa altura que a ópera neste país provavelmente não iria muito longe, começou a optar pela música ligeira, daí em espectáculos da especialidade e respectiva venda de “CDs”, a sua vida financeira disparar estrondosamente rumo a um sucesso inacreditável, tendo o seu recorde em espectáculos atingido um número superior a quinhentos e cinquenta, entre as que especificou de vinte e três viagens à América, catorze à Austrália, três ao Canadá, três ao Brasil e duas ao México, cantando ainda por duas vezes no Alasca.

* Eleito na África do Sul como principal “tenor de ópera”

  Eleito na África do Sul como principal “tenor de ópera”, cantou em mais de quarenta locais, desde interpretações de flauta mágica de Monzart, ao barbeiro de Sevilha de Donizett, e o estudante Princípe de Lehar, sendo pelos inúmeros fãs seus devotos, escolhido entre 1986 e 1990 como cantor mais popular da África do Sul.

   Em três das suas vinte e sete gravações alcançou o estatuto de disco de ouro e um de platina, a par do intitulado “compacto sinfonia de louvor” com distinção, como melhor “CD” evangélico em 1996.

  Graduado em 1972 no Heidelberg College com o diploma de teologia, e embora tivesse planeado trabalhar como pastor, o seu talento musical o desviou desse alvo, para a emoção da execução musical em público, estudando com professores de mérito na África do Sul e na Inglaterra, este grande “tenor” da comunidade portuguesa acabou com todo o mérito por ser condecorado pelo governo português com a comenda da ordem do Infante Dom Henrique.

  Depois de em 1992 enfrentar o sentimento de um vazio pessoal, Manuel Escórcio volveu às suas raízes religiosas algo mais positivo, do que apresentações centradas no “eu”, mas servir a Deus plenamente, e como astro da ópera não estar ali apenas  para fazer estardalhaço, mas que para as pessoas o vissem não apenas como o “ tal”, mas com toda a experiência vocal e exibições que podia fazer.

  “Não estava nisso para cantar mais alto ou mais baixo do que fulano ou sicrano a meu lado, mas em música se poder tornar um instrumento para (Ele) de voz imbuída com o Espírito Santo, no fundo o melhor para que musicalmente nunca me tivesse sentido mais feliz.

  Estava cansado de um mundo vazio e cheio de orgulho da ópera, lugar como muito solitário haver sempre uma dúzia de cantores esperando pelo momento em que a sua voz poderia falhar, e ninguém estar para o ajudar.

  Em termos comparativos da ópera poder ser também classificada de mundo desequilibrado e com tendência para a superficialidade, daí que com todo o dinheiro, fama e louvor, era mesmo assim infeliz, levando-me a descobrir que a melhor maneira de falar com Deus, era seguir uma vida sã e honesta, daí procurar conservar-me sempre em boa forma, com alimentação de modo a manter-me sadio e bom nível de energia.

  Ando normalmente sozinho a apreciar o encanto da natureza, ouço boa música, leio bons livros e deito-me no amor de Deus, para assim poder ser um pequeno instrumento na rota da vida que vem do Altíssimo, e como Pai nos mostrar que nunca devemos pôr de lado nossos preconceitos e fazer música que atraia as crianças a Cristo, e nunca abandonar Jesus pelo que outra pessoa nos possa dizer, ter feito ou dito, porque ser especial significa ser diferente interiormente em boas atitudes e decisões”.

  Nesta actuação a que nos referimos, Manuel Escórcio não obstante a sua alta craveira artística, diremos mesmo mundialmente conhecida, mostrou-se pela maneira simples, franca e aberta como com todos conviveu, nunca se pondo em bicos de pés, bem pelo contrário, comunicativo com todas as pessoas, e com essa postura de simpatia mostrar como em modéstia e sem arrogância se deve levar a vida, e o bom humor ser essencial para prolongar os dias que por cá andamos.

  Cantando com alma na voz, este nosso compatriota encantou sempre nas suas alegres interpretações quem o ouvia, e com isso contagiar quem o escutava, deixando a quem pessoalmente não o conhecia, uma grande admiração quanto à sua personalidade, e como tal, contribuir para o conceito positivo, de quem porventura antes o fizesse negativo da nossa comunidade.  

  Recorda-se a propósito que Manuel Escórcio, de palmarés musicais impressionante,  não obstante a elevada classe conseguida no meio artístico, já ter cantado em modestas colectividades e instituições lusas, entre as quais em Pretória, na ACPP e na Casa do Porto, sendo por outro lado como convidado de honra, a actuar na chegada em 1988 a Mossel Bay, da Caravela Bartolomeu Dias, a repetir os quinhentos anos da viagem desse grande navegador português, a originar a edificação em Arcádia Park, da capital sul-africana, a expensas do comendador António Braz, do monumento evocativo ao ilustre navegador dessa época, e no dia da sua inauguração o oferecer à Câmara Municicipal de Pretória, edilidade ali representada no evento, pelo então Mayor desta cidade jacarandá, dr. Jacobs.