Manter viva a tradição de festejar os Santos Populares

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Manter viva a tradição de festejar os Santos Populares

Depois das celebrações do Dia de Portugal na diáspora, vêm logo a seguir os festejos dos Santos Populares. Saídos da terra natal há dezenas de anos, os emigrantes portugueses mantêm, bem longe das origens, as celebrações das festas vividas nas suas aldeias, vilas e cidades, não só como pretexto de aglutinação e convívio mas também como forma de dar satisfação ao bem-estar espiritual, o verdadeiro motor para ultrapassar as dificuldades e vencer os desafios do dia-a-dia.

  Junho é também o mês dos Santos Populares.

   Amanhã, dia 13, Lisboa, actualmente em estado de grande euforia, festeja o seu Santo António. Os arraiais de rua nos bairros históricos, com petiscos da culinária portuguesa, a celebração dos Casamentos de Santo António, esta manhã junto à Sé, e o desfile das Marchas Populares, à noite da Rotunda do Marquês de Pombal à Praça dos Restauradores, voltam já hoje a manter viva a tradição das Festas de Lisboa, animando a cidade em dia de véspera do feriado municipal.

  No dia 24, o Porto e muitos outros concelhos do País celebram o São João. E o ciclo deste triunvirato de figuras virtuosas da Igreja encerra a 29 com festas em honra de São Pedro.

  Também por aqui se festeja a época dos Santos Populares à portuguesa, com cerimónias religiosas nas igrejas da comunidade e arraiais e folclore nos seus adros e salões paroquiais. E este ano, por coincidência, a gala de aniversário da Academia do Ba-calhau de Joanesburgo, que marca a entrada no ano das Bodas de Ouro da tertúlia, será vivida no Dia de S. João.

  Pelo caminho, por não haver tempo para tanto trabalho, já se perderam as marchas populares, que chegaram a desfilar nos recintos dos clubes, engalanados com arcos e coloridos balões iluminados com velas no seu interior. E igualmente os casamentos de Santo António, que por uma vez se realizaram na Igreja que em Joanesburgo tem o Santo por patrono, repetindo o espírito que o retomado evento tem em Lisboa – possibilitar, com a pompa que a cerimónia merece, o matrimónio a casais com maiores dificuldades económicas.

  Mas como é que a designação de casamenteiro surge associada a Santo António?

  Figura popular da Igreja, Santo António – o único português dos três Santos Populares – enfrentou em Pádua, cidade italiana onde viveu parte da sua vida e onde veio a falecer a 13 de Junho de 1231, um governante tirano, de nome Erzelino, que mandara publicar um decreto segundo o qual as pessoas deveriam le-var idêntico dote para o casamento. Assim, rico casaria com rico e pobre casaria com pobre.

  Porque se casava mais com a “carteira” e menos com o coração, a população da cidade revoltou-se e Santo António enfrentou o ditador na praça pública. Tal foi a força da sua argumentação que Erzelino se viu obrigado a revogar o contestado decreto.

  Santo António foi levado em triunfo pelo povo e desde então aclamado como o “santo casamenteiro”.

  Santo António, que nasceu em Lisboa a 13 de Setembro de 1191, viveu 39 anos. Onze meses após a sua morte foi canonizado pelo Papa Gregório IX. Em 1934, foi declarado Padroeiro de Lisboa, cidade que tem S. Vicente como seu primeiro Patrono, e, em 1946, o Papa Pio XII proclamou-o Doutor da Igreja.

  Filho de Martinho de Bulhões e Teresa Taveira, de famílias ilustres, recebeu o nome de Fernando no baptismo na Sé de Lisboa. Aos 15 anos, entrou para o Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, tendo depois pedido para ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra. Ali fez os cursos de Filosofia e Teologia e foi ordenado padre.

  Era nesse mosteiro de Coimbra que se hospedavam os frades Franciscanos do Convento de Santo António dos Olivais, quando viajavam para evangelizar Marrocos.

  Pouco tempo depois, os restos mortais desses frades, martirizados em África, voltaram a Portugal, para serem sepultados em Coimbra, onde morava o Rei de Portugal. Nessa ocasião, Santo António sentiu grande desejo de evangelizar Marrocos. Por isso, no Verão de 1220, entrou para a Ordem dos Franciscanos, mudou seu nome para António, que era o titular do convento franciscano dos Olivais, e foi mandado para o norte de África.

  No início de Novembro de 1220, o padre António desembarcou na costa africana, mas uma terrível enfermidade reteve-o na cama durante todo o Inverno e teve que regressar a Portugal. Nessa viagem, o navio foi levado pelos ventos para a Itália. Desem-barcou na Sicília e dirigiu-se para a localidade de Assis, onde se encontrou pela primeira vez com São Francisco. Participou, então, num Capítulo Geral da Ordem, que começou a 20 de Maio de 1221.

  Não demorou para se revelar como um excelente orador e pregador, tendo feito em Setembro de 1221 o sermão em Forli, na ordenação sacerdotal de franciscanos e dominicanos. Surpreendeu o Provincial e todos os religiosos ficaram maravilhados.

  Por isso, o Provincial encarregou-o da acção apostólica contra os hereges na região da Romanha. e no norte da Itália, onde se tornou um extraordinário e popular pregador.

  Em Rimini, os hereges impediam o povo de ir aos seus sermões. Então, apelou para que um milagre acontecesse. Foi à costa do Adriático e começou a pregar aos peixes, os quais acorreram em cardumes, mostrando a cabeça fora de água. A notícia deste milagre espalhou-se pela cidade com entusiasmo e os hereges ficaram envergonhados.

  Após alguns anos de frade itinerante, foi nomeado por São Francisco como o primeiro Leitor de Teologia da Ordem. Mas, este magistério de teologia para os franciscanos de Bolonha demorou pouco porque o Papa mobilizou todos os pregadores dominicanos e franciscanos para combater a heresia albigense na França.

  Por isso, passou três anos, leccionando, pregando e fazendo milagres no sul da França – Montpellier, Toulouse, Lê Puy, Bourges, Arles e Limoges. Como nessa ocasião ocupava o cargo de custódio do Convento de Limoges, foi a Assis participar no Capítulo Geral da Ordem, convocado por Frei Elias, a 30 de Maio de 1227. Nesse Capítulo foi eleito Provincial da Romanha, cargo que ocupou com êxito até 1230. Em 1229, foi morar com os seus irmãos franciscanos, perto de Pádua, no convento de Arcella, em Campo-sampiero.  Nesse lugar retirado, dedicou-se, a pedido do Cardeal de Óstia, a escrever os sermões das festas dos grandes santos e de todos os domingos do ano. Mas sempre saía para pregações, por exemplo, durante a Quaresma, até morrer, por uma hidropisia maligna, na sexta-feira, de 13 de Junho de 1231.

  Se Lisboa o tem naturalmente como Patrono, o Porto escolheu como seu Santo protector São João, associando as fogueiras à sua festa popular, celebrada com feriado municipal a 24 de Junho.

  E porquê as fogueiras e a festa de as saltar?

   Trata-se de uma herança bíblica.

   João Baptista era filho de Isabel, prima de Maria – a mãe de Jesus – e de Zacarias, um sacerdote do Templo. As primas Isabel e Maria ficaram grávidas na mesma época e combinaram que o sinal que avisaria quem primeiro fosse mãe seria uma fogueira. Assim foi feito e quando Isabel deu à luz João Baptista, logo foi acesa uma fogueira.

  Recorde-se, ainda, que João Baptista começou a pregar muito cedo, no deserto da Judeia e nas margens do rio Jordão, baptizando, todos aqueles que o seguiam, com água – sinal de pureza – inclusive o próprio Cristo.

  João Baptista, quando baptizava, pregava um baptismo de conversão anunciando a vinda de um Salvador, pois o reino dos céus havia chegado.

  João saúda Jesus como o Cordeiro de Deus, uma referência à imagem de Isaías do cordeiro levado para a matança para purgar os pecados e, talvez, referência também ao costume judeu de sacrificar um cordeiro na Páscoa. O certo é que São João passa a ser representado nos altares com um Cordeiro e também com uma Cruz.

  Fecha-se o ciclo das festas dos Santos Populares a 29 de Junho, data do martírio em Roma, sob as ordens do Imperador Nero, dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, os fundadores da Roma cristã, celebrados igualmente com grande solenidade no calendário litúrgico.

  São histórias da História, a contar aos nossos filhos e netos, dando-lhe a conhecer as tradições que celebramos e os factos que as fundamentam.

R. VARELA AFONSO