Magusto no Lar da SPB

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Magusto no Lar da SPB

Pelo calendário, a efeméride já passou na terça-feira e a ela encontra-se associada uma festa muito popular entre os portugueses. Refiro-me ao Dia de S. Martinho, com orago a 11 de Novembro, que as comunidades portuguesas no estrangeiro festejam na data convenientemente mais próxima.

  Em Joanesburgo sê-lo-á no próximo fim de semana de 19, 20 e 21 de Novembro, por iniciativa da Sociedade Portuguesa de Beneficência da África do Sul, que mantem esta fes-ta como a mais tradicional do seu programa anual de actividades, no âmbito da angariação de fundos para a manutenção do lar da terceira idade, que acolhe os mais idosos da nossa comunidade. Este ano com o grande apoio da Academia do Bacalhau de Joanesburgo.

  E, neste particular momento de grande turbulência para as finanças públicas portuguesas, se não for a comunidade e as suas instituições, através da sua generosidade, a olha-rem pelos carenciados, mais ninguém os ajuda, isto precisamente numa altura da vida em que, faltando-lhes a força, a saúde e os recursos económicos, merecem viver com dignidade.

  Solidariedade com qualidade é o lema da nova Direcção da SPB, que pela primeira em quarenta anos de existência tem uma mulher como presidente.

  Para que esta maravilhosa obra do Lar da SPB sobreviva, temos que continuar a promover uma cultura de solidariedade de forma a atenuar, nestes tempos difíceis, os efeitos do desemprego, que torna as famílias mais pobres e que se reflecte no suporte aos idosos dependentes.

  Apoiar a Sociedade Portuguesa de Beneficência constitui um dever social de todos e cada um dos membros da nossa comunidade, porque esta responsabilidade cívica de manter a coesão social, acudindo aos excluídos, não pode ser só tarefa de alguns.

  Por isso, participar na Festa do Magusto é colaborar para uma situação de bem-estar dos idosos residentes no Lar e apreciar o esforço e a dedicação de quem o dirige. E para o dirigir, reconheçamos, é preciso estar-se animado de um verdadeiro espírito missionário. Lembremo-nos – como disse uma individualidade aquando da sua visita às instalações do Lar da SPB – que, quando empenhamos a alma pelos outros e encontramos nos outros a razão da nossa própria vida, há que agradecer a Deus essa bem-aventurança. Só é pena que que essa bem-aventurança sofra muitas vezes o alheamento de quem perde eleições e não saiba associar a generosidade à humildade.

  Centro de acolhimento de idosos da nossa comunidade, o Lar Rainha Santa Isabel também podia ter tido o nome de S. Martinho, porque à lenda das rosas, transformadas pela Rainha Santa no pão que mata a fome, pode associar-se a lenda do agasalho ou da sua falta, transformado por milagre de S. Martinho em manta para conforto dos pobres mais enregelados.

  Como exemplo de generosidade associado a esta época do ano, recordemos o que nos diz a lenda: num dia tempestuoso, de frio e chuva do rigoroso Inverno europeu, Martinho, um jo-vem soldado filho de um oficial romano, seguia montado no seu cavalo, quando viu um mendigo quase nú, que lhe estendia a mão suplicante e gelada. Sem hesitar, parou o cavalo, apoiou carinhosamente a sua mão na do pobre e, com a espada, cortou a meio a sua capa de militar dando metade dela ao mendigo.

  Acrescenta a lenda que quando Martinho, sob chuva torrencial e agora meio agasalhado, se preparava para continuar o seu caminho, a tempestade se desfez subitamente, o céu fi-cou limpo e um sol radioso inundou a terra de luz e calor.

  Acredita o povo que Deus, para que não se apagasse da memória dos homens o acto de bondade de S. Martinho, todos os anos por esta mesma época, cessa por alguns dias o tempo de frio nas regiões sob invernia e o céu e a terra sorriem com a benção de um sol quente e miraculoso.

  Praticante do ideal cristão de humildade e generosidade, Martinho deixou o exército e dedicou-se a evangelizar os seus conterrâneos, tornando-se Bispo de Tours, funções que desempenhou durante 26 anos, vindo a falecer a 11 de Novembro do ano de 397.

  Foi o primeiro dos santos não mártires a subir aos altares e o mais popular de França durante a Idade Média. A sua festa era de guarda e favorecida frequentemente pelos dias de “Verão de S. Martinho”, rivalizando na exuberância da alegria popular com a festa de S. João.

  Dada a diferença de paralelos a que os factos geograficamente acontecem, esperemos que “o Santo do Inverno que traz o Verão” não seja, por cá, “o santo do Verão que traz o Inverno” e que o tempo em Joanesburgo respeite a estação estival no fim de semana do Magusto.

  A manter-se o calor da época, fica o conteúdo da mensagem protagonizada pelo PadroeiRo dos Pedintes. A Sociedade Portuguesa de Beneficência também não pede a capa ou parte da capa de cada um de nós, mas somente a presença de muita gente na Festa do Magusto, porque é no consumo que está a receita desta iniciativa.

  Na Festa do Magusto português de Joanesburgo são precisas muitas Isabeis e neces-sários muitos Martinhos para, com a sua generosidade, ajudarem a Sociedade Portugue-sa de Beneficência a manter o Lar da Terceira Idade.

  A SPB promete receber os visitantes com uma festa bem portuguesa, com petiscos da nossa culinária tradicional, música e folclore.

  A castanha, tão apreciada pelos portugueses, ocupou um espaço importante no universo gastronómico de outros tempos, representando uma alternativa à batata quando esta faltava. O produto assumiu também uma vertente de caridade, já que as castanhas eram muitas vezes oferecidas aos trabalhadores rurais e outras pessoas de menos posses, quando havia excesso de produção.

  Ao contrário de então, a castanha está cara e passou a ser cartaz turístico da região transmontana que a produz, nomeadamente em Vinhais, onde se encontra instalado o maior assador de castanhas do Mundo.  Mas, em Joanesburgo, com pequenos assadores, o Magusto na Beneficência continua a ser o re-cordar de uma festa, com cunho tradicional, em que se podem cumprir os adágios criados para o Dia de S. Martinho – o de ir à adega e provar o vinho (substituindo ali “adega” por “bar”, já que por esta região as vindimas são lá para Fevereiro ou Março) ou de lume, casta-nhas e vinho (tomando “lume” por “churrasco”). Ou ainda de outros do rifoneiro nacional, com vinho a rimar com S. Martinho, mas sempre associando a poesia à realidade da vida, que sorri mais a uns do que a outros, lembrando que se nós temos o privilégio de pensar nos outros é porque não precisamos que os outros pensem em nós.

R. VARELA AFONSO