Lusito, Lusitolândia e as origens

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Lusito, Lusitolândia e as origens

A Lusitolândia é um Festival anual de cariz comercial e musical destinado à angariação de fundos para a Escola do Lusito, cuja sobrevivência esteve, no início, largamente dependente da Comunidade Portuguesa. Hoje, o Festival popularizou-se e é transversal a todas as comunidades.

  O Festival da Lusitolândia teve o seu início em 1983, nessa altura com uma festa de um dia de duração que, no entanto, atraíu cerca de 10.000 visitantes.

  Passados quatro anos, o Festival tornou-se num sucesso tão grande que foi decidido transformá-lo num projecto mais ambicioso, estendendo-se o arraial por cinco dias nos terrenos municipais do Parque de Wemmer Pan, em La Rochelle.

  Levado pelo desejo de angariar fundos para a Escola das crianças deficientes e como resultado de uma planificação cuidadosa e um suporte muito forte de toda a Comunidade, o Festival implantou-se como um dos grandes eventos populares da cidade de Joanesburgo, com centenas de milhares de visitantes.

  Este ano terá a duração de onze dias. Abriu na quinta-feira, 24 de Abril, e encerra no próximo domingo, 4 de Maio.

  A realização deste Festival da Lusitolândia leva-me a recordar o primeiro apoio que O Século de Joanesburgo deu ao projecto da fundação do Lusito quando há 35 anos fui contactado na Redacção do nosso jornal, ainda na Vanderbijl Square, na Baixa de Joanesburgo, por Valentina Gouveia, uma dedicada assistente social que, através dos casos que lhe surgiam no dia a dia do seu trabalho hospitalar, apurou a necessidade da criação de uma Associação Portuguesa de Pais e Amigos de Deficientes Mentais, conforme viria depois a designar-se a instituição.

  E Portuguesa porquê? Ora, se uma criança portadora de deficiência mental tem dificuldade em aprender uma língua, a que se fala em casa, ela terá obviamente mais dificuldades em compreender duas. Daí que não fossem tidos como animadores os resultados alcançados na recuperação de faculdades mentais por crianças a frequentar estabelecimentos sul-africanos de ensino especial onde a língua adoptada era diferente da caseira. Estava fundamentada a criação de um centro de apoio às crianças deficientes mentais existentes em famílias da  Comunidade Portuguesa.

  Foi assim que, depois de terem sido realizadas algumas reuniões com várias famílias interessadas no projecto, se efectuarem visitas a centros similares de apoio a crianças deficientes mentais e de se ter conseguido o empenho de elementos da Comunidade em regime de voluntariado social, surgiria o Lusito, uma instituição que visava tratar, dar educação e preparar o melhor possível para a vida as crianças que tivessem nascido com deficiências mentais ou contraído alguns tipos de lesões neurológicas durante a infância.

  Começava em Janeiro de 1979 uma grande obra social, animada pela força da esperança e na qual se podia acreditar. Ao grupo de fundadores pertence outro grande obreiro deste projecto, José Valentim, cujo mérito ainda não foi devidamente reconhecido. Ele foi o primeiro presidente da Direcção do Lusito e, antes disso, o líder da comissão que tratou da legalização da instituição junto das autoridades sul-africanas.

  Através de sucessivas campa-nhas de angariação de fundos, a Associação conseguiu construir uma sede e uma escola a que deu o nome de Lusito, em terreno de propriedade precária na Derby Road, em Judiths Paarl. Ali, ao longo de década e meia, com muita paciência do corpo docente, programas especiais de ensino e cuidados terapêuticos intensivos, operaram-se verdadeiros milagres na recuperação de crianças deficientes mentais.

  Há 16 anos, graças às receitas obtidas com a Lusitolândia, a Associação transferiu a Escola para propriedade própria situada em Regents Park. Desde então, as novas construções e os me-lhoramentos têm valorizado significativamente o complexo. As próximas obras serão – como disse na quarta-feira o actual presidente da instituição, Demétrio de Sousa, a modernização da recepção e a construção de balneares junto à piscina aquecida já existente.

  Tudo para ajudar melhor as crianças, agora que aquela obra de bem-fazer ultrapassou as fronteiras da nossa Comunidade e se tornou num serviço que a própria Comunidade presta a toda a sociedade sul-africana, incluindo as crianças deficientes vindas de famílias residentes neste País e oriundas de povos vizinhos de ex-pressão portuguesa.

  Com Direcções que se têm revelado dinâmicas – com destaque para as que no passado tiveram como presidentes os comendadores Fernando Marques e Luciano Aquino – e com a generosa ajuda de muitos benfeitores, o Lusito é hoje uma instituição consolidada e que prestigia a Comunidade que a fundou.

  Da nossa parte, e no momento em que está a funcionar mais uma edição da Lusitolândia, importa dirigir uma palavra de apre-ço aos milhares de portugueses que têm, com a sua dedicação e empenho, trabalhado voluntariamente e colaborado financeiramente para o desenvolvimento e afirmação de uma das maiores obras sociais deste País.

R. Varela Afonso