Luís Amado defende Governo do Bloco Central e critica ânsia dos partidos de esquerda pelo poder

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Antigo ministro Luís Amado defende Governo do Bloco Central e critica ânsia dos partidos de esquerda pelo poder

O antigo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, defende que um governo de bloco central seria o melhor para Portugal.

 O ex-ministro de José Sócrates sublinha que ainda não há acordo à esquerda e diz que este é como "misturar água com azeite". Na Grande Entrevista da RTP, Amado critica os partidos e as suas lideranças pela "fulanização da política" e pelo condicionamento dos partidos para com os "objectivos de curto prazo". Isto é, pela busca do poder. O ex-ministro mostrou ainda simpatia para com o projecto de Marcelo Rebelo de Sousa.

 O acordo de esquerda é ainda uma hipótese que pode não chegar a bom porto. Em entrevista à RTP, Luís Amado recorda que o acordo entre PS, Bloco de Esquerda e PCP não está ainda fechado e duvida que este se concretize.

 Na Grande Entrevista, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros assume que esta não é a sua opção predilecta.

 “É difícil conciliar programas tão distantes em relação a matérias cruciais que foram identificadas como matérias críticas”, afirma. Apesar dos “passos significativos” nas negociações, Amado espera por um acordo palpável e conhecido.

 “Esperarei até ao fim para ver que tipo de acordo é possível gizar com o PCP e o BE”, es-clarece.

 Luis Amado aguarda, sendo certo que um eventual acordo não será a sua proposta pre-ferida. O ex-ministro considera que a melhor opção seria uma convergência entre o PSD e o PS.

 “Um governo de grande coligação, de bloco central, que respondesse a problemas es-truturais da economia portuguesa”. Para o ex-ministro, Portugal não teria chamado a troika se essa convergência tivesse ocorrido em 2009 ou 2011.

 “Não tenho dúvida nenhuma sobre isso. O país entraria num ciclo de crescimento muito mais rápido do que aquilo que tem tido”, afirma.

 

* “Misturar água com azeite”

 

  Para o presidente do Banif, o acordo à esquerda terá uma “consistência” que “não tem comparação com um bloco de duas forças que são pertencentes às duas grandes famílias europeias”. Para o ex-ministro, “é difícil gerar confiança e estabilidade” com um acordo à esquerda.

 Amado sublinha que este é um acordo que junta uma força “europeísta” e “social-democrata”, com forças de linha “revolucionária”, “socia-lista, trotskista e comunista que têm um património histórico completamente diferente”.

 “É um pouco misturar a água com o azeite”, exemplifica.

 Para o ex-governante, se o PS, o PCP e o BE chegarem a um acordo “que garanta estabilidade governativa e os compromissos assumidos”, estar-se-ia a assistir a uma refundação do sistema político em Portugal.

 “Entramos numa nova fase com consequências positivas ou negativas conforme a dinâmica do compromisso assumido for executado”.

 Amado considera que o PCP “surpreendeu” por abrir a possibilidade a apoiar um executivo do PS, tal como o Bloco de Esquerda. “Em parte reflecte a profunda desilusão que o processo político na Grécia provocou no Bloco de Esquerda”, explicita.

 

* Luis Amado como primeiro-ministro?

 

 Em cima da mesa tem também estado a hipótese de Cavaco Silva indigitar um governo de iniciativa presidencial. A semana passada, Paulo Rangel avançou mesmo que o próprio Luís Amado poderia liderar um executivo deste tipo.

 “Não faz nenhum sentido. Não vejo condições para ha-ver um governo de iniciativa presidencial”, defendeu.

 O economista considera que Cavaco não tem grande alternativa à indigitação de Costa caso haja acordo à esquerda. “A não ser que o acordo não satisfaça os requisitos que ele próprio colocou”.

 

* Apoio a Marcelo?

 

 Quanto ao futuro do PS, Amado admite que se identifica com algumas das ideias que têm sido defendidas por Francisco Assis. O ex-ministro não diz se o apoiaria a uma corrida à liderança do PS, apontando que essa não se encontra actualmente em jo-go.

 Sobre as presidenciais, Ama-do afirma que não pensou ainda em quem vai apoiar. “São candidatos a mais”, desabafa, garantindo que não tem tido “disponibilidade de espírito” para o assunto e que também não tem afinidade com nenhum dos candidatos socialistas anunciados. Afinal, será Amado apoiante de Mar-celo Rebelo de Sousa?

 “Não diria isso nesses termos”, respondeu ao jornalista Vítor Gonçalves. No entanto, admite que tem “apreciado as posições de Marcelo”, sobretudo na “reserva” e "independência” face ao PSD. Amado diz ter boas relações pessoais com o professor.

 O ex-ministro elogiou ainda o “sentido de Estado” com que Marcelo agiu durante o governo de António Guterres.

 

* “Objetivos de poder”

 

 Luis Amado considera que houve um afastamento entre o PS e o PSD face ao que acontecia antes. “Há um excesso de fulanização da vida pública e partidária. Há muita pessoalização das relações políticas”.

 Para o ex-governante, há também muito “ressentimento” no tabuleiro político.

 Amado considera que os dois partidos se foram afastando em termos de ideais, apontando que o PSD se tornou muito mais liberal. Para Amado, falta centro em Portugal.

 “A sociedade portuguesa divide-se entre o centro-esquerda e o centro-direita muito maio-ritariamente. Está hoje refém de pessoas extremadas e de uma dinâmica de radicalização e bipolarização excessivas".

 As críticas aos partidos prosseguiram. Amado lamenta que os partidos estejam muito condicionados pelos “objectivos de curto prazo”, Isto é, pelo “poder”.

 “Há muito condicionamento dos objectivos de curto prazo, de poder, que os partidos por si mesmo geram”.

 Amado considera que os líderes partidários têm tido res-ponsabilidades nesta situação.