Levar o euro a uma Comissão de Verdade e Reconciliação

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Levar o euro a uma Comissão de Verdade e Reconciliação

O historiador do euro e consultor internacional David Marsh disse ontem em entrevista à Lusa que faz falta uma Comissão de Verdade e Re-conciliação sobre a crise da dívida soberana europeia, para esclarecer o que correu mal na moeda única.

 “Não é para apontar culpas, mas para ver onde é que o projecto do euro correu mal. Por isso, acho que é necessário fazer uma Comissão de Verdade e Reconciliação, nalgum momento, para ver onde é que foram cometidos erros”, disse o britânico David Marsh, autor do livro “O Euro – A Batalha pela Nova Moeda Global”.
 Para Marsh, é Portugal que tem de escolher se quer estar no euro ou não – seguindo regras que serão mais severas – porque ninguém vai querer expulsar o país da moeda única. No entanto, o autor prevê também que a pressão dos credores para o país fazer reformas será cada vez maior.
 “É muito duro, muito exigente, muito desagradável mas nós vivemos num mundo in-clemente. Os países credores, que financiam neste momento os países do Sul da Europa, vão ser cada vez mais e mais duros e vão dizer: ‘lamentamos muito, sabemos que vocês em Portugal já fizeram muito, mas ainda não fizeram o suficiente’. Vão também dizer que um país como Portugal andou a viver acima das suas possibilidades”, disse David Marsh.

 “Vão também dizer que ter vivido acima das suas possibilidades dá a Portugal mais espaço de manobra, mais gordura para cortes. É isso que os países credores vão dizer”, acrescentou o autor, que preside também à consultora internacional de gestão SCCO.
 Marsh, que não acredita que a moeda única acabe, admite, no entanto, que o seu desenho futuro, em termos geográficos, possa ser diferente, com uma zona euro a duas velocidades, criando mais uma separação entre a que já existe nos 27 países da União Europeia, com 17 dentro do euro e outros dez de fora.
 “É concebível que possamos prosseguir para um centro da zona euro mais radicalmente institucionalizado e mais coeso, com diversos países a decidir-se pela soberania política comum e partilhada. É uma possibilidade real, mas teria de ser um euro mais pequeno do que temos agora”, afirmou, na entrevista à agência Lusa.

 “A outra possibilidade é continuarmos a ter um grupo de países relativamente livre, onde o dinheiro é interligado através do Banco Central Europeu, com governos ainda muito diferentes, mas que têm de seguir as regras muito rigo-rosamente. Isto também aponta para um euro mais pequeno”, acrescentou.
 Uma outra possibilidade, diz ainda o historiador do euro, e uma zona euro com duas áreas, uma maior no Norte da Europa e uma mais pequena no Sul, onde o câmbio poderia flutuar de forma mais livre.
 Há muitas constelações possíveis, mas em todas essas constelações estará presente o euro”, concluiu.

* Maus da fita estão em Bruxelas, não em Lisboa ou Atenas

 A culpa da crise europeia não mora em Portugal nem na Grécia, mas em Bruxelas, na Comissão Europeia, disse em entrevista à agência Lusa David Marsh, historiador do euro e presidente do Fórum das Instituições Monetárias e Financeiras Oficiais (FIMFO).
 Apesar de ter pouco mais de uma década, a moeda única merece uma história, até porque os seus antecedentes têm quase dois séculos, diz o britânico David Marsh, que, para além dos trabalhos académicos, dos textos que escreve para publicação como o Financial Times ou The Economist, preside também à consultora de gestão SCCO ao FIMFO, que reúne líderes de bancos centrais, fundos soberanos e responsáveis políticos e empresariais do sector financeiro.

 “A busca por uma divisa única europeia data, pelo menos, de meados do século XIX”, disse David Marsh, autor do livro “O Euro – A Batalha pela Nova Moeda Global”, que acredita que a moeda única europeia tem ainda uma longa história à frente, apesar das actuais dificuldades.
 “Já se andou tanto, política e institucionalmente que não se pode agora voltar para trás. Por isso, o que quer que aconteça à moeda europeia, o euro continuará a existir, continuará a existir um Banco Central Europeu”, considerou.
 Quando vê as manifestações nas ruas de Lisboa, ou de Atenas, ou as taxas das dívidas públicas de Portugal, da Gré-cia ou de Espanha a subir, David Marsh tem também a certeza de que os mercados estão a bater à porta errada quando culpam os cidadãos, os bancos ou os governos europeus e os acusam de ter gasto mais do que deviam.

* Os verdadeiros vilões são os funcionários europeus

 “Os verdadeiros vilões são os funcionários europeus. Não são as pessoas nas ruas em Portugal, ou na Grécia, nem sequer os governos de Portugal ou da Grécia, nem sequer os banqueiros, que só estão a fazer aquilo que sempre fizeram – tentar ganhar dinheiro sendo tolos e gananciosos”, afirmou.
 “Os verdadeiros vilões são os tecnocratas em Bruxelas, que não conseguiram ver a necessidade de ter mecanismos de segurança, de criar mecanismos como as eurobonds, quando as coisas estavam ainda relativamente bem, nos cinco primeiros anos do euro. E isso foi de uma complacência colossal, criminosa”, acrescenta David Marsh.

 Para Marsh, a oportunidade de integrar as finanças públicas dos países da zona euro através da mutualização e da emissão conjunta de dívida soberana da zona euro – as chamadas eurobonds – é também uma oportunidade que já se perdeu e não se recupera.
 “É demasiado tarde para isso. A altura certa para as eurobonds teria sido quando tudo estava a correr razoavelmente bem, até 2005, e quando ainda se poderia ter aglomerado os países com a notação financeira máxima de AAA e outros países com um bom ‘rating’. Agora já estamos atrasados”, afirmou.

 Marsh não acredita que a Grécia possa sair do euro, mas afirmou, na entrevista à Lusa, que se isso acontecer não será a sentença de morte da moeda única, até porque já estão em actividade os mecanismos de resgate da zona euro – o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (temporário) e o Mecanismo Europeu de Estabilidade (permanente) – que servem como barreiras de segurança contra um contágio da bancarrota grega.
 “Não seria um golpe mortal se a Grécia decidisse abandonar a zona euro. É perfeitamente possível que se a Grécia, por razões especiais, decidisse, por si, sair da zona euro, que a moeda única continuasse com 16 membros. As barreiras de protecção estão no terreno, há muito mais munições monetárias que há dois anos”, considerou.