José Maria Pedroto, desapareceu o homem mas o seu espírito de conquista continua a perdurar no Porto

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José Maria Pedroto

José Maria PedrotoJosé Maria Pedroto é um nome incontornável no futebol português, sobretudo pela exemplar carreira de treinador. Ainda hoje é o terceiro com mais jogos na 1.ª divisão nacional (573, atrás dos 626 de Fernando Vaz e dos 617 de Manuel de Oliveira) e foi ele o mentor do primeiro Boa-vistão da história, do arrebatador V. Setúbal europeu e o FC Porto bicampeão nacional naqueles anos 70.

Antes disso, Pedroto foi também um jogador de classe internacional, ao ponto de contabilizar 17 internacionalizações pela Selecção A (uma pelo Belenenses e as outras 16 pelo FC Porto).
 E é desses dois clubes que falaremos, a respeito da extraordinária transferência de Pedroto do Restelo para as Antas, que escaldou o Verão de 1952.
 A 9 de Agosto de 1952, o FC Porto anunciou a transferência recorde de um jovem irreverente, com escola feita no Norte do país.

 Primeiro, no Porto, para onde foi morar aos sete anos, levado pelo pai, que era militar e fora colocado num quartel na Invicta – foi aí que começou a dar os primeiros pontapés na bola, a tentar imitar o seu ídolo de então, um fabuloso jogador do FC Porto chamado Pinga.
 Depois, aos 10 anos, mudou-se para Pedras Rubras, onde fundou o FC Pedras Rubras e multiplicou-se nas funções de presidente e capitão da equipa. Aos 18, entrou nos juniores do Leixões, como médio.

 O seu talento era visível com um toque na bola, mas Pedroto gostava de dar mais, muito mais.
 Tanto que, certa vez, frente ao Académico do Porto, pediu a bola ao seu guarda-redes e foi por ali fora a driblar toda a gente até chegar à linha da outra baliza.
 Aí, marcou de calcanhar, depois de puxar os calções para cima e de se pentear. Foi levado em ombros pelos colegas mas o seu treinador (Armando Martins) deu-lhe uma descompostura tão grande sobre o futebol colectivo, e não individual, que Pedroto nunca mais repetiu a cena.
 O serviço militar em Tavira obrigou-o a continuar a carreira no Algarve.

 Escolheu o Lusitano de Vila Real de Santo António. É, aliás, aí que dá nas vistas, com um golo de fora da área ao Sporting (2-0 para o Lusitano) que Azevedo, o inimitável guarda-redes leonino, sempre considerou um dos melhores da sua carreira. Na época seguinte, o Lusitano desceu de divisão e Pedroto, já sem serviço militar por cumprir e sem ordenado (só recebia por jogo: 100 contos por vitória, 60 por empate e 20 por derrota), optou por viver em Lisboa, ao serviço do Belenenses, que lhe ofereceu 25 mil escudos por mês. Um director do FC Porto ainda lhe deu um cheque de 80 contos mas Pedroto não quis voltar atrás com a palavra.

 Nas Salésias, Pedroto estava bem instalado, a ganhar bem, com um emprego estável na Hidro-Eléctrica do Zêzere, e a jogar enormidades. Com naturalidade, foi chamado à Selecção (0-3 com França em Paris, a 20 de Abril de 1952), juntamente com outro belenense, o defesa Serafim, capitão de Portugal. O seu físico acompanhado de uma técnica apurada garantia-lhe sucesso em toda a linha.
 Por isso, o FC Porto voltou à carga e Pedroto contra-atacou a esta investida com números astronómicos: ou 150 contos por mês ou nada. E o FC Porto respondeu na mesma moeda: 335 contos para o Belenenses e 165 para Pedroto, num total de 500.

 Com tanto escudo, Pedroto acabava por se tornar o jogador mais rico de Portugal e (também) transferência mais cara de sempre no país.
 É, aliás, um Verão atípico nas Antas. Além do treinador argentino Lino Taioli, antigo seleccionador da Colômbia, entram Carlos Duarte, Perdigão (de Angola), Albasini (de Moçambique) e o já citado Pedroto.

 Juntos, haveriam de festejar uma inédita dobradinha em 1956. Depois, mais uma Taça de Portugal (1958) e outro campeonato (1959). No ano seguinte, o adeus de Pedroto, aos 31 anos de idade e com um total de 35 golos em 178 jogos, o último dos quais a 29 de Maio de 1960, no Barreiro (0-2 com CUF).
 Seguir-se-iam muitos mais jogos, como treinador, mas isso é outra história, gloriosa, também, mas sem tantos cifrões.

 Mais do que revolucionar a correlação de forças no futebol português, José Maria Pe-droto transformou o próprio futebol. O “mestre” desapareceu há 26 anos e mereceu a devida homenagem do FC Porto, clube que ajudou a projectar como jogador, na década de 50 e como técnico nos anos 70 e 80 (tendo-se estreado com uma passagem pelo banco em finais de 60).
 Além dos brilharetes ao serviço de clubes de menor dimensão como Académica, Vitória de Setúbal, Vitória de Guimarães e, sobretudo, Boavista, onde conquistou duas Taças e dois segundos lugares no campeonato, Pedroto brilhou nas Antas.

 No FC Porto, onde quebrou o jejum de 19 anos sem vencer ao arrancar para o bicampeonato na temporada de 1978/79,  Pedroto lançou as bases de uma grande equipa europeia.
 Sucedeu-lhe Artur Jorge, seu protegido no banco de suplentes, que das épocas em que conviveu com o mestre recorda o facto de ele “ver mais do que todos os outros” e gaba-lhe a integridade e a defesa do grupo de trabalho, mesmo quando já nos últimos instantes de vida “se deslocava com dificuldade para assistir aos treinos da equipa.”

 Hernâni Gonçalves, ex-preparador físico do “mestre” frisa a capacidade de inovação de um treinador de carisma, que além de “dominar todos os aspectos do jogo sabia como entusiasmar os seus jogadores”.
 Um desses foi Rodolfo Reis, que distingue Pedroto como “grande líder” e um treinador de vanguarda: “Defendia até à morte o FC Porto e atacava quanto podia os seus adversários.”

 Pedroto faleceu a 7 de Janeiro de 1985, vítima de doença cancerígena.
 Levantou-se da cama pela última vez, dois meses antes, para receber das mãos do então Presidente da República Ramalho Eanes a Ordem do Infante. Na hora da despedida, milhares de pessoas deslocaram-se ao cemitério de Agramonte.
 Desapareceu o homem, mas o seu espírito de conquista continua a perdurar no FC Porto.