João Rodrigues: o atleta português mais olímpico de sempre

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O velejador João Rodrigues é o atleta português com mais presenças em Jogos Olímpicos, contando com sete edições, desde 1992, em Barcelona, até 2016, no Rio de Janeiro, onde foi o porta-estandarte da delegação portuguesa.

Teve como melhor resultado o sexto lugar em Atenas 2004 na classe Mistral.

Somou ainda 63 medalhas em provas internacionais, com destaque para o título mundial em 1995, em Port Elizabeth, África do Sul, e três títulos europeus.

Ainda no ano passado voltou a ser campeão do Mundo de raceboard, classe não olimpica.

João Rodrigues, nasceu há 48 anos em Santa Cruz, na ilha da Madeira, descobriu a vela aos 9 anos e começou a competir aos 11 anos.

Em entrevista na edição desta semana de O Século de Joanesburgo, o atleta internacional conta como é viver estes meses pré-olímpicos sem saber se vai haver Jogos e explica como se lida na Madeira com a pandemia do novo coronavírus.

“Com a pandemia do Covid-19 a alastrar pelo planeta inteiro, estes meses pré-jogos tornaram-se um enorme desafio. Enquanto presidente da Comissão de Atletas Olímpicos – CAO, consigo ter a percepção do drama que é para os atletas estarem confinados em casa, sem poderem treinar convenientemente”, afirmou João Rodrigues.

O atleta português disse que a CAO criou uma linha de apoio a todos os atletas integrados no Projecto Olímpico Tóquio 2020, estabelecendo assim um canal de comunicação com todos os atletas.

“Assim, podemos prestar apoio nas mais diversas valências, desde nutrição, apoio psicológico, apoio médico e até questões relacionadas com a missão propriamente dita, por outro lado, os atletas têm à sua disposição um meio onde podem colocar todas as suas dúvidas e pedidos de esclarecimento”, adiantou.

Questionado se os Jogos Olímpicos de Tóquio vão efectuar-se conforme previsto, o atleta português referiu que as entidades que integram o grupo de trabalho para analisar a questão – entre as quais o Comité Olímpico Internacional (COI) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) dispõem de dados que lhes permitem manter as datas previstas para os Jogos Olímpicos.

“Não duvido que as mesmas terão plena consciência do que se encontra em jogo nesta decisão, mas, seja ela qual for, estes Jogos Olímpicos ficarão para sempre marcados por esta crise de saúde mundial, quer se realizem na data prevista, quer sejam adiados, haverá sempre uma percentagem significativa de atletas que verá o seu desempenho condicionado”, sublinhou. 

De acordo com João Rodrigues, o Comité Olímpico de Portugal (COP) sugeriu ao Governo português que considerasse medidas excepcionais de mobilidade aos atletas integrados no Projecto Olímpico, permitindo-lhes assim, continuar a treinar mas respeitando todas as directrizes no sentido de evitar a propagação da pandemia.

Portugal tem apenas um velejador qualificado para as olímpiadas de Tóquio, situação que, na óptica de João Rodrigues, resulta da falta de preparação de uma nova geração de atletas.

“A vela portuguesa teve uma geração de ouro, que se formou no início dos anos 90 e da qual, os últimos velejadores ainda no activo, são precisamente aqueles que compõem a dupla de 49er, Jorge Lima e José Costa, qualificados para os olímpicos de Tóquio 2020. Não quer dizer que a geração mais nova de velejadores lusos não tenha potencial igual ou superior até, mas não tiveram as mesmas oportunidades que nós na altura e isso reflecte-se na qualidade dos resultados, que infelizmente culminaram no cenário que se conhece”, referiu. 

“Durante duas décadas, foram praticamente sempre os mesmos velejadores a conseguirem presenças nos Jogos Olímpicos, sinal de que não houve capacidade para se aproveitar todo esse conhecimento e transmiti-lo a gerações mais novas”, adiantou.

João Rodrigues considera que existe em Portugal uma enorme vontade em desenvolver a Vela uma vez que o país tem condições ímpares no contexto Europeu para a modalidade. Todavia, reverter a situação actual levará ainda muito tempo porque para “preparar um atleta para estar nos Jogos Olímpicos leva em média uma década.”, afirmou o atleta campeão do mundo.  

Em 1995, na África do Sul, o velejador português conquistou o primeiro título mundial numa regata de alto nível realizada em Port Elizabeth.

“Tão gratas memórias! Viajei por muitos sítios por esse mundo fora, mas Port Elizabeth ficará para sempre como aquele local especial onde pela primeira vez pude sentir o que significa fazer regatas ao mais alto nível na perfeição!”, recordou ao Século de Joanesburgo.

“Quando penso nisso, sei que também foi pelo ambiente daquela cidade que pude transcender-me, aquelas pessoas, aquelas praias, aquele mar, aquelas ondas, identifiquei-me tão bem que foi como se me sentisse em casa. Recordo-me de cada pormenor, de cada local, quase de cada hora lá vivida. Porque o que lá vivi, foi uma das mais belas histórias da minha vida”, vincou.

O atleta deixou ainda ficar uma mensagem de carinho e de coragem para a comunidade madeirense radicada na África do Sul.

“Sim, duas até, a primeira é a de que nunca esquecerei a forma tão carinhosa como nos receberam em 1995,  a segunda, é também uma mensagem de encorajamento, para que também consigam enfrentar esta pandemia que eventualmente atingirá todos os pontos do planeta, e não se esqueçam: fiquem em casa!”, afirmou ao Século, João Rodrigues.